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É de praxe que um bom filme peça por uma sequência – a não ser é claro que ele funcione como um standalone totalmente amarrado. Entretanto, quando Steven Soderbergh desenterrou o fracassado “clássico” Onze Homens e um Segredo dos anos 1960 e conseguiu transformá-lo em uma releitura muito melhor que o original, era quase óbvio esperar que o golpista Danny Ocean (George Clooney) retornasse com sua trupe de enganadores mais um roubo inesperado. Entretanto, se você tinha qualquer esperança de que essa continuação fosse melhor ou superasse quaisquer expectativas, sinto informar que as coisas não tiveram um desenrolar muito agradável.

Três anos depois do assalto aos cassinos de Las Vegas, Danny finalmente mergulhou em uma vida “tranquila”, por assim dizer, ao lado de sua agora esposa Tess (Julia Roberts retornando com um protagonismo merecido para uma personagem pouco explorada na iteração anterior). Os dois planejam reformar a grande casa que compraram e comemorar o segundo-terceiro aniversário de casamento até que são abordados por um já esquecido Terry Benedict (Andy Garcia), voltando para acertar as contas e ameaçar cada um do grupo – conhecido como Ocean’s Eleven – a devolver o que pegaram. Parece meio clichê apresentar agora uma mudança tão brusca no jogo, mas Soderbergh tenta tirar o maior proveito que consegue disso.

Para dizer a verdade, toda a premissa e o pano de fundo inicial do longa são bem interessantes e nos deixam intrigados quanto ao que pode vir. Isso já ocorre no breve prólogo, o qual nos transporta para uma relação desconhecida entre Rusty Ryan (Brad Pitt) e a detetive da polícia europeia Isabel Lahiri (Catherine Zeta-Jones), desenvolvendo-se do modo mais cômico possível e sendo retomada inúmeras vezes ao longo da narrativa. E como complemento, devo dizer que Zeta-Jones é uma das poucas coisas que realmente brilham nesse novo microcosmos narrativo.

Do ponto de vista crítico, gostaria muito de dizer que o problema estrutural principal se resume ao roteiro – e que esse deslize seria facilmente mascarado por uma boa direção e uma boa montagem. Entretanto, além do aparente emburrecimento dos personagens, Soderbergh parece não saber como trabalhar com a câmera; é quase se estivéssemos assistindo a inúmeros fragmentos fílmicos diversos que foram amalgamados forçosamente. A cada virada de ato, a estética cênica muda de forma brusca e não se preocupa em buscar uma explicação estilística satisfatória para o público; aliás, talvez o diretor duvidasse, ainda que sem intenções, da capacidade de compreensão dos espectadores de que várias coisas não estavam fazendo sentido.

Mas primeiro, falemos da história em si: já vimos este tipo de história várias vezes, e tínhamos alguma esperança de que Soderbergh, em parceria com George Nolfi, pudesse continuar a incrível investida feita em 2001. Porém, tal preocupação de manter-se fiel aos esquemas de outrora dura apenas no primeiro e no começo do segundo ato, sendo retomado brevemente em um deus ex machina totalmente ridículo e que traz à tona algumas das sequências mais risíveis dos últimos tempos. Todo o escopo arquitetado, incluindo o delineamento do plano para roubar o famoso Ovo Fabergé (estimado em mais de 150 milhões de dólares), cai em convencionalismos que poderiam ser evitados e que, na verdade, funcionam como cansados estigmas de um reaproveitamento de gênero; em outras palavras, o mesmo do mesmo.

Caso esta sequência conseguisse ao menos reverenciar a soberba montagem de seu original, os claros equívocos dialógicos seriam facilmente varridos para debaixo do tapete. Mais uma vez, a expectativa mostra-se a mãe de todas as decepções, e as construções imagéticas insurgem como um experimentalismo exacerbado do diretor – que, em pouco mais de 120 minutos, cria um visual documentarista, faz referências à irreverência de Jean-Luc Godard e até mesmo inclina-se para os enquadramentos típicos da Era de Ouro de Woody Allen. Para um filme policial tragicômico, tudo isto é desnecessário; saturado; descartável, se pensarmos por esse lado – e, no geral, não contribui em nada para aumentar a complexidade do filme.

Se Doze Homens e Outro Segredo peca nas questões supracitadas, não podemos deixar de citar seus momentos de glória. Além do retorno de um elenco de ponta – que também traz Matt Damon em um arquétipo de escape cômico mais sagaz que o restante de seu time -, a trama mantém-se fiel (ao menos isso) à sua rebeldia de gênero. Falas ácidas, sarcasmos a todo vapor e algumas alfinetadas conseguem contribuir para a envolvência do público. Roberts e Zeta-Jones entregam-se a performances memoráveis e aprazíveis – esta acabando de sair do sucesso Chicago -, e até ousam brincar com uma metalinguagem na qual Roberts, encarnando Tess, interpreta a si mesma em cenas de glória ao lado de Bruce Willis (sim, é isso mesmo).

Em suma, a sequência que nos é apresentada é falha. Bem falha. Porém, é possível compreender o que Soderbergh tentou alcançar – mais um sucesso a um projeto que se mostrou competente, ao menos no passado. Mesmo com boas intenções, o longa prova um ponto, sem sombra de dúvidas: às vezes é melhor não forçar a barra e não mexer em time que está ganhando.

Doze Homens e Outro Segredo (Ocean’s Twelve, EUA – 2004)

Direção: Steven Soderbergh
Roteiro: George Nolfi
Elenco: George Clooney, Brad Pitt, Matt Damon, Catherine Zeta-Jones, Julia Roberts, Casey Affleck, Scott Caan, Bernie Mac, Andy Garcia, Don Cheadle
Gênero: Drama Criminal
Duração: 125 min