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Ed Wood tornou-se um dos nomes mais conhecidos da indústria cinematográfica pelos motivos errados: além de seu duvidoso gosto em relação a boas histórias e até mesmo à construção fílmica, o cineasta ganhou uma fama póstuma como um dos piores de sua geração e, quase de forma irônica, seus filmes B adquiriram uma legião de fãs sedentos pelo tom escrachado de suas narrativas, incluindo os efeitos especiais de baixíssimo orçamento e o reaproveitamento dos materiais arquivados por companhia muito conhecidas, como por exemplo a Universal Pictures. Como se não bastasse, Wood também foi responsável por reinserir o nome do obsoleto Bela Lugosi, imortalizado por sua rendição Conde Drácula, dentro do meio do entretenimento, visto que era um irremediável fã do ator.

Sua tragicômica história é vista com ares humorísticos – e talvez encará-la de outra forma seria uma saída um tanto quanto angustiante. Não se pode negar que ele dialoga essencialmente com a ideia do “sonho americano” – talvez a premissa que tenha inspirado outro conhecido nome dessa esfera, Tommy Wiseau (que também ganhou sua própria biopic) -, e Tim Burton parece ter se apaixonado por essa incrível trama de superação e decadência. É quase estranho imaginar uma mente tão distorcido quanto essa realizando uma investida no mundo cinebiográfico, principalmente se levarmos em consideração suas obras anteriores como Os Fantasmas se Divertem e Edward Mãos de Tesoura. O resultado, que poderia ter fadado ao fracasso, na verdade transforma-se em uma de suas melhores histórias – e tudo com uma perspectiva completamente aversa ao convencionalismo do gênero.

Como já sabemos, a trama principal gira em torno de Edward D. Wood Jr. e suas tentativas de escalação social dentro de um dos meios laborais mais cruéis e viscerais do mundo. Ele inicialmente é um diretor teatral responsável por produções bombardeadas pela crítica. É muito interessante notar sua decadência sendo externalizada por um cenário tão caótico quanto – a primeira sequência na verdade alterna entre o palco e uma plateia quase vazia, exceto por um balde que serve para conter uma irritante goteira, e uma velha senhora que parece não saber onde está exatamente. Mesmo assim, o cego otimismo e confiança de Ed permanece inabalável: ele diz para si mesmo e para sua trupe de artistas que eles fizeram um grande trabalho e que ele não consegue crer que a imprensa perdeu a estreia mundial de sua peça, mandando um representante para cobrir o evento.

Johnny Depp retorna agora como constante colaborador de Burton no personagem-título: sua caracterização é exímia e memorável, marcado por uma expressão facial que é cômica e assustadora ao mesmo tempo, afastando-se da inexpressividade robótica de seu papel anterior e fornecendo uma inebriante e crescente loucura que encontra várias brechas para explorações mais complexas. Afinal, Ed também trazia consigo certos fetiches que conversavam com sua inerência pelo estranho e pelo bizarro – incluindo uma afinidade por casacos de angorá e por travestir-se de mulher (ainda que isso seja revelado um pouco mais para frente). De qualquer modo, sua personalidade é única, e ninguém pode negar que ele se entregava de corpo e alma para suas produções.

A oportunidade de mostrar suas “habilidades” finalmente dá às caras quando uma pequena produtora resolve produzir um longa acerca de uma mulher transexual. O diretor logo utiliza de seu inegável charme para conseguir abraçar o projeto juntamente à sua namorada Dolores Fuller (Sarah Jessica Parker), a qual o auxiliava participando como atriz e datilógrafa dos roteiros. Entretanto, ainda que seu fracasso iminente entre em um arco de foreshadowing principalmente pela estética escolhida por Burton, Ed tem plena ciência de que o show business e o mundo do entretenimento prezam por grandes nomes – e é nesse momento que ele se encontra com o lendário Bela Lugosi (encarnado pelo aplaudível Martin Landau), o qual caiu no esquecimento mas recebeu uma proposta de retornar ao prometido estrelato.

Ainda que a narrativa seja previsível – não em relação à construção do roteiro ou até com a presença dos diálogos, visto que a perspectiva fornecida por Scott Alexander é tão metafórica quanto propositalmente canastrona, principalmente no tocante aos monólogos proferidos por Ed e por Bela -, o ponto de maior encantamento sem dúvida reside à técnica. Posso dizer sem sobra de dúvida que Ed Wood é o ápice de sua carreira como diretor e storyteller por não apenas ser uma obra original, trazendo maneirismos estéticos que conversam com o macabro cosmos pelo qual ficou conhecido, mas por evocar uma nostalgia cinematográfica de grandes clássicos do cinema.

Desde a opção por deixar o produto final em preto-e-branco até a utilização de transições fluidas e que seguem a rigidez formulaica de obras das décadas de 1930 e 1940, o diretor inclui sua homenagem tanto a Ed quanto a nomes como Alfred Hitchcock, resgatando elementos de seus suspenses psicológicos dentro de um escopo mais suave e cômico. Além dos enquadramentos que prezam por um intimismo cênico, temos a presença de inúmeras referências ao cinema noir, que em si já é uma amálgama mimética ao expressionismo alemão e ao neorrealismo italiano: temos a constante presença do triângulo de Rembrandt, uma identidade cuja finalidade é esconder as feições de um personagem à meia-luz deixando-o com uma atmosfera dúbia, principalmente quando reforçada pela excessiva presença da fumaça – seja da ambiência externa, seja dos cigarros. Até mesmo a representação dos personagens, que buscam seus objetivos no niilismo e do hedonismo, conversa com essas vertentes criativas mais forte do que se espera.

Burton também entrega-se a fazer sua homenagem ao protagonista ao colocar referências ao icônico Cidadão Kane, obra-prima de Orson Welles que nunca recebeu o mérito que deveria à época de seu lançamento. Há um breve momento, seguindo os padrões dramáticos desse longa em questão, em que Orson e Ed se encontram e tem uma breve discussão sobre a indústria do cinema e como aquele é um jogo sanguinário e uma pura carnificina que usa e abusa até que a última gota de vida seja esvaída. Apesar do confronto ter um ar melodramático – perscrutado por uma rendição mais floreada da trilha sonora de O Lago dos Cisnes -, tudo caminha em uma fluidez muito interessante e envolvente.

Ed Wood é ultrajantemente divertido e incrível. Além de performances muito bem delineadas e um escopo sólido, essa obra emerge como a principal base para a promissora carreira de Burton, mostrando que sua versatilidade e sua habilidade narrativa não se restringem apenas à ode do bizarro, mas também a dramas verossímeis que refletem o sonho de muitas pessoas – incluindo o seu próprio.

Ed Wood (Idem – EUA, 1994)

Direção: Tim Burton
Roteiro: Scott Alexander, Larry Karaszewski, baseado na obra de Rudolph Grey
Elenco: Johnny Depp, Martin Landau, Sarah Jessica Parker, Patricia Arquette, Jeffrey Jones, G.D. Spradlin, Vincent D’Onofrio, Bill Murray
Gênero: Drama, Comédia, Biografia
Duração: 127 min.

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