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Infelizmente, a maioria das cinebiografias de músicos parte da mesma fórmula: resumir a vida do artista baseado em seus momentos mais importantes. “Ray”, “Johnny & June”, “Cazuza – O Tempo Não Para” e ”Tim Maia” seguem essa fórmula. Não significa que os filmes são ruins, mas soam mais como uma página de uma enciclopédia do que realmente algo que poderia ajudar a compreender de maneira mais profunda o artista representado, quais eram as suas inquietações e suas inspirações. Pois bem, “Elis” segue essa mesma fórmula em resumir a vida de Elis Regina baseado nos momentos mais fortes de sua carreira. Mas mesmo seguindo essa fórmula, vemos um filme agradável, que contém ótimas atuações, além de ser visualmente fabuloso.

O longa retrata desde o momento em que Elis Regina (Andreia Horta) começa a sua carreira como cantora no Rio de Janeiro, no início da década de 60, a seu fim trágico em São Paulo em 1982, quando morreu de overdose. Durante esse tempo é mostrado personagens importantes da vida da cantora: o cantor Lennie Dale (Júlio Andrade), que ensinou a Elis como ter a presença de palco que a deixou famosa; Ronaldo Boscôli (Gustavo Machado) e Miéle (Lúcio Mauro Filho), que a descobriram, inclusive teve um casamento tumultuado com o primeiro; e Cesar Mariano (Caco Ciocler), pianista talentoso que foi casado com Elis no final da vida.

Bom, o primeiro ponto que merece ser discutido está no roteiro, que é assinado por Hugo Prata, que também assina a direção, junto com Luiz Bolognesi e Vera Egito. É um roteiro que tem seus acertos, mas também tem seus erros. Vamos começar pelos erros: há um notório exagero em elipses temporais, principalmente no segundo ato. Exemplo: vemos Elis se casando com Boscôli, corta e ela está grávida e depois de outro corte o bebê já nasceu. Ficamos sem saber o que aconteceu nesse meio tempo e para quem não conhece a história de Elis Regina, ficará perdido em certos momentos por conta dessas elipses.

Isso também acaba influenciando a montagem do filme, que dá para perceber que o ritmo está rápido demais em certos momentos. Outro ponto é o excesso de personagens no longa, sendo que muitos deles aparecem e simplesmente desaparecem. Como o personagem feio por César Trancoso, que empresaria a carreira de Elis desde o começo e simplesmente desaparece no terceiro ato. Ou o personagem do pai de Elis (Zécarlos Machado) que some no final do primeiro do primeiro ato e só é lembrado no fim do filme. E o espectador vai percebendo que há outros personagens que desaparecem e são poucos lembrados.

Mas mesmo com esses erros, o roteiro tem pontos fortes, como o desenvolvimento de personagens. A maioria dos personagens são bem escritos e cumprem bem sua função e a protagonista é muito bem definida. Entendemos as sua forte personalidade, além de ser muito carismática e simpática.

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Agora se o longa tem esses problemas de roteiro e de montagem, pelo menos ele é muito bem cuidado na parte técnica. A reconstituição das épocas retratadas é muito bem feita, isso desde o figurino até os detalhes dos locais, só prestar atenção nos estúdios em que Elis trabalha. Cada vez vemos uma decoração diferente, de acordo com a época que se passa. Ou a diferença de estilo entre o Rio de Janeiro e São Paulo.

Se a direção de arte é acertada, a fotografia de Adrian Teijido merece destaque. Não só mostra como Teijido é um dos fotógrafos mais ecléticos do mercado, mas como as decisões estéticas da fotografia são acertadas, principalmente por não ir para o óbvio. São movimentos de câmera muito precisos e o uso da câmera tremida é utilizado no momento correto. Além da paleta de cores ser muito bonita e expressiva, há takes em “Elis” que são sublimes.

O elenco está ótimo, todos estão bem em seus papéis, principalmente o ótimo Júlio Andrade, muito inspirado na composição do seu Lennie Dale. Mas o destaque fica por conta de Andrea Horta, que faz um trabalho incrível como Elis Regina. Confesso que sempre a considerei uma atriz mediana, nenhum trabalho anterior seu me chamou a atenção. Mas não só ela conseguiu captar os detalhes da cantora, que vão desde o seu sorriso marcante a seu sotaque, como consegue mostrar toda a personalidade forte que tinha em Elis.

Não por acaso o seu apelido era “Pimentinha”. E não se trata apenas de copiar, vemos que realmente Andrea está penetrada no papel, vemos realmente uma personagem na tela, não uma atriz interpretando um papel. Um trabalho realmente que merece destaque.

Já a direção de Hugo Prata se mostra segura, ao mesmo tempo em que não se propõe a trazer nenhuma novidade. Prata joga no seguro, mas mostra que sabe fazer essa parte muito bem, pois consegue fazer uma narrativa que prenda o espectador e que se emocione junto com Elis.

No fim, “Elis” tem vários problemas já vistos em filmes em autobiográficos. Mas como ele é um filme muito bem atuado e executado, o saldo geral é bem positivo. Só espero que façam mais biografias com propostas interessantes como “Não Estou Lá”, mas “Elis” não faz feio e merece o seu lugar ao Sol.

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