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Martin Scorsese é um dos principais diretores autores do cinema americano tendo até mesmo revolucionado a linguagem da arte como um todo com suas invenções visuais e soluções inteligentes. Como é comum para esse tipo de artista, há simplesmente uma área que Scorsese domina e faz melhor que muita gente: os seus filmes urbanos sobre máfia e crime. Mesmo que tenhamos uma porção de obras-primas desse tema bastante complexo, vez ou outra Scorsese precisa exorcizar seus demônios.

Filmes religiosos são uma constante, além de thrillers, documentários e filmes biográficos. A Época da Inocência é um de seus poucos e, provavelmente, o único filme de romance de época. É algo simplesmente incomum em sua carreira não muito familiarizada com esse tipo de história e isso certamente é sentido ao longo do filme demasiado burocrático. Apesar disso, há um grande discurso dessa clássica história de Edith Wharton com a verve pessoal de Scorsese e é justamente isso que torna esse longa memorável.

A Prisão da Aristocracia

Para quem desconhece, A Época da Inocência é adaptado do livro homônimo de Edith Wharton. Com cuidados especiais de Jay Cocks e Martin Scorsese para a adaptação, temos uma narrativa bastante próxima a da obra original. Aqui, acompanhamos a alta sociedade elitista de Nova Iorque em 1870 através do olhar do advogado Newland da respeitada família Archer.

Sabendo que seria de bom tom casar-se com uma moça de família renomada, Newland está noivo de May Welland. Apesar do casamento ser bom para seu status público, o protagonista de mentalidade à frente de seu tempo, sabe que sua noiva tem os pensamentos fechados e pequenos impregnados na alta sociedade nova-iorquina. Desestabilizando ainda mais sua vida, Newland acaba conhecendo a prima casa de May, a condessa Ellen Olenska que fugiu da Europa em busca de suas raízes e de um divórcio contra seu desinteressado marido.

Newland e Ellen acabam próximos com as constantes visitas que um faz ao outro. Uma atração inapropriada surge e ambos se apaixonam, afinal ambos compartilham opiniões muito parecidas, além do corajoso modo de agir diante às imposições daquela sociedade. Em um dilema complicadíssimo, Newland precisa decidir se abandona sua noiva ou aceita não desestabilizar seu círculo social repleto de fofoqueiros hipócritas extremamente ricos.

A abordagem da adaptação que Scorsese traz em A Época da Inocência com certeza não é para todos. Ele opta em tornar seu filme menos cinematográfico ao inserir o mais incomum dos narradores over na sétima arte: o onisciente e onipresente. Através de múltiplas intrusões da narradora, Scorsese busca estabelecer os modos dessa alta sociedade de 1870, dos comportamentos éticos e da moral dos bons costumes entre aqueles cidadãos.

É uma característica única, mas certamente também funciona como uma faca de dois gumes que mais fere do que beneficia. Há um certo ditado que no cinema quase todo narrador over é dispensável com uma dose equilibrada de diálogo expositivo. Como não temos esse tipo de exposição nas conversas requintadas entre os personagens, a narradora pega toda a função para si, nunca falando algo que fosse realmente pertinente. É simplesmente incômodo, pois é possível ajustar essas inserções apenas com imagens mais inteligentes. Scorsese simplesmente decide sacrificar o ar cinematográfico para aproximar seu longa com um tom mais “literário”.

Há uma gritante falha estrutural nessa história da mesma forma. Apesar de acompanharmos sempre o ponto de vista do protagonista Newland, a narrativa perde significativamente a sua moral ao constantemente afirmar que aquela sociedade é “venenosa, hipócrita e depravada” ao nunca mostrar na tela as provas dessa afirmação. Para o espectador, apenas sentimos que os coadjuvantes são pessoas tediosas, muito chatas e preconceituosas de mente fechada, mas nada que fosse além disso.

Há casos sutilíssimos que tentam mostrar o nível de corrupção moral dos personagens ao fazer um homem casado perder o respeito de seu nome pelas incessantes investidas amigáveis na condessa Olenska – nada que fosse realmente condenável surge em tela. Ou quando a esposa desse mesmo homem procura a ajuda de sra. Mingott, uma das mulheres mais ricas e bem quistas da alta sociedade nova-iorquina. Mingott, sempre muito divertida e aparentemente uma mulher de pensamentos mais progressistas, enxota a mulher de sua casa, ultrajada pela “perversão” que havia se instalado naquele lar.

É sutil, de fato, mas insuficiente para mostrar o nível de canalhice que a narradora afirma ou dos sentimentos de Newland a respeito de seus colegas. Aliás, é justamente pelas estranhas escolhas com o protagonista que mal entendemos direito quem são aquelas pessoas e as respectivas importâncias sociais de seus papeis no meio. Nesse vai e vem constante de jantares e bailes com inúmeros rostos desconhecidos para o espectador, é inevitável perder o interesse nesses personagens tratados com a menor relevância possível pelo texto – apesar de serem peças fundamentais da moral do filme.

É impressionante, portanto, que A Época da Inocência não seja um desastre narrativo completo. Pelas boas performances de Daniel Day-Lewis e Michelle Pfeiffer, a proibida história de amor entre os dois funciona satisfatoriamente, apesar da jornada ser bastante tediosa. É proposital, de certa forma, que tudo seja tão lento e frio, afinal todo o ambiente externo aos dois vive de castrar emoções, transformando todos em robozinhos da alta sociedade, com os mesmos pensamentos, vícios e opiniões compartilhados em fofocas depois de elegantes jantares abastados.

Nos momentos que o casal proibido compartilha a sós, há fagulhas de personalidade e paixão que injetam mais vida ao retrato congelado que Scorse pinta com a encenação e ritmo do filme. Assim como na vida real, não existe uma justificativa no florescer do amor e na tensão sexual entre os personagens, e ainda assim conseguem convencer o espectador.

Isso se trata por uma condição inevitável de empatia para conosco: a opressão. Condessa Olenska é uma personagem oprimida em todas as suas características. Ela é prisioneira do marido, das boas normas que a impedem de conseguir o divórcio, é julgada por todos por ser uma mulher mais independente, além de ser indesejada na posição sócio econômica que conquistou, é rejeitada até mesmo pela própria família.

Nesse núcleo de opressão passivo agressivo, Newland tenta salvar a mulher dos maus dizeres e dos rumores odiosos. Se posicionando quase como uma figura paterna protetora, acaba se apaixonando pela mulher que tanto defende. Apesar disso, ao analisarmos melhor Newland, vemos que ele também se encontra em uma situação reversa, mas similar. É um jogo de situações similares, apesar de opostas.

O protagonista é prisioneiro de sua própria classe social. Embora pense e aja de modo diferente no âmago de sua privacidade, Newland precisa se comportar como os demais, embora durante sua jornada amorosa proibida, ele confronte pensamentos cruéis de seus colegas de vez em quando. Depois, através de suas próprias decisões errôneas, acaba prisioneiro de um relacionamento patético por falta de coragem em agir mais rapidamente. Newland, ironicamente, apesar de condenar seus colegas, acaba sendo o pivô da hipocrisia do filme. No final, há sim uma bonita reviravolta envolvendo o relacionamento muito rudimentar que o protagonista tem com sua esposa May ao longo de toda a obra.

Esforços de uma Época

É muito provável que A Época da Inocência seja um dos filmes melhor dirigidos de Martin Scorse. Não somente porque o filme é uma homenagem a seu pai, mas também, como disse, por trazer uma mensagem e jornada um pouco similares ao cenário que viveu em 1970.

A Nova Hollywood, dominada por figuras excêntricas e talentosas como Michael Cimino, Hal Ashby, Brian De Palma, Peter Bogdanovich, Woody Allen, Steven Spielberg, George Lucas, Francis For Coppola, William Friedkin e o próprio Martin Scorsese foi um experimento único na História do Cinema Americano conseguindo colocar os executivos de joelhos ao permitir que fizessem obras de arte autorais para pequenos públicos com custos de produção muitas vezes bastante altos. Esse voo de liberdade nasceu com violência e terminou rapidamente. Até o fim da década de 70, não haveria mais esse tipo de liberdade pelos diversos problemas de produção que os filmes apresentavam, além do prejuízo tremendo.

Scorsese experimentou o melhor e o pior nessa década, chegando perto até mesmo de morrer pelo vício frenético que possuía por drogas sintéticas e bebidas alcoólicas. Salvando-se por um triz, Scorse conseguiu algo que nem Spielberg conquistou de fato: foi o único desses cineastas a produzir grandes filmes caros podendo escolher os projetos que quisesse, sem apelar a franquias milionárias ou sequências de suas obras.

A Época da Inocência é uma grande carta aberta de lamento pela morte daquela liberdade que ele experimentou um século antes do tempo diegético do filme. Podia se expressar como quisesse através da arte, experimentar qualquer coisa e se divertir sem a preocupação do julgamento alheio. Esse assassinato da liberdade, dos modos mais brandos de coerção, é o tema desse longa. Justamente por isso que o diretor se dedica tanto a construir uma experiência catártica para o espectador.

Sabendo que se trata de uma narrativa muito estacionária de progresso lento, o diretor apela em fazer uma recriação fabulosa e fidedigna à época retratada. A Época da Inocência é um deleite visual como poucos outros. Há um cuidado exemplar com a direção de arte muito valorizada pelos enquadramentos majestosos de Scorsese focando na culinária, na tapeçaria, na prataria e porcelanato, nos móveis, na arquitetura das casas, das decorações em pinturas e estátuas e do figurino. É arrebatador de tão belo e apropriado, parece até mesmo que ressuscitaram o século XIX.

Os elogios também são apropriados para a decupagem de Scorsese que busca dinamizar a imagem do filme sempre que possível, seja inserindo jump cuts disfarçados, pequenos slow motions, explosões de cores a la Hitchcock em Um Corpo que Cai, e pela variedade visual de seus enquadramentos nada menos que perfeitos.

Mesmo que tenhamos uma infinidade de cenas sobre bailes, jantares e conversas com os personagens sentados em sofás ou bancos, Scorsese se nega a acomodar o visual do filme. Temos travellings agitados para mostrar toda a extensão de uma mesa, enquadramentos azimutais para exibir os pratos elegantes a partir do ponto de vista dos convidados, além de uma pequena série de planos sequência no começo do filme para dar a ilusão de um mundo mágico e perfeito.

A passagem para um lugar frio, sombrio e artificial é vista através de cenas muito estratégicas nas quais a cinematografia e iluminação de Michael Ballhaus simplesmente brilham de tamanha beleza que evocam sentimentos tristes, de luto e lúgubres. De modo constante, para replicar pinturas barrocas, Ballhaus usa essa iluminação característica por fugir do naturalismo, brincando com luzes pastéis e sombras profundas. Existem até mesmo transformações ativas na iluminação muito ousadas como quando Newland lê uma carta reveladora de Ellen Olenska. Todo o quarto se apaga e uma forte luz branca é jogada na linha do olhar do personagem, o forçando a enxergar uma verdade indesejada. Essa mesma luz que o cega na cena final do filme carregada de simbologia não somente por isso, mas também pelo uso do amarelo em elementos-chave da narrativa: as flores e o toldo.

Scorsese vai até mesmo além e ousa quebrar a quarta parede em alguns momentos bastante significativos para o protagonista. Apesar de criar um efeito interessante, é bastante inadequado para a atmosfera única que ele se esforça em modelar. Com os atores, o destaque fica para a dupla Day-Lewis e Pfeiffer. Mesmo sendo um ator muito investido nos seus personagens, Day-Lewis não consegue criar muito, provavelmente pela imposição da figura indesejável da narradora que castra os sentimentos que ele devia mostrar em tela.

Seu Newland é refém dessa situação desconfortável, apenas oferecendo uma das performances mais limitadas da carreira do ator. Há até mesmo uma estranha ocorrência na qual Lewis se põe à beira do choro na menor das discussões. O que deixa ele mais interessante são as expressões de ódio controlado que lança para May (Winona Ryder) ou pelo fato da química tão apurada e verdadeira que ele consegue criar com Pfeiffer – essa, muito competente em tornar Olenska uma figura sofrida e acostumada com a opressão.

A Censura da Inocência

Mesmo com tropeços expressivos, Martin Scorsese consegue tornar A Época da Inocência um ótimo filme. Sua mensagem continua extremamente relevante e, estranhamente, mais importante do que nunca durante o alvorecer de uma polícia do pensamento bastante odiosa, disfarçada como bastiões do politicamente correto, da boa moral e dos bons costumes.

Através de uma história de amor proibido sob os narizes de hipócritas vigilantes, Scorsese ousou deixar bastante claro: a maior beleza humana são as nossas indomadas paixões, corretas ou não. Vivemos em tempos tão “inocentes” quanto os de 1870. Scorsese criou um resgate sociológico que continuará atual por diversas épocas.

A Época da Inocência

Direção: Martin Scorsese
Roteiro: Martin Scorsese, Jay Cocks, Edith Warthon
Elenco: Daniel Day-Lewis, Winona Ryder, Michelle Pfeiffer, Geraldine Chaplin, Miriam Margoyles, Stuart Wilson
Gênero: Drama, Romance
Duração: 139 minutos.

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