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O western é um gênero enraizado desde as próprias origens dos primeiros passos da criação de narrativa no Cinema. Há uma quantia exorbitante de filmes sobre o indomável oeste americano, de grandes roubos ou enormes narrativas de vingança. Até os anos 1950 e 1960, seria fácil afirmar que depois de tantos filmes, o western estaria totalmente esgotado. Isso, até um certo icônico cineasta surgir e mudar o jogo.

Sergio Leone, um fã confesso dos western spaghetti, trabalhou uma trilogia inteira em cima do gênero, comportando inovações enquanto trabalhava de modo espetacular as limitadas narrativas de faroeste ao apresentar um herói sem nome e silencioso encarnado por Clint Eastwood. Assistindo a Era uma Vez no Oeste, é fácil apontar que a trilogia do Homem Sem Nome se tratava de um grandioso exercício para que Leone conseguisse fazer o western mais interessante da História do Cinema.

História Manchada de Sangue

Se aproximando dos cinquenta anos de existência, é possível dar certas liberdades para comentar sobre o roteiro de Era uma Vez no Oeste – apesar de ser um longa completamente transformado pela direção espetacular de Leone. A questão que tanto marca essa narrativa não é exatamente sobre a peculiaridade de sua história, mas sim o modo que ela é contada para o espectador.

É impossível definir com clareza sobre o que se trata o roteiro de Leone em conjunto com Sergio Donati. Eventos significativos ocorrem sem qualquer explicação, além de um silêncio majestoso segurar o filme até mesmo depois da marca de uma hora de exibição. Os roteiristas seguram nossa atenção apresentando essas situações cercadas de mistérios sobre elementos cruciais do storytelling: o quem? Quando? E por que?

De modo básico, a narrativa se concentra nos eventos posteriores a uma grande chacina que extermina a família do irlandês rabugento Brett McBain por motivos totalmente escusos, afinal o homem não possui uma fortuna expressiva, além de sua propriedade ficar no meio de um implacável deserto. Leone então apresenta, um a um, os diversos personagens que estão ligados de alguma forma a esse acontecimento em uma bela teia de conexões, mas nada complexa.

Sabendo do enorme tempo de exibição do longa, Leone espalha pequenas migalhas ao longo da história para que compreendamos a situação. É basicamente uma estrutura narrativa invertida, mostrando o fato para depois revelar os porquês. Esse modelo por si já é uma bela renovação das narrativas batidas que impregnavam o gênero por anos.

Leone até mesmo se dá o luxo de inserir três começos para o filme, apresentando com muito cuidado que é o herói, vilão e a mocinha. Quem lê e nunca viu a Era uma Vez no Oeste pode bem pensar que o roteirista não traz nada de novo para esses clássicos arquétipos, mas na verdade está totalmente enganado. Há um completo repúdio de Leone pelo que o western estava se tornando e através dessa história ele mostra o repleto potencial do gênero conseguindo conquistar até mesmo quem desgosta de faroestes.

Harmonica (Charles Bronson), Frank (Henry Fonda) e Jill McBain (Claudia Cardinale) fogem completamente das convenções do gênero, exibindo um punhado de camadas cinzentas reveladas gradativamente para o espectador, apesar de todos serem repletos de mistérios e motivações escusas. Uma das características mais interessantes é conectar o passado de Harmonica diretamente com o de Frank – o problema é que Frank não faz a menor ideia de quem seja o quieto homem.

Existem sim características místicas para cada um desses personagens principais, de certo modo. Harmonica lembra bastante o Homem Sem Nome, afinal ele também não possui um nome próprio ao longo da narrativa e sempre está a tocar uma icônica gaita. Leone evita a todo custo tornar o personagem muito simpático, o retratando como abusivo, egoísta e falho, mas letal, obstinado e com forte senso de justiça.

Já Jill McBain é possivelmente a personagem feminina mais interessante de todo o western clássico. Leone a escreve seguindo passos clássicos no começo a inserindo em uma situação sádica e inteligente – o roteirista é sempre muito esperto em transitar pontos de vista para revelar coisas ao espectador antes que os personagens saibam. Jill chega a Flagstone para enfim morar com seu marido já assassinado, Brett McBain. Estranhando que ninguém estava lá para busca-la, a moça segue sozinha até o Rancho da Água Doce, morada dos McBain.

Logo descobrimos alguns problemas em uma relação não muito saudável entre ela e seu ex-marido que jogam Jill para cantos cada vez mais sombrios e imorais. Leone preserva o sentimento da selvageria e do medo que existia no Velho Oeste, replicando esse instinto de sobrevivência em todos os personagens, mas principalmente com Jill.

Já Frank é um antagonista clássico, mas traído pela sua memória e baixa inteligência. O personagem é repleto de cobiça e aspira competências que nunca conseguirá suprir. Isso é melhor detalhado no começo do segundo ato, no qual é apresentado maior profundidade para o vilão que não passa de um capacho de um magnata das ferrovias quebrado pela tuberculose óssea, Morton (Gabriele Ferzetti). Nitidamente, os melhores diálogos estão concentrados nesse núcleo, com Morton não conseguindo ser encaixado facilmente como antagonista, mas sim como um personagem cheio de cobiça em uma relação psicológica fortíssima com o progresso e o ferro dos trilhos em contraste seu estado físico debilitado. É belo e lúgubre.

No meio disso tudo, rendendo um bom alívio cômico, há o líder de uma gangue de bandidos, o lendário Cheyenne (Jason Robards). Sua relação é quase incidental com o resto da narrativa, mas está ligada a chacina dos McBain e com Frank. O personagem se encontra em uma cilada que o responsabiliza pelo massacre que não cometeu, o motivando ir atrás do antagonista e a se relacionar com Jill e Harmonica. Como disse, Leone estrutura muito bem essas coisas.

O desenvolvimento fica por conta da exibição dos tons cinzentos das atitudes dos personagens que desafiam a todo momento aquele senso de moral tão engessado dos western. Fora isso, Leone é felicíssimo em praticar incessantemente a subversão de expectativas do espectador, tornando o filme imprevisível ao máximo. O mais curioso é que, apesar da ausência completa de um protagonista, o único personagem que passa por uma jornada com objetivo estabelecido desde o momento que surge em tela é Harmonica, justamente o menos trabalhado ao longo do filme.

Leone também é muito feliz em conseguir emplacar reviravoltas curiosas que mostram como os personagens raciocinam, criando estratégias inéditas para tiroteios, duelos e emboscadas. O ar de originalidade é intenso aqui. Porém, o que mais chama a atenção é o modo que o roteirista trata suas cenas. Praticamente todas são pequenas narrativas com estruturas clássicas englobando até mesmo pequenos clímaces, começando e terminando de formas muito transformadas.

Os três começos de Era uma Vez no Oeste podem ser analisados dessa forma. Primeiro, conhecemos um trio de bandidos entrando em uma estação, rendem um funcionário e logo esperam algo acontecer. Assumimos, erroneamente, que se trata de um assalto qualquer – é a primeira vez que Leone brinca com nossas expectativas. Vemos um trem chegar, um pacote é deixado e logo os bandidos, decepcionados, se preparam para ir embora. Até escutarem a gaita de Harmonica e iniciarem um duelo – o clímax da introdução.

Depois, vemos Brett McBain e sua família preparando uma grande festa para a chegada de Jill, revelando sonhos e um rigidez completa de Brett no trato com seus filhos já acostumados a violência. Através de uma encenação muito precisa, Leone faz com que Brett perceba que há algo de errado em seu território, mas não dá muita atenção. Quando pega água no poço, começa a escutar o tiroteio que mata sua família – mais um clímax.

No terceiro e também o maior de todos, conhecemos Jill e toda sua jornada para chegar ao rancho. Também em um ritmo lento, a jornada é interrompida para os personagens visitarem um pequeno e decrépito saloon, marcando, enfim, a altivez e independência de Jill, além de apresentar Cheyenne e retomar a narrativa de Harmonica. A apresentação de Cheyenne nos leva a crer que teremos um segundo antagonista (outra subversão), além do primeiro encontro cheio de tensão com Harmonica reforçar essa impressão. Em uma quase culminação de duelo (terceiro clímax), a jornada volta ao normal.

O que chama a atenção de fato é essa estrutura muito viva e nada pré-determinada das cenas. Os acontecimentos ocorrem e fluem com muita organicidade, capaz de nos hipnotizar de modo implacável a ponto de esquecer dos personagens que iniciaram elas. O mesmo se dá com os atos restantes, apesar de haver um pouco mais de pressa do roteirista em mostrar passagens importantes no miolo chegando até mesmo a eclipsar sequencias inteiras como a que mostraria um confronto entre Morton e Cheyenne.

Apesar dessas características que não chego a ousar apontar como falhas, Leone arquiteta um trabalho excepcional, até mesmo se valendo de flashbacks muito bem inseridos para culminar em uma catarse icônica no espectador ao oferecer a motivação de Harmonica em sua busca de vingança pessoal. É simplesmente muito belo e honesto. Aliás, honestidade esta que fica escancarada no destino final dos personagens, obedecendo ao maior dos clichês dos western. Leone até mesmo nos avisa em um diálogo o que pretende fazer, mas como nos deixou tão mal-acostumados com diversas surpresas, negamos a acreditar no fato. Truque de mestre.

A Revolução de um Gênero

Um filme de Sergio Leone é realmente um filme de Sergio Leone. Tendo visto algumas de suas maravilhas cinematográficas, sua assinatura estilizada para o western é inconfundível. Todas as ferramentas estilísticas do gênero estão a disposição para ele subverte-las e homenageá-las à sua completa vontade.

Já a abertura do filme deixa isso bastante claro. A imagem é suma importância para Leone conseguir contar a história, já que não temos um tratamento verborrágico. O diretor consegue conferir bastante personalidade aos três capangas que chegam na estação de trem – ocupando todas as saídas do lugar indicando o ponto final para algum personagem. Nunca falando e se movimentando lentamente, Leone faz com que os três misteriosos e mal-encarados homens provoquem uma sensação genuína de medo e ameaça constante.

Para depois subverter isso ao coloca-los para relaxar enquanto esperam a chegada do trem. O curioso é notar que os três são incomodados por elementos triviais seja uma mosca irritante, uma goteira ou o barulho constante do telégrafo. Apesar de surtir um efeito cômico, também funciona como um leve foreshadowing sobre a rejeição do lugar para com aqueles indivíduos.

Tanto que quanto o trem chega, irrompendo o absoluto silêncio mortal, Leone usa barulhos hiper-realistas que evocam um espírito maquinal e bestial para a locomotiva. Com diversos planos intercalando os profundos olhares dos bandidos para a serenidade impassível do trem, o diretor encaixa efeitos sonoros da respiração da máquina simulando uma palpitação cardíaca para revelar o estado de nervos que os bandidos se encontram – quando Harmonica não aparece, temos uma expressão de alívio em todos eles.

É por isso que a apresentação do herói é tão poderosa com Leone já conferindo uma assinatura inesquecível para demarcar a presença do personagem sempre quando em tela: a melodia da gaita surge inesperadamente. Assim sabemos que Harmonica desembarcou do outro lado do trem. É algo que realmente parece simples e banal, mas sob a batuta de Leone e a intercalação excepcional de closes e outros planos enquadrados de modo majestoso, faz toda a diferença.

Simplesmente há um forte tesão do diretor no objeto filmado.

Só nessa primeira sequência, há praticamente toda a técnica que Leone empregará na obra inteira, excetuando alguns momentos simplesmente geniais. Sim, teremos o modo barroco de filmar, cheio de encenações poderosas e vivas que exibem um retrato fidelíssimo do oeste americano em meados do século XX. Não haverá o uso hierárquico dos planos, pois ele sempre vai inserir closes impactantes para cortar para qualquer plano com ou sem movimento que desejar chegando até mesmo a sair de um enorme close para um enquadramento geral – ou seja, uma assinatura cinematográfica estocástica.

O uso do silêncio será mandatório em diversas cenas, indicando maus agouros ou invertendo vantagens que os personagens apresentem, mudando drasticamente o destino de todos como no caso da apresentação dos McBain que vão de caçador a caça em questão de segundos. A montagem sempre ocasionará em uma encenação bastante inteligente que foge em maioria das regras pré-estabelecidas do gênero, mostrando as ações dos personagens e trazendo à tona camadas diferentes sem qualquer necessidade de exposição.

Aliás, tal silêncio, além da função apresentada, serve para potencializar a chegada da fenomenal trilha musical de Ennio Morricone que é capaz de emocionar só de ser escutada independentemente do filme. O uso de vocais angelicais é adequado e confere esse tom de uma história épica a la “era uma vez…” que Leone pretende trazer. Não só com os temas bonitos que evocam o senso de aventura e beleza selvagem do oeste indomado, mas também os arranjos poderosos para trazer a tensão, ódio, desprezo e medo durante os impasses.

O mais poderoso deles, o tema de Harmonica, é apresentado de modo genial por Leone, misturando a música diegética, tocada pelo personagem na cena, para encaixar a composição completa de Morricone (extradiegética) de modo imperceptível. Não posso afirmar que se trata de algo inédito na História do Cinema até então, mas certamente é um truque de linguagem fabuloso para o ano de 1968.

Também há uma peculiaridade exemplar nos closes que oferece ao longo de todo o filme. Leone sempre traz os personagens centralizados e isolados no plano, nunca evocando união ou sentimentos leves. Quando faz enquadramentos conjuntos, sempre existe um tremendo incomodo entre eles e a artificialidade adequada para conferir o misticismo western. Aliás, a maquiagem que delineia todas as imperfeições das faces morenas e também da estupenda fotografia de Tonino Delli Colli, conferem um ar caricatural aos personagens, além de reforçar as expressões em suas minucias já que quase todo o elenco mantém a mesma expressão facial durante todo o filme.

Desse modo, o jogo de olhares tão bem arquitetado por Leone nunca se torna falho, pois vemos o brilho dos olhos dos atores carregados de serenidade, desconfiança ou repúdio. Aperfeiçoando isso até o último segundo, temos o grande duelo final na qual a música de Morricone também marca grande presença ao fazer uma releitura do tema mais forte do filme, mas os louros certamente ficam para a catarse tão bem construída por Leone ao inserir a enorme revelação sobre Harmonica através da conclusão de um flashback já apresentado parcialmente duas vezes antes.

Não menos importante, é particularmente interessante um capricho que o diretor comete diversas vezes em outras sequências: os enquadramentos dentro de enquadramentos. Ou seja, vemos os personagens emoldurados por elementos do cenário, sejam batentes de porta, janelas, prateleiras ou arcos monumentais. Isso confere um charme de conto literário, daquelas edições muito antigas, nas quais as ilustrações ficam sempre dentro de uma moldura barroca cheia de ornamentos. É sutil e delicado.

Quando o Oeste foi domesticado

Valioso como um documento eterno sobre o ápice de um gênero cinematográfica em franca decadência, Sergio Leone arquitetou sua grande carta de amor para as narrativas que o tornaram um verdadeiro mestre do Cinema. Apesar de não ser seu último western, Era uma Vez no Oeste reflete essa franca sensação de despedida.

Sua emocionante conclusão, revelando a importância histórica da narrativa para retratar a evolução do progresso no oeste americano, cada vez menos ermo e misterioso, gera sim um franco sentimento no espectador. Não de que viu apenas uma grande história, mas sim uma das expressões artísticas mais belas que encontrará na vida.

Era uma Vez no Oeste (Once Upon a Time in the West, Itália, EUA – 1968)

Direção: Sergio Leone
Roteiro: Sergio Leone, Sergio Donati, Dario Argento, Bernardo Bertolucci
Elenco: Claudia Cardinale, Henry Fonda, Charles Bronson, Jason Robards, Frank Wolff, Gabriele Ferzetti, Lionel Stander
Gênero: Western, Drama
Duração: 164 minutos.