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Vez ou outra nos deparamos com um filme que poderia ser excelente, capaz de não só cumprir sua proposta, como de realmente entregar uma experiência memorável ao espectador, mas que acaba falhando em atingir tal patamar em razão de pequenos ou grandes detalhes que tiram toda ou parte da força de sua narrativa. Triste testemunhar uma obra que detém a receita para o sucesso, mas que não sabe segui-la como deveria, ou até sabe, mas com ingredientes de qualidade inferior, gerando um produto muito aquém do que ele poderia ter sido. Extinção, infelizmente, é um desses exemplos.

A proposta do longa-metragem original da Netflix teoricamente não foge do comum. Uma família deve lutar, correr e se esconder para sobreviver de um ataque alienígena que está destruindo toda a cidade onde os personagens centrais vivem. Essa premissa, no entanto, é transformada sucessivas vezes ao longo da narrativa, permitindo que doses esporádicas de surpresas sejam entregues aos espectadores, tudo sem desvirtuar o cerne da obra. A ideia criada por Spenser Cohen é simples, porém funcional e remete a grandes clássicos da ficção científica, tirando evidente inspiração de Isaac Asimov para tal. O problema, no entanto, como já deixado claro antes, está na execução.

De início já somos incomodados pelas atuações da dupla principal – Michael Peña e Lizzy Caplan vivem Peter e Alice, marido e mulher, mas não poderiam parecer mais distantes disso. Não existe a menor química entre os dois, o que, desde cedo, nos deixa incertos se estamos diante de um relacionamento frágil, prestes a acabar, ou apenas abalado – mas sem risco de ruptura – pelos constantes pesadelos do marido. Não conseguimos sentir o amor ali e para um filme que gira em torno da sobrevivência dessa família, isso é grave.

Para piorar, a ausência de sentimento entre os dois se estende para a relação de ambos com seus filhos. Cenas com intuito de trazer um ‘calor’ maior para essa casa estão presentes, mas nada que consiga quebrar nossa percepção dessa artificialidade. No fim, a sensação é de estarmos diante de um grupo de estranhos que acabou de se conhecer. Mesmo levando em conta um dos twists do roteiro, isso não pode ser justificado, aliás, ele enfraquece essa revelação, visto que ela também tem como aspecto central a emoção, que também é essencial para a mensagem final que o filme tenta nos passar.

Ainda nas atuações, Michael Peña claramente mostra que não está pronto para levar o filme por conta própria. O ator funciona perfeitamente como coadjuvante, como deixou bem claro em Homem-Formiga, mas aqui acaba não trazendo peso o suficiente para sua atuação. A única coisa que somos capazes de extrair de suas feições é a confusão – medo, raiva, amor, qualquer outro semblante de emoção está ausente de seu trabalho. O mesmo vale para Caplan, que funciona em modo automático, sem se destacar sequer um momento, gerando um longa com uma boa história, mas que acaba parecendo vazio, incapaz de transmitir sua mensagem da maneira adequada.

Não ajuda o fato do roteiro de Spenser Cohen e Brad Kane (que pelo jeito perdeu o brilho mostrado em Black Sails) ser preenchido de velhos clichês, já vistos em dezenas de outros filmes sobre invasão ou de famílias em perigo, como a típica cena da garotinha parada gritando alto enquanto o perigo se aproxima. O agravante é que alguns desses clichês se repetem mais de uma vez ao longo da trama, chegando a gerar risadas espontâneas no espectador – Extinção sabota sua credibilidade e, muitas vezes, acaba não fugindo do ‘mais do mesmo’, ainda que sua linha narrativa central seja instigante.

Mesmo a maioria das revelações apresentadas ao longo da narrativa – que não deixam ser boas surpresas, indícios de uma boa ideia original – são acompanhadas de um didatismo exacerbado, com diálogos e cenas expositivas demais, quando facilmente poderiam ter sido entregues com maior sutileza. Em determinado ponto do filme, o diretor praticamente pega em nossas mãos e nos leva por um passo a passo do que já estava óbvio, não só inchando a narrativa, como gerando incômodo em nós, espectadores, que gostaríamos muito de pensarmos por conta própria.

Por falar na direção, Ben Young, nesse seu segundo longa, mostra que não sabe muito bem como dirigir sequências de ação, sendo tudo confuso demais – fruto de planos mais curtos do que deveriam ser. Não ajuda, claro, que algumas dessas sequências sejam escuras demais, uma ou outra há justificativa para tal, mas em outras não custava inventarem uma fonte de luz em cena para que, de fato, pudéssemos enxergar algo. No fim, torcemos para que a ação seja logo substituída por diálogos ou por trechos que coloquem os personagens centrais se escondendo do perigo.

Ao menos, enquanto nossa imersão é quebrada por esses elementos, somos, em parte, resgatados pelo trabalho em cima do som da obra, entregando uma sonoplastia envolvente, ainda que não fuja do comum em certos aspectos. Os próprios visuais mostrados muito bem se encaixam com tais sons, sabendo abraçar um lado da ficção científica que perfeitamente se encaixa com a proposta do filme, por mais que alguns efeitos especiais em CGI deixem a desejar.Isso, porém, não salva Extinção, que poderia ter sido uma ótima ficção científica, mas que se limita a ser um filme que, ocasionalmente, nos diverte. Com muitas falhas em sua execução, indo desde as atuações, passando pelo roteiro, até a direção, esse longa da Netflix não surpreende, mesmo com alguns bons twists no meio do caminho. O potencial claramente estava lá, mas não souberam utilizá-lo como deveriam.

Extinção (Extinction – EUA, 2018)

Direção: Ben Young
Roteiro: Spenser Cohen, Brad Kane
Elenco: Michael Peña, Lizzy Caplan, Amelia Crouch, Erica Tremblay, Lex Shrapnel, Emma Booth, Mike Colter
Gênero: Ficção científica
Duração: 95 min.

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