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O inicio da última década do século XX foi marcado por diversos momentos políticos importantes na história da humanidade. Na África do Sul, após vários anos de luta, chegava ao fim o regime segregacionista do Apartheid, que resultaria em 1994 na eleição de Mandela como primeiro presidente negro da história do país. Desde o fim da Segunda Guerra separada, a Alemanha voltou a se unificar após a queda do Muro de Berlim. Mas não podemos negar que o maior fato que aconteceu na década foi a queda da União Soviética, que sucumbiu diante ao grande caos econômico e político que passava, vendo todas as suas repúblicas se tornarem independentes.

Outro fator que marcou a década de 1990 foram os diversos conflitos que aconteceram em diversas áreas do planeta, os quais muitos tem tido repercussão até hoje. Na Europa eclodiu a Guerra da Bósnia, o maior conflito bélico que aconteceu no continente desde a Segunda Guerra, motivado devido as diferenças étnicas e religiosas existentes dentro do país. No Oriente teve o inicio a Guerra do Golfo, provocada pela invasão do Kuwait pelo Iraque, pois este afirmava que o primeiro estava prejudicando a economia iraquiana ao vender petróleo com preços inferiores, e também afirmava que o Kuwait possuía terras que historicamente eram Iraquianas.

Os dois conflitos citados acima iniciaram e terminaram dentro da mesma década. Porém uma guerra iniciada no século XX perdura até hoje. Trata-se da guerra civil na Somália, que começou quando o presidente do país, Siad Barre, começou a atacar clãs dissidentes que eram contra o seu governo, o que gerou revoltas e fez com Barre fosse deposto do país. Uma contra revolução se iniciou por aqueles que eram favoráveis a Siad e que desejavam que ele voltasse ao poder. Os conflitos geraram um estado de caos dentro do país, devido a extrema violência e o falta de isso estar prejudicando que os cidadãos conseguissem alimentos.

A ONU decidiu intervir e formou uma força de coalizão, com os Estados Unidos  na liderança, com a intenção de tentar pacificar o país e ajudar a população. Porém, toda a missão acabou se tornando um fracasso, com vidas perdidas e altos gastos financeiros. O desfecho da missão acabou gerando críticas ao exército e ao governo americano da época, gerando um livro escrito pelo autor Mark Bowden. Esse livro acabou sendo adaptado em um filme, Falcão Negro em Perigo, dirigido por Ridley Scott, onde conseguimos ver o quão horrível e pesado foi o embate entre os soldados americanos e as milícias da Somália.


A trama começa nos explicando os antecedentes. A Somalia vive uma crise humanitária, com vários clãs batalhando entre si, e dominada pelo cruel ditador Mohammed Farah Aidid, que impede que pega para si todos os suprimentos que a ONU envia para o país. Percebendo o caos, os Estados Unidos mandam uma força de elite ao local para que possam invadir a capital Mogadíscio e capturar generais que obedeciam a Aidid, mas evitando começar algum tiroteio. A ação era programa para que durasse cerca de trinta minutos, porém, para a surpresa dos comandantes, dois helicópteros americanos são abatidos, e uma batalha é iniciada entre os soldados americanos e o exército do ditador. Uma ação que era para ser rápida vai se estender por horas, com perdas significativas.

Muitos acusam o filme de ter uma mensagem de patriótica em relação aos Estados Unidos, apoiando a incursão do país dentro da Somália para tentar pacificar o local. Perdoem-me aqueles que pensam isso, mas eu vejo esse filme muito mais como uma crítica à essa ação. Isso fica evidente em uma cena onde um soldado americano capturado conversa com um soldado somali. Este afirma “vocês acham que vindo aqui trazer a democracia americana, nós vamos abaixar nossas armas e parar de lutar. Aqui a guerra nunca acaba”. Scott toca na ferida não apenas dos governantes, mas de todos aqueles que apoiam que os Estados Unidos ajam como a “polícia protetora do mundo”. Acreditar que se o país intervir em um conflito em algum país pode melhorar a situação, é uma visão extremamente ingênua e mal embasada. A intervenção de potências econômicas em confrontos de países de outros continentes, pelo que nos conta história, apenas serviu para piorar a situação.

Scott também critica a visão que seus compatriotas têm de países de outras culturas. O diretor nos evidencia o que muitos americanos pensam de países africanos, quando vemos em uma cena um soldado americano (interpretado por Josh Hartnett) afirmar que os somalis são um povo sem “educação, futuro, esperança”. Ou seja, existe a crença de que os Estados Unidos devem proteger esses povos, por serem inferiores culturalmente falando. O alto poder militar americano também se tornou uma motivação para que muitos creditassem ao país a missão de salvador da humanidade. Isso fica claro quando a alta cúpula do exército planeja a missão acreditando que ela seria rápida, subestimando as milícias do local. Algo que se tornaria um grande erro.

Se ao mesmo tempo Scott critica as incursões americanas em países em guerra e a visão preconceituosa que muitos americanos têm em relação a esses países, ele ao mesmo tempo isenta os soldados de qualquer responsabilidade da guerra. Ele não os trata como heróis, não existe essa conceituação. Ele nos mostra os soldados apenas como pessoas comuns, em sua maioria jovens, que não fazem ideia dos problemas que acontecem nos países em que vão agir, que lutam guiados por uma ideia colocada em sua cabeça de patriotismo e proteção a nações carentes. Soldados são vítimas, porque enquanto estão em campo morrendo, torcendo para poderem voltarem para suas famílias, os políticos se escondem. Por essa razão que, hora alguma, Scott mostrou Aidid ou o presidente americano da época em alguma cena, para mostrar que eles ficam ocultos enquanto seus homens estão morrendo.


Nas cenas de Guerra, Scott usa de vários planos e travellings para filmar os locais de batalha, mostrando que quão perigosa é a cidade, e de qualquer lugar poderia aparecer um inimigo. Junto com o uso câmera, temos uma montagem bem feita, que faz com que um filme mantenha um ritmo eletrizante. Ouso dizer que muitos que saíram do cinema estavam com a cabeça a mil. Um fato ruim, é que esse ritmo alucinante prejudicou o reconhecimento dos atores nas cenas, visto que eram muitos nomes conhecidos. Scott tentou consertar isso colocando os nomes dos personagens nos capacetes, algo que pouco adiantou.

A fotografia ficou por conta do polonês Sławomir Idziak, que ficou famoso por ser colaborador do famoso diretor também nascido na Polônia Krzysztof Kieślowski, considerado por muitos um dos melhores da história do país, junto com Roman Polanski e Andrzej Wajda. Idziak, aqui, faz um belo trabalho nas composições dos enquadramentos. Usando de uma coloração mais amarelada, ele consegue criar uma atmosfera infernal dentro do confronto, é isso que a guerra simboliza, o inferno, a danação, sofrimento. No início do filme, quando é mostrado o prólogo, vemos o que os conflitos têm causado na população, com muitos somalis morrendo de fome. Nesse momento, o diretor de fotografia opta por uma paleta azul, para simbolizar causar uma sensação de tristeza e agonia a quem assiste. Não por acaso ele acabaou sendo indicado ao Oscar pelo seu trabalho.

A mixagem de som é outro fator técnico de destaque no filme, que também recebeu uma indicação ao Oscar. Quem assiste o filme, não pode deixar de perceber que os sons das balas parecem realmente de uma cena de guerra acontecendo na realidade, nos fazendo sentir como se estivéssemos diante de um documentário com imagens reais do confronto que aconteceu em 1993. Em alguns quase nos sentimos dentro do próprio filme. A trilha sonora ficou por conta de Hans Zimmer, e devo dizer que esse filme foi um dos seus trabalhos menos inspirados. Mas devo elogiar o uso de bandas de rock como Alice in Chains e Faith no More em cenas, visto que é comum alojamentos de soldados tocarem músicas desse estilo.

Como já afirmado aqui no texto, muitos acreditam que esse filme foi apenas mais uma das várias propagandas americanas a favor da guerra. Já outros acreditam que a mensagem foi justamente o contrária. Essa é uma discussão que vai perdurar entre todos aqueles que assistirem ao filme. Mas dificilmente poderemos negar que é um filme extremamente bem dirigido, com aspectos técnicos louváveis.

Falcão Negro em Perigo (Black Hawk Down – EUA, 2001)

Direção: Ridley Scott
Roteiro: Ken Nolan
Fotografia: Slawomir Idziak
Montagem: Pietro Scalia
Música: Hans Zimmer
Produtora: Revolution Studios, Jerry Bruckheimer Films,Scott Free Productions, Columbia Pictures ( distribuidora)
Elenco: Josh Hartnett, Eric Bana, Tom Hardy, Sam Shephard, Tom Sizemore, William Fichtner, Jason Isaacs, Nikolaj Coster Waldau, Ewen Bremmer
Duração: 144 min

Texto escrito por Raphael Aristides

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