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Fantasia é um filme como nenhum outro dentro do panteão Disney. Afinal, como bem sabemos, as icônicas animações normalmente são baseadas em contos medievais e atemporais, que até hoje inspiram inúmeros artistas para novas perspectivas literárias e audiovisuais, além de terem entrado para a História da indústria cinematográfica como produtos divisores de águas, incluindo a constante busca pelo novo e pelo original. Entretanto, afastando-se desse escopo de releituras e adaptações infantis, o magnata do entretenimento resolveu investir suas forças em algo diferente e não premeditado nem mesmo por seus maiores fãs. O resultado é, sem sombra de dúvida, um dos mais autorais de sua imensa coletânea, não apenas por mergulhar em diversos momentos miméticos, mas também por criar uma amálgama entre música, dança e cinema.

Ao longo dos séculos, diversos músicos criaram peças sonoras incríveis e que marcaram época, além de serem de conhecimento quase mundial por sua atemporalidade narrativa. Apesar do classicismo exacerbado, é muito difícil encontrarmos alguém que não conheça os nomes de Bach, Tchaikovsky, Beethoven e outros. Entretanto, é bem provável que a apreciação de tais composições não seja feita do modo mais completo – e é justamente com esse propósito que Disney e seu incrível time criativo resolvem se juntar com a Orquestra da Filadélfia para entregarem-se a uma rendição única e emocionante do início ao fim.

Primeiramente, devemos levar em consideração de que Fantasia é o primeiro longa-metragem animado a ultrapassar as duas horas de duração. Um movimento arriscado, sem sombra de dúvida, visto que iterações anteriores mal chegavam aos noventa minutos e permitiam criar um escopo envolvente e agradável para o público-alvo infantil. Logo, a ideia era manter essa mesma capacidade satisfatória sem cair nas desgraças da monotonia e do cansaço – mas como fazê-lo com uma vertente essencialmente erudita? Afinal, se levarmos em consideração a trilha sonora performada com extrema exímia, temos uma narrativa apenas movida por violinos, violoncelos e piano. O trabalho seria imenso.

A resposta: animação. O filme começa com uma identidade imagética diferente do que tudo que já vimos, mergulhando no escopo do abstracionismo e que preza por uma total liberdade de efeitos especiais que acompanha cada uma das histórias criadas. Até mesmo o jogo com pequenos pontos coloridos que se esticam e se encolhem conforme a música perpassa os altos e baixos, os crescendo e os ápices dramáticos, funciona perfeitamente e fornece um novo significado para a ideia da ambiguidade sonora. Aqui, tudo tem o seu propósito e, a partir de uma introdução única e que pode não ser tragável para todo o público, somos arremessados dentro de pequenas tramas completas e que auxiliam a aumentar o imaginário acerca da música clássica.

O filme é responsável por nos apresentar à versão mais conhecida de Mickey Mouse na seção O Aprendiz de Feiticeiro. Com o escopo orquestrado por Paul Dukas, entramos em um mundo sobrenatural onde um afobado Mickey deseja aprender seu ofício antes da hora e não tem nenhuma noção do que fazer com o livro de feitiços e o icônico chapéu mágico de seu mentor, embarcando em uma aventura egoísta envolvendo vassouras vivas, uma enchente e a total falta de controle. Esse é apenas um dos pontos altos do filme, construído sob mais uma vez com o respaldo da rotoscopia, porém com uma perspectiva original e que afasta-se dos maniqueísmos pueris das histórias anteriores.

Disney também apela para uma sensualidade mais adulta principalmente com a entrada de Sinfonia Pastoral, de Beethoven. Tal bloco tem a trama focada nas inúmeras figuras da mitologia grega que habitam o Monte Olimpo. Logo, espere sim a presença de cavalos alados, sátiros, ninfas, centauros e os famigerados deuses gregos em uma jornada mítica e epopeica acerca de um panteão histórico incrivelmente bem aproveitado. Além de inovador por causa da arte animada e também da escolha de uma paleta de cores atada à estética kitsch, tal segmento causou muita polêmica por mostrar personagens nus, como os cupidos, e também por trazer uma centaura negra para a tela em uma época na qual a segregação entrava como um “bom costume” da época. Não é à toa que este é um dos blocos mais relembrados do filme, além de uma fluidez cênica que mantém inúmeras referências com os movimentos e as danças do ballet russo.

O lirismo não permanece apenas no âmbito cômico ou dramático, mas também se ramifica para o gênero do suspense e do terror sobrenatural. Mudando completamente a identidade cênica dos outros blocos, Uma Noite no Monte Calvo, composto por Modest Mussorgsky, opta por cores mais frias e uma construção animada de seus personagens muito mais bruta, ainda que preze pela fluidez. A história gira em torno do demônio Chernabog, que durante a noite de Halloween invoca todos os espíritos e criaturas das Trevas para aterrorizar um pequeno vilarejo russo – cuja reafirmação é feita pelo tétrico e ressonante som dos violoncelos e dos tambores. Entretanto, essa caótica perspectiva também encontra seu fim com a suave chegada de Ave Maria, uma ária que mostra o poder da Luz e da salvação religiosa.

Fantasia é simplesmente uma obra-prima, talvez a que mais destoe da identidade dos outros filmes dos estúdios Walt Disney. O longa não se rende às adaptações convencionais, mas utiliza a incrível fusão do visual com o sonoro para criar uma imagem aplaudível do clássico com o moderno.

Fantasia (Idem, EUA – 1940)

Direção: James Algar, Samuel Armstrong, Ford Beebe Jr., Norman Ferguson, David Hand, Jim Handley, T. Hee, Wilfred Jackson, Hamilton Luske, Bill Roberts, Paul Satterfield, Ben Sharpsteen
Roteiro: Joe Grant, Dick Huemer
Gênero: Animação
Duração: 125 min

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