Há uma cena em Fargo: Uma Comédia de Erros onde a personagem de Frances McDormand desvia completamente da narrativa principal, quando aceita encontrar-se com Mike Yanagita, um antigo colega do colegial que demonstra intenções nada relevantes para a trama. É uma cena inútil do ponto de vista estrutural, visto que não acrescenta em nada à resolução da história ou a progressão da mesma, mas valiosa para demonstrar o humor dos irmãos Coen em nos distrair com elementos que julgam importante, além de nos oferecer mais tempo de construção para McDormand.

É mais ou menos esse viés que The Law of Non-Contradiction segue, ao tomar um desvio brusco da trama central da terceira temporada e focar-se inteiramente na Gloria Burgle de Carrie Coon, deixando de lado os núcleos dos Ewan McGregor, Mary Elizabeth Winstead e David Thewlis. Aqui, a policial viaja para Los Angeles a fim de investigar o passado de Thaddeus Mobley (Thomas Mann, em flashbacks), a identidade de escritor de ficção científica que seu falecido padrasto um dia assumiu. Burgle embarca em entrevistas e pistas que possam indicar alguma ligação com o assassinato.

Isso acaba rendendo três diferentes narrativas nesse episódio: a investigação de Gloria, os flashbacks que trazem a trajetória de Mobley e uma animação que ilustra o conto sci-fi que este escreve. Estruturalmente, é uma maravilha, visto que cada história tem seu próprio ritmo e estilo, mas estão todas conectadas não só pelas ligações entre seus protagonistas, mas também sobre sua temática: a inocência daqueles que querem fazer o bem. Gloria só quer justiça e encontrar o culpado pelo assassinato de “alguém que um dia significou algo para outra pessoa”, enquanto Mobley é um jovem escritor que aceita ajudar o produtor de cinema Howard Zimmerman (Fred Melamed) a fazer novos filmes, e o andróide animado Minsky é uma máquina cujas únicas palavras são “eu posso ajudar”, algo que ele tenta contar a todos os humanos perdidos em guerras e morte.

A começar por Gloria, que finalmente ganha força como protagonista definitiva da série, muito disso graças à ótima performance de Carrie Coon e também pela possibilidade de podermos ver a personagem lidando com situações improváveis, como ao ser imediatamente assaltada por um Papai Noel em sua chegada no motel de Los Angeles ou o bizarríssimo flerte de um policial local que existe em fazer piadas estereotipadas com seu sotaque de Minnesota – a cena do encontro em um bar é a total representação de Mike Yanagita, e também aponta para um tema que Noah Hawley lentamente vai expandindo sua lupa de aumento: tecnologia. Seja na insistência do policial em falar sobre seu perfil no Facebook ou no ótimo diálogo em que o passageiro vivido por Ray Wise fala sobre a evolução da humanidade – e a direção certeira de John Cameron usa de um plano aberto dos demais passageiros em seus smartphones para completar sua frase -, o isolamento e alienação da sociedade nos pequenos dispositivos parece ser um elemento relevante, especialmente quando consideramos o uso deste pelo misterioso V.M. Varga (David Thewlis, não presente aqui… Inteiramente, chegaremos a ele em instantes).

Todo o clima da investigação de Gloria oferece algo nunca antes visto na série: o calor. Somos tirados das paisagens congelantes de Minnesota para a ensolarada Los Angeles, que ganha um tratamento quase melancólico e perigoso graças à fotografia dessaturada de Dana Gonzales, que empalidece as sombras e reforça o quente, em um misto curioso entre cidade fantasma e algo que sai diretamente de uma memória nostálgica – pense no efeito oposto ao trabalho de Linus Sandgren em La La Land. Essa atmosfera garante à Gloria uma trama saída diretamente de obras como Los Angeles: Cidade Proibida, Os Homens que Não Amavam as Mulheres ou até mesmo o jogo L.A. Noire, ainda mais considerando a presença da indústria cinematográfica e o fato de que os suspeitos são agora todos idosos – a cena com o envelhecido Zimmerman é impagável, e digna do humor Coeniano.

O que nos leva então aos flashbacks que narram a história de Thaddeus Mobley, um talentoso jovem escritor de ficção científica que é rapidamente abocanhado para a máquina da Hollywood dos anos 70. Reparem na inteligência do diálogo escrito por Matt Wolpert e Ben Nevidi quando Mobley conhece Zimmerman em uma festa, com o primeiro perguntando “você quer transformar meu livro em um filme?”, para qual o sujeito responde “não, eu quero que você transforme seu livro em um filme”, de cara já nos indicando que a oferta do estranho não vem acompanhada de um bom caráter. A partir daí temos uma jornada que mistura Barton Fink com Boogie Nights, à medida em que Mobley torna-se um viciado em cocaína e confunde a trapaça da voluptuosa atriz Vivian Lord (Francesca Eastwood) com amor, o que leva à sua iminente auto-destruição.

É uma narrativa que impressiona por sua concisão, especialmente nos primeiros minutos que servem como prólogo ao episódio. Temos todo o crescimento de Mobley na indústria e seu vício em drogas contado a partir de uma eficiente montagem musical, algo digno das sequências de festa de Os Bons Companheiros e dos filmes citados acima, com a série trazendo de volta um pouco do maravilhoso uso da montagem em tela dividida da segunda temporada, conferindo um ritmo intenso e dinamismo para uma sequência tão importante. É valioso também apontar como a montagem traz bons paralelos com o presente, como na cena em que Mobley vomita na privada de seu quarto de motel, e então dividimos o tempo paralelo com Gloria, que examina a privada de seu quarto para encontrar a inscrição de “Denis Stussy & Sons”, com o “D” descascado. Isso já faz uma conexão visual com as histórias, comprovando que os personagens estiveram no mesmo quarto, separados por décadas, e que Mobley viu ali a inspiração para assumir sua nova identidade como Ennis Stussy. Isso sem uma linha de diálogo.

Por fim, temos a fantástica animação do robô Minsky. Adotando um traço formalista e que remete à sequência de Legion onde o protagonista descobre sua conexão com o Professor Xavier (Hawley está mesmo gostando de enfiar animações no meio de séries, e eu estou de boa com isso), vemos a caminhada de um andróide que só é capaz de oferecer ajuda, mas todos parecem ignorá-lo ou maltratá-lo, ao mesmo tempo em que inúmeras civilizações acabem se destruindo. Isso até o ponto em que ele é abduzido por uma estranha civilização, que parece mais avançada e tipicamente futurista graças a seus trajes e acessórios. A maneira com que falam com nosso herói metálico sugere que esses sejam seus criadores, que agradecem a Minsky pelos dados coletados em sua jornada pelos séculos de destruição.

Curiosamente, quem faz a voz desse “líder” futurista é o próprio David Thewlis, o que pode oferecer algum tipo de conexão ou paralelo com seu Varga. Talvez o misterioso empresário também esteja usando da empresa de Stussy para coletar dados? Ou talvez também esteja interessado em algum tipo de destruição colossal, aproveitando-se da “boa” vontade de Emmit e sua empresa em lhe pagar de volta o valor do empréstimo? Ou talvez por Varga ser um grande adepto de tecnologia… De qualquer forma, Minsky acaba desligado efetivamente, através de um interruptor que é MUITO similar ao presente no misterioso dispositivo encontrado por Gloria no motel. Quando apertado, uma tampa se abre e um dedo mecânico se revela, apertando novamente o interruptor para fechar a caixa. É uma ação que transmite uma certa teimosia, quase como Minsky em insistir oferecer ajuda aos que a recusam, ou na insistência de Gloria em seguir com sua investigação.

Nada mais simbólico do que a policial levar a caixa consigo de volta para Minnesota.

Este terceiro episódio da nova temporada de Fargo foi simplesmente uma obra-prima. Não seria nenhum exagero colocá-lo no sagrado hall de melhores episódios de toda a série, oferecendo uma narrativa tripla que é capaz de funcionar independentemente, ao mesmo tempo em que traz força para cada uma delas quando colocadas juntas. Desde sua concepção visual, escrita, elenco e habilidade de transcender gêneros, The Law of Non-Contradiction é desde já uma das melhores coisas da TV em 2017.

Fargo – 03×03: The Law of Non-Contradiction

Criado por: Noah Hawley
Direção: John Cameron
Roteiro: Matt Wolpert e Ben Nevidi 
Elenco: Carrie Coon, Fred Melamed, Ray Wise, Francesca Eastwood, Frances Fisher, Mark Forward, Thomas Mann
Emissora: FX
Gênero: Drama, Comédia, Crime
Duração: 50 min

Confira AQUI nosso guia de episódios da temporada.

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