Spoilers!

Puta merda.

Não havia outro jeito de começar esta crítica do que com uma expressão de total surpresa e embasbacamento após os créditos deste novo episódio de Fargo começarem a tomar a tela. É incrível como o ritmo da terceira temporada intensificou-se exponecialmente em sua reta final, com Who Rules the Land of Denial? oferecendo 50 minutos de pura tensão, reviravoltas e alguns dos melhores momentos de toda a série de Noah Hawley.

O episódio começa nos levando de volta ao final do anterior, quando Yuri (Goran Bogdan), Meemo (Andy Yu) e Gollem (DJ Qualls) capotam o ônibus da prisão a fim de capturar Nikki (Mary Elizabeth Winstead), que acaba formando uma parceria com o Sr. Wrench (Russell Harvard) para escapar dos agressores pela congelante noite de Natal. Paralelamente, vemos como Emmit Stussy (Ewan McGregor) segue com uma paranóia e culpa cada vez maiores, com suas ações sendo vigiadas e manipuladas por V.M. Varga (David Thewlis), ao passo em que Gloria Burgle (Carrie Coon) segue lutando para fazer algum sentido à história.

Primeiramente, vamos falar sobre Nikki. Os primeiros 20 minutos do episódio foram todos centrados a uma das sequências mais intensas e cinematográficas de toda a série, com a ex-presidiária e seu parceiro mudo fugindo pela mata congelada enquanto são perseguidos pelo trio de Varga, todos usando amedrontadoras máscaras de animais. A direção certeira de Mike Barner é excepcional ao capturar a atmosfera densa e perigosa do local, remetendo muito a Onde os Fracos Não têm Vez, graças às explosões súbitas de uma violência desacompanhada de música, e até mesmo ao recente O Regresso pela temática de uma perseguição numa paisagem dessas – e ainda que não seja nenhum Emmanuel Lubezki, o diretor de fotografia Craig Wrobleski faz um trabalho fantástico ao capturar a beleza do ambiente, mantendo sempre um tom cinza e frio em seus enquadramentos.

Foram 20 minutos de pura tensão e maestria, e muito se deve também à ótima dinâmica entre Nikki e Wrench, com o brutamontes mudo se esforçando para comunicar-se com a moça e até salvar sua vida algumas vezes, vide o brutal confronto entre os dois – acorrentados – contra o insano Gollem armado com um disparador de flechas (besta) e uma machadinha. A luta culmina em um clímax altamente gore quando a dupla decapita o agressor usando a corrente de suas algemas, e Barker merece um prêmio pelo genial movimento de câmera que acompanha os dois fugindo para a mata, apenas para depois virar-se e enquadrar a machadinha – que Wrench havia jogado às cegas – presa em uma árvore, com um tilt sutil descendo para revelar uma orelha decepada e pegadas de sangue. É o clássico exemplo do humor negro sutil que só Fargo é capaz de proporcionar.

Então, temos a cena mais misteriosa de toda a temporada até então. Nikki e Wrench refugiam-se em um boliche particularmente deserto (muito similar ao de O Grande Lebowski, diga-se de passagem), onde a moça acaba sentando-se em um balcão para pedir uma bebida. O plano abre para revelar, ao seu lado, a figura de Ray Wise, que já havíamos visto em duas ocasiões durante a viagem de Gloria para Los Angeles em The Law of Non-Contradiction. Os dois engatam em um diálogo bizarro e contemplativo, com o misterioso sujeito oferecendo-lhe um gatinho chamado… Ray, a qual Nikki imediatamente atribui um significado mais sentimental, como se o felino fosse de fato seu falecido namorado – e o fato de o diálogo remeter à reencarnação fortalece esse ato. Após diversas citações em hebraico, Wise os oferece um carro para seguirem em frente.

Logo depois, a mesma sequência repete-se com Yuri, que também entra no boliche para tomar uma bebida e engata no mesmo diálogo com Wise. Mas este é um pouco mais sombrio, como se Yuri estivesse ali para ser julgado, e acabamos a cena com uma imagem russa assustadora. Mas vejam bem… Essa imagem em preto e branco mostra uma mulher em frente a uma multidão, e Wise nos revela que seu nome é Helga Albrecht. Caso não lembre, Helga é a mulher pela qual o prisioneiro no prólogo da temporada é acusado injustamente de matar, e Yuri já havia mencionado que conhecera uma Helga. Logo, podemos assumir que Yuri Gorka matou Helga Albrecht e ocasionou toda aquela cena aparentemente descolada do resto da história, no início.

O que é o boliche? Se levarmos em conta toda a apresentação, o diálogo e a maneira como estes se manifestam, é claro assumir que o local é uma espécie de purgatório, e que o personagem de Ray Wise é uma espécie de anjo. Reparem como o local está vazio e impecável, além de os poucos funcionários presentes ali fazerem qualquer tipo de comentário acerca do sangue que cobre todos os personagens, ou o claro fato de Yuri estar sem sua orelha. Além disso, quando Nikki pergunta à Wise sobre o boliche, ele responde “é isso o que você está vendo?”, como se o local fosse apenas uma manifestação pessoal de Nikki – tal como a sequência na estação de King’s Cross no último Harry Potter. Dessa forma, e analisando como Wise foi acolhedor com Nikki e Wrench, mas julgador com Yuri, podemos assumir que os três personagens estão mortos – mas seguindo essa lógica, me pergunto porque Gloria teria sido visitada por ele, então.

Há indícios para suportar essa hipótese, já que nenhum dos três aparece novamente no restante do episódio, que volta seu foco para o núcleo Stussy. Porém, nem nos recompomos direito desse primeiro ato excepcional, já temos uma nova reviravolta quando Varga envenena Sy Feltz (Michael Stuhlbarg), colocando-o em um coma que transporta a história de dezembro de 2010 para março de 2011. Saltos temporais não são incomuns na série (vide o salto de 1 ano na primeira temporada), mas é de se espantar com a surpresa, ainda mais pela transição absurdamente genial ao enquadrar o rosto de Sy em um super close, afastando-se então para revelar que seu bigode agora é uma grande barba.

O avanço de três meses praticamente não traz muitas mudanças. Emmit segue com seus negócios com Varga, cada vez mais em expansão, Gloria oficialmente não é mais a xerife de Eden Valley mas segue pressionando Stussy sobre o crime deixado em aberto e por aí vai. Nada de Yuri, Nikki ou Wrench nesse novo segmento, o que ajuda a manter a hipótese de seus óbitos. Porém, Emmit está sendo “assombrado” por seu irmão Ray, já que vemos seu carro aparecendo subitamente no estacionamento, além de todos os quadros de seu escritório terem sido trocados pelo infame selo de 2 centavos que Ray tanto cobiçava. Fargo sendo Fargo, claramente eu apostaria que alguém está torturando Emmit psicologicamente (Nikki? Varga?), mas após contemplar o que parece ser um purgatório, eu não descartaria uma vingança do além-túmulo.

Por fim, acabamos com Emmit entrando na delegacia de Eden Valley e alegando ter uma confissão, indo diretamente contra as ordens de Varga de permanecer quieto. É um final chocante e que promete um clímax ainda mais empolgante do que todas as reviravoltas nesse excepcional oitavo episódio, que segue expandindo a mitologia da série e flertando cada vez mais com o sobrenatural e o alegórico.

Fargo – 03×08 Who Rules the Land of Denial? (EUA, 2017)

Criado por: Noah Hawley
Direção:
Mike Barker

Roteiro: Noah Hawley, Monica Beletsky
Elenco: Ewan McGregor, Carrie Coon, David Thewlis, Mary Elizabeth Winstead, Michael Stuhlbarg, Olivia Sandoval, Goran Bogdan, Ray Wise, Andy Yu, DJ Qualls, Russell Harvard
Emissora: FX
Gênero: Drama, Crime
Duração: 49 min

Confira AQUI nosso guia de episódios da temporada

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