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Em 2014, Scott Cawthon ganhava conhecimento da indústria de games ao lançar a primeira iteração de uma franquia que viria a se tornar tão icônica quantos os clássicos jogos point-and-click que fizeram sucesso algumas décadas atrás. A série, intitulada Five Nights at Freddy’s, não apenas insurgiu em uma perspectiva com grande originalidade, mas também gerou inúmeras teorias da conspiração e abriu espaço para uma nova vertente do storytelling – e, seguindo os passos de outras franquias como Assassin’s Creed e Warcraft, não poderia deixar de adquirir uma versão literária e, como já podemos imaginar, uma futura releitura para as telonas, ainda que este projeto ainda esteja em seus estágios iniciais.

Partindo dessa premissa, a romancista Kira Breed-Wrisley tinha uma tarefa um tanto quanto árdua em mãos: se pensarmos bem – e aqui evoco memória de algumas pessoas que já tenham se aventurado na Pizzaria Freddy Fazbear -, todo o pano de fundo construído por Cawthon não necessariamente segue uma cronologia sensata. Na verdade, o microcosmos funciona em suas próprias regras, e o jogador assume a posição de um guarda noturno que deve sobreviver durante cinco noites enquanto é atacado por animatrônicos demoníacos que querem transformá-lo em um deles. Como trazer essa trama para as páginas – e como torná-la tão envolvente quanto o game que a originou? Certamente Breed-Wrisley não poderia cometer os mesmos erros que outros novelistas que adotaram a missão de traduzir os épicos online para o meio literário e falharam miseravelmente em criar algo satisfatório o suficiente.

Felizmente a autora já tem uma experiência considerável na área – além de ser uma dramaturga de talento inegável; Olhos Prateados, como ficou conhecido sua primeira expansão para o universo de FNF, não apenas superou todas as expectativas como também endossou a própria capacidade artística e narrativa da responsável pela nova história. Apesar dos poucos capítulos serem longos em termos quantitativos, em momento algum nos vemos frente a frente com sequências extenuantes ou monótonas, mas sim pequenas pérolas de tensão e suspense que conseguem capturar o leitor desde o primeiro momento em que abre as páginas do livro até as palavras finais – e, diferente do que podemos pensar, esta não é apenas mais um medíocre produto de gênero, mas sim algo que brinca com a temporalidade em uma montagem que beira o cinematográfico.

A história central gira em torno de Charlotte, também conhecida como Charlie, que retorna para sua cidade-natal para reencontrar seus amigos de infância no aniversário de um trágico acontecimento ocorrido dez anos atrás: o desaparecimento de Michael, uma criança de seis anos que foi raptada dentro da Pizzaria Freddy Fazbear e nunca mais foi encontrada. Destruindo a relação entre inúmeros habitantes da pequena Hurricane e mudando para sempre a dinâmica comunidade – o pai de Charlie, responsável pelo restaurante e por toda a decoração fincada em animatrônicos e brinquedos tecnológicos, acabou se matando após o ocorrido -, a jovem garota se sente desconfortável ao voltar para lá e nem mesmo poderia imaginar os segredos que ressurgiriam para assombrá-la.

A romancista cria imagens vívidas a cada uma das páginas, e já começa a narrativa de modo impactante, delineando um prólogo mórbido que nos mantém um pouco preparados para o que virá a seguir. Entretanto, nem mesmo essa investida anacrônica consegue premeditar as viradas e a explicitação com a qual as coisas se desenrolam – estamos falando de adolescentes de dezessete anos experienciando o gosto mais puro do terror, do medo, e que consegue nos deixar arrepiados e intrigados. Não é à toa que, apesar do linguajar levemente rebuscado e descritivo, a leitura de Olhos Prateados seja de razoável facilidade ao mesmo tempo em que não se restringe a mergulhar em passagens intimistas – em diversos momentos, Charlie se vê vasculhando a memória e retornando a traumas de um passado distante que ainda insistem em se fazer presentes.

Em nenhum momento as tramas e subtramas se confundem em uma mescla amorfa de previsibilidade; muito pelo contrário, aqui há espaço para desenvolver o conflito principal com começo, meio e um fim cheio de cliffhangers para possíveis continuações – que inclusive já existem -, e também margem para possibilitar o crescimento e amadurecimento de seus protagonistas, desde o pequeno Jason que se vê num tour-de-force compulsório e cruel, até as centelhas complicadas da relação entre Charlie e um velho amigo de infância, chamado John. De modo equilibrado, vemos alguns escapes cômicos tomarem conta de certas passagens, como a construção arquetípica e controversa de Jessica, e alguns estereótipos propositais que contribuem para o andamento mais dinâmico do livro.

Talvez as coisas se mostrem repetitivas em dado momento, porém é provável que Breed-Wrisley tenha pensado em alguns deslizes e buracos que seriam mais complicados de fechar sem tangenciar o ridículo. É por isso que elementos tanto do drama quanto do sobrenatural se encontrem inúmeras vezes, oscilando entre o que é real e o que é loucura, dançando através dessas inúmeras vertentes para possibilitar um fechamento mais conclusivo e satisfatório aos leitores. Ainda que o protagonismo dos animatrônicos seja ofuscada pelos outros personagens – sim, nós queremos mais brinquedos demoníacos e, de preferência, mais terror -, é quase instantâneo visualizar os rostos deformados de Freddy, Chica, Bonnie e Foxy, as mesmas personas criadas para os jogos, mas agora com uma motivação mais especial.

Olhos Prateados é apenas o início de uma franquia literária muito interessante e com potencial gigante. Unindo o útil ao agradável, o vanguardista ao convencional, a parceria entre virtual e material tornou-se uma surpresa muito bem-vinda – e recheada daquilo que mais gostamos: o trágico.

Five Nights at Freddy’s: Olhos Prateados (Five Nights at Freddy’s: Silver Eyes, Estados Unidos– 2017)

Autor: Kira Breed-Wrisley, baseado no game criado por Scott Cawthon
Editora: Intrínseca
Edição: 1ª edição
Gênero: Terror, Mistério
Páginas: 368

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