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Freddy Fazbear está de volta – e essa vez ele está bem diferente.

Com o sucesso da franquia de games idealizado por Scott Cawthon e a investida nem um pouco esperada de Kira Breed-Wrisley que expandiu toda a mitologia criada acerca dos animatrônicos, era quase óbvio esperar uma continuação. O que poderia nos deixar com um pé atrás era a confirmação da sequência de Olhos Prateados ser tão boa ou melhor – e fico feliz em dizer que, apesar dos problemas estruturais, Os Distorcidos evoca com mais força ainda as imagens que tanto assustaram os fãs de Five Nights at Freddy’s em um mergulho expansivo digno de menção.

Já se passou um ano desde os trágicos eventos na pizzaria cujo nome é emprestado do gigantesco urso de pelúcia robô, culminando na morte de duas pessoas e em chocantes revelações sobre o passado manchado da pequena cidadezinha de Hurricane – incluindo o rapto de inúmeras crianças que foram aprisionadas nas roupas dos animatrônicos e deixadas lá até morrerem. Agora, Charlotte “Charlie” Emily, tentando fugir dos fantasmas que insistem em assombrá-la, principalmente depois dos traumas pelos quais passou, mudou-se da casa de sua tia, afastando-se por completo de qualquer ligação com a família conturbada, e se mudou para a mesma universidade da melhor amiga Jessica, dividindo um minúsculo quarto numa república.

Entretanto, sabemos que velhos hábitos são difíceis de jogar fora, e a garota passa a se envolver com mecatrônica. Logo, é quase óbvio esperar que pesadelos acerca de seu falecido irmão gêmeo, raptado quando ainda era criança, comecem a perturbá-la – e definitivamente não é nenhuma coincidência que novos assassinatos insurjam em sua cidade-natal. Mas diferente do que podemos imaginar, esses homicídios ocorrem ao ar livre e sempre do mesmo jeito: corpos mutilados de pessoas desconhecidas deixadas ao ar livre. Charlie é resgatada para a cruel realidade da qual tentava fugir de modo automática, ainda mais com a aparição de Clay, detetive responsável pelo caso da pizzaria e pai do amigo Carlton – e já aqui podemos ver os traços literários e teatrais de Breed-Wrisley ganhando vida mais uma vez.

De modo geral, Os Distorcidos tenta recuperar a glória e a originalidade da obra original, mas falha em alguns quesitos. O primeiro ato da trama move-se em um ritmo assimétrico, por vezes se acelerando além do normal como forma de dar continuidade aos angustiantes acontecimentos, por outras mergulhando em um cosmos intimista que reflete todas as dúvidas dos protagonistas, principalmente de Charlie, a qual enfrenta questões de cunho muito além das criações assassinas do pai e das controvérsias acerca do restaurante. Felizmente, a autora se reencontra pouco antes da metade para transformar o melodrama excessivo em uma jornada épica pela sobrevivência e pela manutenção da paz.

John, o suposto par romântico da heroína e que não segue os padrões que esperaríamos para histórias do gênero, é uma das poucas faces familiares que também voltam ao expansivo cosmos de FNF. Ele é o arquétipo do apoio moral que Charlie tanto necessita, mas renega com tantas as forças por não querer envolver mais ninguém no ciclo de tortura que sua vida representa: ela deseja resolver tudo por conta própria e antes que outro assassinato ocorra – e as coisas tornam-se mais perigosas quando descobre que os robôs na verdade eram protótipos muito mais realistas do que os que conhecia e que estavam enterrados em um cômodo secreta na sua antiga casa. E pior: eles estão atrás dela.

Apesar das falhas em termos narrativos e rítmicos, Breed-Wrisley mantém o seu clássico estilo de escrita ao mesmo tempo em que procura explorar coisas nas quais não se aventurou na obra anterior. De forma quase didática, a autora nos apresenta ao complexo mundo da tecnologia e da robótica de modo a mostrar um pouco de como a ciência e o sobrenatural caminham lado a lado, beirando a imiscibilidade. O terror também retorna como um dos carros-chefes da trama, cujas descrições cruéis contribuem para a construção atmosférica e dão as cartas do jogo: não há distinção entre quem é bom e quem é cruel, quem é culpado e quem é inocente; as criaturas estão sedentas por vingança e farão de tudo para alcançar os seus objetivos.

As reviravoltas mantêm um nível impressionante e em momento algum soam como alguma conspiração deus ex machina apenas para um desfecho qualquer às tramas e às pontas soltas. A romancista até mesmo opta por estender-se às fan theories que pipocaram na cultura contemporânea dos games por várias e várias semanas, orquestrando uma amálgama que funciona em grande parte e abre mais margens para sequências futuras. Além disso, o escopo em si não se reprimi quanto ao uso dos sacrifícios – e aparentemente resolver finalizar um arco bem importante com uma morte dolorosa. Breed-Wrisley prova que não apenas tem o poder de mudar a perspectiva narrativa, como também tem a liberdade para conduzir o que criou e recriou conforme as próprias regras.

Os Distorcidos é uma ótima continuação para a saga de Freddy Fazbear e, ainda que não consiga manter com tanta precisão a representatividade literária do original, é satisfatório para os fãs dos jogos e dos livros. E, em adição a um cliffhanger muito interessante e bem-vindo, não podemos deixar de ficar imaginando o que mais de terrível nos aguarda em Hurricane.

Five Nights at Freddy’s: Os Distorcidos (Five Nights at Freddy’s: The Twisted Ones, Estados Unidos – 2018)

Autor: Kira Breed-Wrisley, baseado no game criado por Scott Cawthon
Editora: Intrínseca
Edição: 1ª edição
Gênero: Terror, Mistério
Páginas: 285

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