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De todas as obras de Darren Aronofsky, Fonte da Vida é a sua mais ambiciosa. Ambiciosa por conta de sua temática (aceitação da Morte; fé contra ciência) e narrativa (três tempos diferentes, com “reencarnações” dos mesmos personagens). Podia facilmente chamá-lo de pretensioso, mas é o filme mais comovente feito pelo diretor, sendo uma obra que mistura lirismo, filosofia e humanidade de maneira inteligente e sensível.

As três histórias diferentes se passam no passado, no presente e no futuro. Durante o Século XVI, o conquistador Tomás (Hugh Jackman) é enviado pela rainha Isabel (Rachel Weisz) a uma missão para encontrar a Árvore da Vida. No presente, o neurologista Tommy Creo (Jackman) pesquisa uma cura para o tumor que está matando a sua esposa, a escritora Izzi (Weisz). No futuro, uma espécie de astronauta chamado Tommy (Adivinha: Jackman, de novo), está no espaço em uma bolha junto com uma árvore para chegar a uma nebulosa e encontrar a origem da vida.

As narrativas são contadas ao mesmo tempo, mas ao invés de parecerem confusas, a estrutura feita por Aronofsky – que assina o roteiro – se mostra coesa. Através de rimas narrativas podemos perceber a ordem dessas histórias. Essas rimas não estão apenas nos nomes dos personagens ou de sempre o seu protagonista tem um sentimento com a personagem de Weisz. Uma das principais marcas de Aronofsky como diretor é como consegue criar uma gramática visual coerente e única em cada um de seus filmes. Notem como há sempre algum círculo em alguma história, seja em algum objeto (o anel da rainha; a aliança de casamento; a bolha que leva o astronauta) o nos próprios enquadramentos, já que várias transições são feitas em elementos circulares. Além de o filme dar uma pista quanto a ordem cronológica, já que todo o núcleo do conquistador pode ser interpretado como se Tommy, no presente, estivesse lendo o livro que Izzi está finalizando (No artigo falo mais sobre essa e outras interpretações da narrativa).

O grande ponto desse roteiro é de como Aronofsky conseguiu falar de temas tão difíceis de uma maneira inteligente e humana. Percebe que há uma sinceridade no discurso, sem que soe superior ou se ache muito inteligente. É respeitoso e delicado, já que falar da aceitação da morte e o significado da vida são assuntos complexos que podem serem ditos de maneiras diferentes, dependendo da crença de cada um. Fonte da Vida não oferece uma resposta que se diz como a verdadeira, ele levanta essas questões e pode deixar o espectador preso e pensando sobre elas por horas e um filme que contém um tema como esses dá essa sensação, não é pouca coisa.

Voltando a lógica visual, o longa além de ter uma inteligência mostra uma beleza estética incrível. Junto com Cisne Negro é o trabalho visual mais apurado do diretor. A direção de arte de James Chinlund (Réquiem Para Um Sonho) é incrível, todos os cenários são bem feitos e riquíssimos, conseguindo trazer o sentimento de cada cena. Além de seres lindos, com destaque a sala da rainha Isabel feito por luzes de velas e as cenas que mostra o astronauta no espaço chegando perto da nebulosa.

Já a fotografia de Matthew Libatique – colaborador frequente do diretor – se mostra eficiente ao criar a lógica visual, com a luz dourada que permeia todo o longa, mas se mostra exagerado em certos momentos. Uma coisa é utilizar em certos momentos a luz para criar a coerência visual, mas tem que ter uma inteligência nessa utilização, Libatique utiliza essa luz em todas as cenas do filme, sendo em alguns momentos forçados, como nas cenas do presente. Por conta das pistas visuais dadas, o espectador vai ligar com as outras histórias, não precisando utilizar a mesma luz em cenas em que os cenários são: a casa do casal; o laboratório em que Tommy trabalha; o hospital em que Izzi está internada; até o museu aonde ambos se encontram. Isso deixa o trabalho saturado. Outro ponto fraco da fotografia é que ela é muita escura nas cenas noturnas do núcleo do conquistador, sendo que nessas que acontecessem as maiorias das cenas de combates. Libatique já se mostrou um fotógrafo competente, mas em Fonte da Vida faltou uma inteligência maior nessas cenas.

Se esse colaborador se mostrou fraco, o outro fez o melhor trabalho de sua carreira: o compositor Clint Mansell. A trilha sonora é simplesmente maravilhosa. Ela consegue passar todo o significado do filme, não apenas pontuando o que os personagens sentem e como o espectador deve reagir. Misturando de maneira forte, sintetizadores com instrumentos de cordas, ela se torna um elemento tão forte e coeso do filme, que se torna uma parte dele. Isso é que toda trilha deve ser, ao invés de ser intrusiva como é na maioria das vezes, mas esse trabalho de Mansell consegue ser tão natural e profundo que poucas trilhas parecem entender tão bem o significado e os subtextos de seus filmes. É uma das grandes virtudes do filme.

Quanto ao elenco, o filme tem um dono: Hugh Jackman. O ator já mostrou várias vezes como tem um alcance dramático invejável. Não por acaso lançou O Grande Truque no mesmo ano, mostrando que o seu trabalho em Fonte da Vida não era uma acidente de percurso. Jackman consegue encarnar as reencarnações deixando claro na sua composição que são diferentes entre si: o heroísmo sem medo do conquistador; a dor inabalável do cientista; e a serenidade do astronauta. Nos três casos, Jackman mostra que pode ir de um ator mais econômico (Como no caso do conquistador, que fala através de expressões) para um tipo mais expressivo (As cenas de choro do cientista) com facilidade e com a mesma competência. É um trabalho o qual já mostrava que Jackman não era apenas o interprete do Wolverine e sim um ator de imenso talento. Já Rachel Weisz pouco tem a fazer por nenhuma das suas personagens darem a atriz muito material para que explorar. Tanto Izzi quanto Isabel servem como um pontos de admirações para os seus protagonistas entendem os seus significados. Não é um trabalho ruim, pela figura da atriz ser muito forte e ambas as figuras serem humanizadas, principalmente a escritora que mostra compreensão e serenidade quanto ao seu destino. O resto do elenco tem pouco a fazer, mesmo com atores como o competente Cliff Curtiz e a ótima Ellen Burstyn.

Mas e a direção da Darren Aronofsky? Sendo que seu último trabalho havia sido Réquiem como se mostra em filme como esse? Simples, Aronofsky é um diretor que se adapta ao seu projeto. Por mais que os seus temas sejam recorrentes e as suas estruturas sejam semelhantes, cada filme é muito diferente entre si. Fonte da Vida não tem os cortes rápidos de Pi ou a câmera que persegue os personagens como em O Lutador, é um filme mais contemplativo e calmo. Para isso a câmera sempre está perto dos seus personagens apenas observando e a mise en scene se mostra muito elegante, parecendo que está compondo uma pintura. Para o que o seu roteiro pede, Aronofsky entrega perfeitamente. Tanto na decupagem quanto na excelente direção de atores que falei acima. O que pode ser uma dificuldade é que como na maioria dos filmes do diretor, o espectador precisa comprar a sua proposta. Com a exceção de Noé e O Lutador, todos os longas de Aronofsky precisam desse entendimento do espectador, pois esse diretor de apenas contar uma história, ele quer algo a mais. E geralmente chega bem nesse objetivo.

Enfim, não há mais o que dizer de Fonte da Vida. Além de ser muito bonito e com uma belíssima execução, ele é um filme respeitoso quanto ao tema abordado e abre discussões tão ricas quanto o próprio filme. Repito: de todas as obras de Darren Aronofsky – que até agora tem se mostrado rica e muito interessante – essa é que a mais me intriga e me fascina. Um filme que sempre carregarei comigo.

Fonte da Vida (The Fountain, EUA – 2006)

Direção: Darren Aronofsky
Roteiro: Darren Aronofsky
Elenco:  Hugh Jackman, Rachel Weisz, Ellen Busrtyn, Cliff Curtis
Gênero: Drama, Ficção Científica, Romance
Duração:  96 minutos

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