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É muito interessante vir a encarar de frente a filmografia de um cineasta tão único e especial como Guillermo Del Toro, e vir a notar, não só sua variedade em gêneros, temas com que já trabalhou, e sim, claro, sua constante evolução na sua forma de se fazer cinema. E pode-se dizer agora, de forma justíssima, que A Forma da Água chega como um ápice em sua carreira!

Tudo, digo tudo que Del Toro realizou até agora como cineasta, finalmente pôde culminar aqui na excelentíssima concepção cinematográfica que está por detrás deste seu novo grande filme. E pra chegar a isso nem parece que tanto esforço fora feito. Criatividade é algo que Del Toro já mostrou ter de sobra, e aqui ele parece confiar mesmo em seu público ao entregar uma história de amor que para tantos já soa familiar, mas promete te levar por caminhos mais profundos e belos por debaixo da sua superfície.

Na trama, conhecemos Eliza Esposito (Sally Hawkins), uma tímida e inocente muda que trabalha como faxineira em um centro de ciências militar. Onde descobre um dia a existência de uma criatura humanóide aquática que vive sob constante tortura de experimentos e mals tratos do frio e cruel major Strickland (Michael Shannon). E, conforme mais se aproxima e mais se encanta com a criatura, ela planeja retira-lo de seu cativeiro.

Nada de tão novo não é mesmo? Mas isso nem chega perto de ser uma gritante incoerência ou falha do filme, aliás, pouco tem do que se reclamar do filme que têm-se aqui. A paixão de Del Toro não o permitiu e as sutis surpresas guardadas são agradabilíssimas.

A Bela e o Monstro da Lagoa

O principal ponto de referência que se pode ter da trama, é claro a boa e velha história do amor proibido entre a bela e a fera, divididas pela natureza de suas espécies, o que certamente faz parte aqui. Embora Del Toro, e sua co-roteirista Vanessa Taylor, busquem talvez levar isso para algo mais próximo de O Monstro da Lagoa Negra de Jack Arnold, um dos clássicos filmes de monstro da Universal que Del Toro deve tanto prestigiar, e busca invocar o espírito desse clássico para o seu próprio filme. A natureza sendo trazida ao mundo dos homens e sendo piamente torturada por ele, mas que aqui se complementa com o encontro da jovem mulher que se torna quase a personificação de amor e pureza em meio à um mundo tomado pela cobiça e ódio.

Por isso digo tão fervorosamente como sim, esse filme também evoca muito do que já vimos na carreira de Del Toro até então. A criação da história de Eliza se assemelha e muito à história de Ofélia em O Labirinto do Fauno, e lida até com questões similares no que se refere à fuga no fantasioso do cruel mundo real. Só que aqui, muito do considerado irreal e extremamente realista andam de perfeitas mãos dadas, criando essa aura tão mágica e palpável do filme, mas com suas boas doses de sombrio e violência que Del Toro sempre gosta de ter. Mas que serve de perfeito propósito para muitas das razões que leva Eliza e os outros personagens, agirem como agem no filme.

Este não é um conto gótico macabro como seu filme anterior Colina Escarlate, ou busca ir no mesmo percurso da fantasia sombria de O Labirinto do Fauno; A Forma da Água firma sua identidade própria dentro da filmografia de Del Toro como talvez o seu filme mais existencialista e com profundo foque em personagens. Por essa perspectiva, podemos notar o quão coeso é o texto em si por conseguir trabalhar tão bem a jornada individual de Eliza, e conseguir ao mesmo tempo intercalar no seu foque de cada um dos personagens em volta da história.

E o elenco se encontra em perfeita sintonia narrativa, fazendo o público conhecer cada um de seus personagens em um nível bem íntimo. Fazia tempo que não via Richard Jenkins sendo tão bem aproveitado como o grande ator que é com um doce e complexo personagem de Giles, o vizinho amigo de Eliza que luta contra a solidão e a monotonia. E ainda temos uma sempre ótima Octavia Spencer cheia de carisma e trazendo muito de seu bom humor ao filme no papel reconfortante da fiel melhor amiga Zelda. Até o homem irracional adorável de Michael Stuhlbarg tem a chance de brilhar no papel do agente duplo Dimitri/Dr. Hoffsteltler que poderia ter sido facilmente um personagem descartável e esquecível na mão de qualquer outro diretor, mas com Del Toro ele se torna apenas outra dose extra de complexidade adicionada a trama.

Mas quem domina a cena fica a cargo no que para mim é o trio principal do filme, o Strickland de Michael Shannon que passa longe de ser um vilão caricato e traz consigo uma surpreendente carga dramática e nos conseguir fazer compreender o porque ele faz o que faz, mesmo nos fazendo o odiar por completo, com uma caracterização que muito se assemelha à composição vilanesca machista opressor do general Vidal de Labirinto Fauno, só que muito mais humano. E claro, a Bela e a Fera da história.

Desde já, devo elogiar outro incrível trabalho que o ator Doug Jones realiza aqui na sua sexta parceria com Del Toro, e faz de seu homem anfíbio outro de seus personagens “monstros” icônicos, ao lado do Fauno, o Pale man e o Abe Sapien de ambos Hellboy, seu primo não tão distante.

O desing da criatura é incrível, com uma conjuntura animalesca que Jones no papel traz com tanta naturalidade e doçura, mas sem esconder sua violenta selvageria em certos momentos. Mas que não são o bastante para afastar os olhos ou o amor de Eliza com uma simplesmente soberba Sally Hawkins. E o que se admira tanto em sua performance aqui é a forte dramaticidade que ela cria de forma tão sutil devido a sua limitação de fala, mas a atriz usa seus olhos e corpo como se fosse uma perfeita atriz do cinema mudo em cena.

O que aliás serve de grande e apaixonada homenagem de Del Toro a essa era clássica do cinema, pra além de outras referências que ele faz ao longo do filme, composta na caracterização da personagem, que brilha em alguns breves e lindos momentos de puro silêncio poético cinematográfico. E traz essa personagem tão doce e pura que acaba se tornando os olhos e ouvidos de nós o público em seu mundo, nos fazendo sentir imergidos em sua solidão inicial tão palpável, para sua paixão pela fera que se cria ao longo do filme.

Onde esse casal tão surreal e ao mesmo tempo tão verdadeiro, acabam se tornando exatamente esse ponto de junção entre todos os personagens ao longo da história, e revelam seu verdadeiro propósito aqui. A constante opressão racial que Zelda sofre; a senilidade e velhice de Giles; e o tenso jogo de identidade que Hoffstatler/Dimitri passa como espião. Esse grupo de pessoas, perdidas em mundo frio e cruel que os rejeita por completo, se juntam por uma causa maior que a deles. Uma história sobre união, amizade e amor, nada mais simples e puro que isso.

O palco de fundo de América em plena Guerra Fria se torna uma metáfora à mais nessa alegoria que Del Toro adiciona como outra forte motivação para seus personagens e um reflexo não tão diferente da nossa realidade atual; dividida por confrontos frios e sem sentidos movidos a frívolos sentimentos de ganância e ódio. Estaria eu aqui definindo o mundo dos personagens ou o nosso mundo de hoje?!

A Beleza na Sensibilidade

Ah, e não poderia de deixar um espaço aqui para elogiar a parte técnica desse filme que merece um status de pitel artístico. Talvez seja um certo preconceito de minha parte falar isso, mas devido às origens Mexicanas de Del Toro ele não consegue evitar em colocar um visual aqui não menos que exuberante. Com a ajuda da fotografia de Dan Laustsen vemos o que ouso dizer a direção mais limpa e suave do diretor, com um uso pontuado e acertado de longos planos sequências aqui e ali que com certeza pegou emprestado inspiração de seu mestre Spielberg e amigo Cúaron.

E graças ao texto tão acertado e amarrado, vemos o filme de ritmo mais coeso do diretor à um bom tempo, nada se apressa ou se arrasta aqui, com uma montagem não menos que perfeita de Sidney Wolinsky. E pra um filme tão 90% focado nos personagens, surpreende em ver um design de produção impecável que reconstitui a década de 50 com perfeição. Só um eye candy à mais em um filme tão lindo.

Lindeza essa que se reflete no seu esmero técnico digno de premiações e uma história tão soberbamente contada que será difícil desagradar até aos mais duros de coração. Guillermo Del Toro voltou a fazer o que poucos achavam que ele conseguiria de novo, se provou como um cineasta de bandeja cheia de boas influências e inspirações criativas tão ricas em suas temáticas humanistas. Trazendo consigo o cinema fantasia, os filmes de monstros e o estudo de personagens, juntos em um filme que promete mexer com o coração e a encantar do início ao fim.

É uma fantasia? Sim. Só que adulta, madura, complexa em sua abordagem e puro em seus temas. Que se usa do cinema clássico como ponto reverencial e o usa em prol de seu melhor para encantar a todos. Uma mensagem de amor e união que tanto necessitamos!

Seu melhor filme? Deixe essa resposta para o individual de cada um, ele já tem um bom leque de excelentes filmes e esse é outro fantástico no meio deles!

A Forma da Água (The Shape of Water – EUA – 2017)

Direção: Guillermo Del Toro
Roteiro: Guillermo Del Toro, Vanessa Taylor
Elenco: Sally Hawkins, Michael Shannon, Richard Jenkins, Octavia Spencer, Michael Stuhlbarg, Doug Jones
Gênero: Fantasia, Romance, Dram
Duração: 119 min

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