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Tim Burton é um dos vários nomes da indústria cinematográfica cuja carreira é marcada por altos e baixos. Assim como em 2005 com o lançamento de A Fantástica Fábrica de Chocolate e A Noiva Cadáver, o diretor conseguiu repetir o feito de lançar mais duas obras para compor o seu currículo de formas totalmente opostas entre si: se em junho ele nos entregou a uma estúpida adaptação da série Sombras da Noite – que eventualmente tornou-se um fracasso gigantesco perscrutado por uma boa ideia desperdiçada -, ele voltou a se redimir retornando às raízes com uma das animações mais envolventes e miméticas dos últimos anos.

Não é nenhuma surpresa que Frankenweenie evoque uma famosa e atemporal obra escrita no começo do século XIX por Mary Shelley. Afinal, a ideia originalmente arquitetada por Burton quando adolescente é uma homenagem direta para a obra romântico-gótica Frankenstein, cujas páginas são pautadas em uma poética análise antropológica sobre aceitação, amadurecimento e até mesmo marginalização social que insurge através de uma tentativa de desvendar os mistérios e a tênue linha entre vida e morte. E é exatamente o que ocorre nessa incrível animação em stop-motion, com sequências também nos aproximam de imagens, arquétipos e estereótipos já vistos em inúmeras obras audiovisuais e adaptações do livro em questão.

A trama gira em torno do tímido e antissocial Victor Frankenstein (Charlie Tahan), cuja personalidade introspectiva é refutada por sua sincera e inesperada amizade com o cãozinho Sparkie. Toda sua construção se assemelha a outros outcasts do panteão macabro e distorcido criado pelo diretor, incluindo o personagem homônimo de sua animação predecessora, seja pelos olhos arregalados e cansados, pela postura franzina e pelo corpanzil extremamente magro. Ainda que pareça estranho e bizarro, ele é um doce garoto que tenta encontrar sua vocação e tem uma afeição incrível por seu professor de ciências Mr. Rzykruski (Martin Landau), uma caricata e ambígua figura caracterizado com tudo o que se pode esperar de alguém amedrontador, incluindo a face quadrada, o queixo longo e os dentes relativamente pontiagudos.

Toda a história segue o princípio básico de afofar o solo antes do plantio, e é em um ritmo agradável e envolvente que Burton nos apresenta a todos os personagens secundários e que marcam adaptações irreverentes daqueles criados por Shelley em seu romance, incluindo Edgar (Atticus Shaffer), uma versão mais jovem do lacaio Igor, e Elsa Van Helsing (Winona Ryder), que obviamente faz referência ao caçador de monstros mais famoso desse cosmos. Essa investida mimética não apenas se restringe aos protagonistas, mas alastra-se para a composição estética, tanto utilizando-se de técnicas clássicas como a fusão de planos quanto a opção pelo monocromatismo cênico, ressaltado pelo jogo de luz e sombras próprios das obras fílmicas que partem da premissa dramática do expressionismo alemão.

Espere sim todos os maneirismos de Burton retornarem com grande força, incluindo os enquadramentos irregulares e a câmera deslizando fluidamente pelo espaço; entretanto, diferentemente de suas investidas com os live-actions, aqui as técnicas são aproveitadas ao máximo e são utilizadas de modo nostálgico. Em diferentes momentos, somos transportados para a mesma perspectiva de Alfred Hitchock, incluindo um movimento com a câmera que utiliza o travelling in e o zoom out para aumentar o espectro de constante tensão – que se firma com a morte de Sparkie e a completa desolação de Victor.

E é aí que as coisas tomam o rumo aguardado, porém pautado em uma subjetividade pueril que não vê, na maior parte do tempo, a falta de inocência a longo prazo e que aprende a discernir o certo e o errado apenas através de uma provação empírica. O garoto, ao perceber que certa carga de energia elétrica é capaz de reativas as sinapses neurais e causar espasmos musculares, utiliza essa aplicação de um jeito grandioso, seguindo os passos da figura na qual foi inspirada para trazer seu único amigo de volta. O experimento funciona e dá origem a uma versão fofa, por assim dizer, do monstro de Frankenstein, cujo arco também segue os mesmos passos do icônico personagem. Ele eventualmente retorna para sua antiga vida e é maltratado por ser uma aberração da natureza; sua antropomorfização também é notável, seja pela presença das expressões faciais bem demarcadas ou até mesmo por seu envolvimento com os outros protagonistas.

Obviamente os antagonistas iriam existir, e todos insurgem personificados por uma massa mentalmente homogênea, porém cada qual com sua peculiaridade, sempre beirando as caricaturas próprias da visão estilizada do diretor. Eles não compreendem aquilo que não conhecem e utilizam de métodos antiquados para banirem o “pecaminoso” de suas monótonas e cíclicas vidas – no caso Sparkie e todos os outros bichinhos de estimação que são trazidos de volta à vida pelo fruto de uma ambição desmedida.

Frankenweenie é um ótimo retorno de Tim Burton à forma, ainda que sua iteração predecessora tenha deixado e muito a desejar. Apesar de tal inconstância, o diretor prova mais uma vez que consegue encontrar poesia nas histórias mais macabras ao mesmo tempo em que seleciona habilmente algo tão pessoal e homenageante no que possa encontrar uma zona de conforto com imenso potencial.

Frankenweenie (Idem, EUA – 2012)

Direção: Tim Burton
Roteiro: John August, baseado no curta-metragem de Tim Burton e no roteiro original de Leonard Ripps
Elenco: Charlie Tahan, Catherine O’Hara, Winona Ryder, Martin Short, Martin Landau, Atticus Shaffer, Robert Capron, James Hiroyuki Liao, Conchata Ferrell
Gênero: Animação
Duração: 87 min

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