» Siga o Bastidores no Facebook , Instagram e no Twitter para saber todas as notícias sobre cinema «

Considerado um dos melhores longas da carreira de David Cronenberg, é fácil notar o que tanto fascina em Gêmeos: Mórbida Semelhança, apesar de ser uma produção bastante aquém de seu potencial por conta de escolhas excessivamente clichês e da marca autoral mais presente do cineasta: o esgotamento de uma ideia subdesenvolvida, mas muito original.

Poucos sabem, mas Gêmeos se trata de um fato perturbador, inspirada no livro Twins que “ficcionalizou” o intrigante acontecimento que chocou Nova Iorque: a morte dos irmãos Stewart e Cyril Marcus, encontrados mortos em seu apartamento de luxo em circunstâncias misteriosas. Se valendo da nova tecnologia do motion control que permite a captura precisa e exata do mesmo plano por repetidas vezes, Cronenberg conseguiria trazer um filme revolucionário com o mesmo ator interpretando diferentes personagens “ao mesmo tempo”.

A Separação

Como na maioria de seus longas, Cronenberg visa tatear dramas extraordinários e provocantes com propostas inovadoras nas situações das narrativas. Apesar de Gêmeos ser um dos longas mais acessíveis, aborda questões profundas sobre fraternidade e solidão que também o tornam desafiador.

Acompanhamos as vidas dos gêmeos idênticos Beverly e Elliot Mantle (Jeremy Irons), dois ginecologistas de extremo sucesso e prestígio no mercado científico, que após se envolverem sexualmente com a atriz Claire Niveau (Geneviève Bujold), sob a mesma identidade, partilhando a mulher entre eles. Mas como Beverly logo se apaixona por ela, os irmãos caminham em terrenos desconhecidos com enorme potencial de causarem completo desequilíbrio em sua relação fraternal sincronizada.

Esse fato da sincronia é algo trabalhado desde o primeiro instante por Cronenberg ao apresentar os protagonistas na infância. Vestidos da mesma forma e trocando conhecimentos, a proximidade dos dois é tão orgânica que quando o longa avança para mostrar a idade adulta de ambos, o espectador não fica surpreso ao encontra-los morando juntos.

Cronenberg é eficiente em delinear características distintas de comportamento para os gêmeos apesar de ser fácil ficar perdido em distinguir Beverly com Elliot, já que se trata de um trabalho sutil e elegante da atuação fantástica de Jeremy Irons. De modo próximo a uma visão clássica de contrastes, temos o irmão inteligente e mais tímido, responsável pelo desenvolvimento teórico e prático da medicina que ambos praticam – este é Beverly.

Já Elliot é mais descontraído, com melhor oratória, postura e apresentação, rapidamente se tornando o sedutor dos dois e elaborando o doentio jogo de dividir mulheres com o irmão, já que quase ninguém consegue distingui-los. Em suma, temos o nerd e o galanteador, ainda que muito inteligente. A premissa de pegar arquétipos clichês muito difundidos em filmes que se baseiam em amizades de longa data e também com a fraternidade, há essa característica que torna a relação dos dois bastante original em questão a sexualidade e da falta completa de privacidade entre eles.

Pelo equilíbrio, há essa relação simbiótica que permite o favorecimento profissional de ambos, mas basta entrar um conflito emocional genuíno que tudo é desalinhado, revelando o quanto Beverly se sente oprimido pelo irmão, sentimentos muito repreendidos no âmago do seu ser. O irmão que é mais novo por questão de minutos, crê, de certa forma, que se trata de uma mera cópia de qualidade inferior. E para provar sua identidade, batalha ingenuamente por um amor, se desfazendo do tratamento misógino que oferecia a diversas parceiras antes de Claire.

Aliás, um dos fatos inteligentes do texto é fazer com que os gêmeos que vivem interpretando um ao outro logo encontrarem sua separação no relacionamento com uma atriz. Por ser perita em compreender personagens, logo percebe o jogo bizarro que está envolvida devido a mudança constante de personalidade entre os dois.

A premissa é realmente fascinante, mas Cronenberg ainda sustenta o hábito de apresentar características repletas de potencial para logo serem descartadas como o fato de Claire ser paciente de Beverly e Elliot e também da sua fixação em curar a própria infertilidade – isso somente serve de pretexto para a confecção de novos equipamentos cirúrgicos bizarros utilizados em duas circunstâncias medíocres.

O fato é que a relação com Claire causa o desequilíbrio nos irmãos fazendo Elliot perceber que é totalmente dependente de Beverly, apesar de seus desejos secretos de ser apenas uma pessoa. Felizmente, o roteiro de Cronenberg não insiste na repetição de situações, mas se alonga de modo expressivo para apresentar o declínio de Beverly e do desgaste com Elliot.

Claire é o pivô de tudo e como um agente invasor mais poderoso na relação dos dois, apresenta o caminho das pedras para o caos. Isso é inserido de modo gradual, algo bastante correto, porém os desfechos são mais realistas, mas demasiadamente clichês, já que paira em diversas cenas a sombra de uma reviravolta inesperada, mas a história se encerra previsivelmente com diversas pontas soltas envolvendo uma catarse necessária para cumprir a cota de violência bizarra de mutilação física sempre presente em filmes do cineasta.

Em geral, na direção, Cronenberg torna Gêmeos uma obra cinematograficamente apagada devido a decupagem bastante característica de filmes de televisão – um hábito que marcaria toda a subsequente década de 1990 em diversos longas. Cronenberg não ousa muito com a câmera ou através de enquadramentos mais elaborados, além de um tratamento padronizado na fotografia que sempre visa trabalhar com tons monocromáticos ou opacos.

É sim uma boa maneira de mostrar que entre os dois irmãos, há essa falsa percepção de falta de contraste e da completa falta de identidade que assombra ambos personagens. Enquanto isso funciona em nível narrativo, não favorece em nada para o longa ter alguma distinção visual mais inspirada. Tudo é excessivamente quadrado e pouco magnético. A única sequência realmente imaginativa que evoca toda a atmosfera visual de Cronenberg envolvendo bizarrices grotescas do corpo, é forte o suficiente para assombrar o restante da obra pelo conteúdo de violência gráfica que sintetiza todos os temores psicológicos de Beverly.

Também é justo mencionar o quanto Jeremy Irons se esforça para delinear essas diferenças sutis em sua atuação quando contracena consigo mesmo. No início do longa, quando os dois personagens estão equilibrados emocionalmente, é quase impossível notar quem é Beverly ou Elliot de tão minúsculas que são as diferenças, além do efeito visual do motion control tornar toda a encenação extremamente realista. É algo impressionante.

Conforme o longa avança e as diferenças se tornam mais díspares, há uma aproximação melodramática que exaure um pouco a energia de Irons, até novamente encontrar o tom para equalizar ambos personagens de modo sublime. Com certeza se trata de uma das melhores performances do ator em toda a sua carreira.

Yin-Yang

Cronenberg realiza um dos seus melhores textos e trabalho com elenco em Gêmeos: Mórbida Semelhança, mas ainda apresenta seus defeitos característicos na condução da narrativa que encontra uma drástica queda de qualidade durante a segunda metade repleta de clichês, situações esgotantes e desfechos previsíveis. Com o show de atuação de Jeremy Irons e a mensagem sobre a agonia da identidade, este se torna um longa muito interessante sobre fraternidade de um ponto de vista raramente trabalhado na ficção. Por ser um longa bastante cerebral e pela falta de manejo de Cronenberg para transmitir suas mensagens com clareza, é possível que não encontre algo a mais além de um entretenimento.

Gêmeos – Mórbida Semelhança (Dead Ringers, Canadá, EUA – 1988)

Direção: David Cronenberg
Roteiro: David Cronenberg, Norman Snider, Bari Wood, Jack Geasland
Elenco: Jeremy Irons, Geneviève Bujold, Heidi von Balleske, Shirley Douglas, Stephen Lack
Gênero: Suspense, Drama
Duração: 116 minutos.

Comente!