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A morte do movimento Hippie teve uma data precisa: dia 6 de dezembro de 1969. O maior movimento de contracultura dos Estados Unidos simplesmente não suportou uma inusitada experimentação social que visava replicar a magia do festival Woodstock ocorrido apenas quatro meses antes: o Concerto Livre de Altamont.

Por uma coincidência fantástica, os irmãos Maysles, Albert e David, estavam cobrindo uma turnê da banda Rolling Stones e de seus shows beneficentes disponibilizados como forma de gratidão por todo o sucesso adquirido até então, além do nítido contraste conquistado entre eles e os Beatles. Em uma abordagem centrada apenas no realismo e nada além disso, os cineastas evocam o cinema-direto para mostrar a vida agitada dos bastidores da banda, além da correria de outros profissionais para organizar o evento vaidoso da banda.

A Verdade como Ela é

A proposta inteira do cinema-direto é prezar pela pureza do registro. Deixar rodar a câmera e capturar a vida acontecendo em toda sua imperfeição. Não há roteiro, não há um discurso pré-concebido, não há interferência artística ou encenações. Em Gimme Shelter, considerado um dos filmes mais perigosos já realizados, temos essa (in)feliz coincidência de um filme que era para ser um registro da vida de uma banda que acaba se transformando no registro histórico do fim da Paz e do Amor, provando que o coletivismo sempre será extremamente frágil.

Na verdade, temos dois filmes em um aqui. Como há uma abordagem não-linear, os cineastas optam em mostrar os shows mais tranquilos da banda intercalando com outras imagens dos músicos acompanhando o processo de montagem do filme a fim de investigarem o que deu de tão errado no show de Altamont. Logo, essa primeira parte centrada em mostrar os outros shows com os maiores hits da banda até então, além das primeiras negociações para a realização do concerto em Altamont – isso depois de dois lugares recusarem devido a premonição de que as coisas não ocorreriam bem ao aglomerar tanta gente em um lugar só.

De fato, enquanto acompanhamos banalidades da banda e curtimos o ótimo rock, o filme não se destaca muito, pois o cinema-direto sempre depende da força dos acontecimentos. Porém isso se inverte quando finalmente chegamos ao momento do concerto que reuniu diversas bandas. Como a equipe estava lá para filmar os Rolling Stones, tomaram a escolha certa de fazer um registro geral da aglomeração expansiva do público que chegou a um máximo de trezentas mil pessoas.

Já na parte da manhã e tarde, os diretores capturam a receita perfeita do fracasso: muitas drogas sintéticas, sexo ao ar livre, bebidas e gente já totalmente alterada pelos efeitos das drogas. Só capturando as imagens de pessoas peladas e se drogando ao ar livre, temos um registro forte, mas isso vai além até revelar descobertas de mulheres parindo em pleno campo aberto.

Com esse estabelecimento de causa, logo vem o efeito no show mais aguardado da noite: dos Rolling Stones. Aqui entra em ação toda a problemática histórica da segurança que cercou o palco, já que muitas pessoas tentavam invadir e causar tumulto a todo momento. O cordão foi feito por membros novatos da famosa gangue de motoqueiros Hell’s Angels que agiram com tremenda truculência contra o público.

O curioso é notar que, devido ao estágio também totalmente drogado dos integrantes da banda, não sabiam lidar com o perigo que os cercava. Logo, tampouco impediam a ação dos seguranças e nem do público, tentando controlar a situação somente fazendo greve ao interromper o show para educar o público – uma visão totalmente utópica e surreal do que estava acontecendo ali.

Entre muito tumulto que exigia o fim imediato do show, tudo somente parou quando o pior aconteceu: a morte de um homem. No caso, de Meredith Hunter, um rapaz de dezoito anos que sacou uma arma com a intuição, presumidamente, de assassinar Mick Jagger. Porém, antes de atirar, foi esfaqueado pelos membros da gangue de motoqueiros. Isso, enfim, encerrou o show evidenciando a completa falta de estrutura e preparo para um evento daquele porte.

Receita do Caos

Os cineastas, que sempre colocaram suas câmeras no lugar certo e na hora certa, foram um fator decisivo para a investigação criminal do homicídio que se tornou um caso de legítima defesa posteriormente. Entre muita polêmica e confusão, os irmãos Maysles trouxeram um registro formidável e totalmente inesperado para um evento que era para se tornar um segundo Woodstock, aprimorado e ainda mais celebrado, mas que acabou sepultando de fez o movimento de contracultura hippie.

O final do filme é particularmente genial ao mostrar a banda se apertando completamente em um pequeno helicóptero para sumir da zona violenta que o festival virou, enquanto outras pessoas, as “comuns” estavam totalmente à própria sorte em um campo aberto completamente escuro tendo que voltar a pé para casa, encarando um trânsito anormal, além de lidar com a decepção amarga do experimento cívico que atesta o óbvio: muito sexo, drogas e rock n’roll no mesmo lugar, simplesmente não tem a menor condição de ser uma boa ideia.

Gimme Shelter (Idem, EUA – 1970)

Direção: Albert Maysles, David Maysles, Charlotte Zwerin
Elenco: Rolling Stones, Mick Jagger, Keith Richards, Charlie Watts, Mick Taylor, Bill Wyman
Gênero: Documentário, Música
Duração: 90 minutos.

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