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É inegável dizer que produções do gênero western carregam um lugar especial no coração de vários cinéfilos. Emergindo como o estilo de narrativa precursora do cinema clássico, sua primeira aparição data do início do século XX com O Grande Roubo do Trem (1903), trazendo inúmeros tipos sociais que já foram usados, reutilizados e reinventados dentro da indústria do entretenimento – seja o mocinho, o vilão ou a donzela em perigo. É claro que, com o passar do tempo, nomes de importância inenarrável consagraram-se como os revolucionários do gênero, incluindo Clint Eastwood, John Ford, Howard Hanks e outros.

Em sua concepção original, os westerns tinham como base uma ideologia de conquista e de missão divinizada, cujas explicitações concediam aos colonizadores americanos o direito de explorar o Oeste – conceito a partir do qual foi originado o termo “faroeste” – e tomar as terras pertencentes aos nativo. Não é à toa que grande parte das produções hollywoodianas tenham como enfoque a celebração da coragem e do heroísmo estadunidense perante o bestialismo e negação à civilidade que tanto pregavam por parte dos indígenas. Através de representações imageticamente simbólicas, tudo era justificado com base na supremacia racial, querendo ou não – e então chegamos a Godless, minissérie da Netflix que pode ser considerada uma das melhores já produzidas pela gigante do streaming.

Criado pela mente apaixonante de Scott Frank, o show fornece uma nova e interessante perspectiva acerca do gênero cujo endossamento permaneceu durante longos anos. As tramas e subtramas podem trazer os melhores elementos dos westerns, arquitetando um grande compilando mimético e honroso para obras predecessoras, mas o escopo geral serve inclusive como empoderamento de minorias sociais que conseguiram seu espaço no cenário mundial há pouco tempo: afinal, a narrativa gira em torno da cidadela de La Belle, a qual, após um trágico desastre na mina local, teve sua configuração alterada para algo estritamente matriarcal e bem mais aberto, por assim dizer.

Primeiramente, Frank não é conhecido por suas histórias convencionais: não é à toa que o capítulo inicial dessa odisseia desértica começa com uma devastação completa, uma montagem revelando uma vila completamente destruída e perscrutada por cadáveres assassinados de forma brutal e violenta. Até mesmo o take de uma criança enforcada na árvore compõe o caótico pano de fundo que introduz o principal antagonista, o fora-da-lei Frank Griffin (Jeff Daniels) e sua tentativa de reaver o que lhe foi roubado pelo outrora protegido Roy Goode (Jack O’Connell). Toda essa sequência é tomada por uma névoa ameaçadora e duvidosa, que entra como um arquétipo de linguagem para confundir o espectador e aumentar inclusive a tensão dos acontecimentos – e talvez o mais envolvente nessa primeira cena seja a completa ausência de falas: em uma série tão bem articulada quanto essa, os diálogos emergem quando necessários, justamente para não se tornarem redundantes com a explicitação dos eventos.

A ideia geral já nos é mostrada nessa primeira investida; afinal, temos dois inimigos mortais cujo passado afetivo é posto em cheque após um conflito ideológico que vai muito além do que conhecemos. Roy e Frank são a encarnação das inúmeras defasagens de relacionamento no melhor estilo pai-filho – nos remontando inclusive a Luke Skywalker e Darth Vader no panteão Star Wars -, mas com um toque a mais. A priori, é possível sim identificar os imortalizados conceitos de bandido e mocinho. Entretanto, conforme os episódios se seguem, essa separação transforma-se em uma fusão de personalidades que busca em seu cerne a aceitação e a recusa à solidão – não é nenhuma surpresa que o bando de Frank seja tão numeroso: ele primeiro recrutou o melhor amigo, logo depois encontrando a figura do filho perdido em Roy e então lançando-se na procura de renegados e de abandonados para lhes dar uma chance de ser alguém – ainda que no sentido mais distorcido possível.

De qualquer modo, esse conflito de ideais não é exatamente o tipo de problema que a comunidade de La Belle está procurando. Afinal, a pacificidade que sempre reinou sobre o árido território ainda procura estabilidade após um acidente matar quase todos os homens e obrigar as mulheres, antes resumidas aos problemas domésticas, a potencializarem suas personalidades lineares e tornarem-se as reais governantes. De modo simplificado, temos duas forças opostas também dentro do vilarejo: uma, representada por Michelle Dockery em um incrível sotaque interiorano como a viúva Alice Fletcher; outra, pela figura “masculinizada” e quebradora de paradigmas de Mary Agnes (Merritt Wever), que, por mais que carregue valores conservadores, vê na decadência de La Belle e de seu irmão, o xerife Bill McNue (Scoot McNairy), a oportunidade de se libertar e portar-se dentro do próprio livre arbítrio.

Cada um dos capítulos funciona como um longa-metragem que, graças ao dinamismo do roteiro e ao desenvolvimento dos personagens, emerge como uma construção fluida e agradável de ser acompanhada. O envolvimento do público com os protagonistas e até mesmo com o cenário abandonado é um dos principais fatores que permite a Godless transformar-se no épico norte-americano que realmente é: apesar de alguns deslizes, principalmente pela falta de um desenvolvimento marcante da figura encarnada por Dockery, todos ali, em sua grande maioria, possuem um grau de discordância intimista que os torna humanos e os afasta da mentalidade invencível e endeusada tão louvada pelas primeiras obras do gênero.

E aproveitando que menciono o elenco, Thomas Brodie-Sangster é um dos grandes nomes a serem lembrados. Além de abandonar os trejeitos aventureiros de suas performances em Maze Runner, o ator britânico consegue encarnar o vice-xerife Whitey Winn com uma naturalidade incrível e que chega a ser assustadora. Suas delineações em cena trazem o melhor do western para as telinhas, mas ao mesmo tempo exploram outras vertentes que geralmente são esquecidas dentro das odisseias, como o amor impossível entre raças distintas e a aceitação das próprias fraquezas perante um obstáculo à prima vista intransponível.

Steven Meiszler é outro nome a ser acreditado. A fotografia essencialmente clean da série conversa com a estética aberta de Frank, principalmente nos momentos em que a natureza mostra-se imponente e inabalável pelas forças humanas. Em diversos momentos, a retratação em planos gerais dos personagens e seus monólogos metafóricos entra em contradição com a representação imagética, a qual preza pela solidão e pela imensidão do Velho Oeste. Em outros momentos, vemos o constante uso da névoa para encobrir uma superexposição dos eventos, seja em sua forma mais clássica – ou seja, em contraste com a luz dura do sol, a qual torna-se difusa pelas partículas de poeira – ou de modo mais simbólico – mesclado com planos-sequência em slow-motion que brincam com a dualidade entre claustrofóbico e expansivo.

Godless é uma obra-prima narrativa e visual. Até mesmo as falhas claras ou a longa duração dos episódios conseguem ser encobertos pelo escopo geral e pelos detalhes muito bem colocados que deixam a série ainda mais passível de homenagear grandes produções do western clássico. A Netflix talvez nunca tenha ousado tanto quanto aqui – e digo com toda a certeza que foi um tiro certeiro.

Godless – 1ª Temporada (Idem, 2017 – EUA)

Criado por: Scott Frank
Direção: Scott Frank
Roteiro: Scott Frank
Elenco: Samuel Marty, Luke Robertson, Rio Alexander, Joleen Baughman, Sam Waterston, Jeremy Bobb, Thomas Brodie-Sangster, Tantoo Cardinal, Kayli Carter, Kim Coates
Emissora: Netflix
Gênero: Western, Drama, Ação
Número de episódios: 07
Duração: 70 minutos

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