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Great News é uma daquelas séries que na verdade não parecem ter muito o que prometer e entregar. Tracey Wigfield talvez nunca tenha imaginado esse produto audiovisual como um “quebrador” de paradigmas, mantendo-se em um universo relativamente controlável para puro divertimento. Felizmente, a showrunner teve um grande apoio de uma das queridinhas da televisão contemporânea, Tina Fey, ao longo dessas breves duas temporadas – e o resultado foi muito além do esperado. Eventualmente, a comédia de costumes ambientada dentro de uma empresa jornalística provou ser mais inocente e ácida que inúmeras outras conterrâneas que cederam aos convencionalismos. É claro, um ou outro erro são impossíveis de prever, mas em sua completude geral, o show tornou-se uma das melhores surpresas de 2017 e manteve o ritmo para 2018.

Estamos de volta aos conturbados escritórios da MMN e os corolários de uma quase ruína do jornal já estão dando as caras. Logo no primeiro capítulo, Fey faz uma deliciosa aparição como uma das CEOs mais ricas e respeitadas no mundo inteiro, Diana St. Tropez, tomando as rédeas da equipe e já antevê mudanças estruturais, começando pelo descaso desmedido do âncora Chuck Pierce (John Michael Higgins). É bem provável que Wigfield tenha optado por algo mais palpável para a segunda temporada, mas sem abrir mão dos propositais absurdos narrativos, incluindo as múltiplas referências da indústria do entretenimento, diálogos autoexplicativos e aplaudíveis alfinetadas em nomes bastante conhecidos.

É notável a evolução dramática dos arcos narrativos. A entrada de Diana também serve como base para o estreitamento da relação pessoal e profissional entre os dois focos principais da obra, Katie (Briga Heelan) e Carol Wendelson (Andrea Martin). Como bem sabemos, Carol é mãe de Katie e recentemente foi contratada como estagiária da emissora, trabalhando junto à filha. Apesar do primeiro ano ter mostrado de forma cômica esses laços encontrando um novo nível de aproximação e tratamento, 2018 mostrou uma nova face, optando por coloca-las em diversas subtramas convergentes e cuja catarse final é emocionante. Acontece que Katie não suporta os comentários de sua mãe acerca de não conseguir ou não querer encontrar um namorado e futuro marido, revelando uma visão antiquada sobre construção da felicidade. Na verdade, ela está apaixonada sim pelo colega de trabalho Greg (Adam Campbell), mas mantém em segredo seus sentimentos por questões éticas – afinal, ele é seu chefe e já tem uma namorada.

De qualquer forma, em brincadeiras narrativas que vêm e vão, o público coopta com Carol no momento em que descobre que o afeto é mútuo, abrindo margens para uma complexidade tragicômica muito maior do que o esperado. E, diferente do que poderíamos esperar, essa conhecida premissa recebe um tratamento nada convencional, fugindo dos clichês e mergulhando em uma irreverência máxima, principalmente com revelações claras que quebram a quarta parede com o espectador e representam materializações dos pensamentos de cada personagem. Talvez a única figura que realmente não dê a mínima para o que fala ou o que pensa seja Portia (Nicole Richie), que recebe uma atenção maior e muda sua personalidade estereotipada para uma criação com várias camadas.

A comicidade não é a única força-motriz da série, mesmo que represente uma boa parte dela. Wigfield, além de fazer uma aparição interessante e envolvente como a produtora Beth, entra em colaboração com uma equipe competente de roteiristas e mostra sua preferência por algo mais dramático, sem, é claro, tangenciar no preciosismo cênico. Algumas sequências são marcadas por um refinamento estético, abandonando a paleta de cores vibrante e dando espaço para uma sobriedade justificável: apesar dos diálogos entre Portia e Chuck, que eventualmente retornam para a canastrice próprias de seus personagens, são as Wendelson quem roubam toda a atenção.

Em torno do décimo capítulo, as emoções se mostram cada vez mais intensas entre mãe e filha, encontrando um ápice assustador quando Carol revela ter dado um ultimato a Greg, obrigando-o a decidir entre sua atual namorada e a “amante”, por assim dizer. Ao mesmo tempo, busca alavancar sua carreira, mostrando ter potencial para voltar a alcançar seus sonhos, participando de uma nem um pouco ortodoxa entrevista de emprego para trabalhar no programa Morning Wined Up e conseguindo a vaga. Após ser confrontada por Katie, Carol toma a decisão de se afastar e deixar as coisas como estão, apenas para sentir o gostinho de uma humilhação pública em rede nacional e se aposentar por completo, orquestrando uma triste atmosfera que perdura até a season finale.

Apesar da rendição entre ambos os lados da moeda, o teor de tristeza se mantém e até mesmo renova o repertório da série, endossando suas mensagens. Apesar da estruturação imagética não inovar em muitos aspectos, preferindo a zona de conforto do campo-contracampo, há pontuais investidas diferenciadas, normalmente para fazer alusão a outras obras do campo audiovisual – incluindo certa reverência mimética de títulos como De Volta para o Futuro até Unbreakable Kimmy Schmidt. De qualquer modo, a praticidade é inegável e contribui para dar maior ritmo às múltiplas narrativas que se delineiam dentro do escopo em questão.

A segunda temporada de Great News pode não ser pura comédia, mas é felizmente superior à sua original por inúmeras outras questões, até mesmo por encontrar uma identidade própria e maior terreno para inúmeras explorações, incluindo um breve cliffhanger travestido de conclusão que pode ou não ter uma ótima continuidade ou um desfecho emocionante.

Criado por: Tracy Wigfield
Direção: Beth McCarthy-Miller, Claire Scanlon, Jay Karas
Roteiro: Tracy Wigfield, Ashley Wigfield, Dan Klein, Naomi Ekperigin, Ben Dougan, Dylan Morgan, Hayes Davenport, Josh Siegal
Elenco: Briga Heelan, Andrea Martin, Adam Campbell, Nicole Richie, Horatio Sanz, John Michael Higgins, Tommy Dewey, Sheaun McKinney, Tracy Wigfield, Tina Fey
Emissora: Netflix/NBC
Episódios: 13
Gênero: Comédia
Duração: 22 min. aprox.

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