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As ameaças do Aniquilador e da Falange foram extintas, deixando atrás de si uma marca não só na história do universo como em seu próprio tecido. Temendo um próximo conflito que prejudicasse a já frágil atual situação do universo, Peter Quill, o Senhor das Estrelas, decide formar uma equipe pró-ativa e independente, composta de indivíduos únicos que já lutaram nas duas recentes guerras. Este grupo viria a se chamar Guardiões da Galáxia.

Os roteiristas Dan Abnett e Andy Lanning retornam um mês após o término de Aniquilaçao 2: A Conquista, nos trazendo mais uma série de aventuras cósmicas. Novamente estamos distantes da Terra, que somente é citada em determinados pontos da narrativa, ou até fazendo breves aparições. Seguindo o exemplo das recentes edições da revista Senhor das Estrelas, a trama adota um tom mais descontraído, contando com diálogos e situações que, definitivamente, tirarão inúmeras risadas do leitor.

Não se enganem, porém, ao acreditar que estamos diante de leves peripécias interestelares com pouco impacto no universo Marvel. Os Guardiões lutam para evitar a destruição de todo este plano, que, mais de uma vez se apresenta em risco nos 25 números de seus quadrinhos. Com isso em mente, Abnett e Lanning oscilam entre o sério e o cômico de forma bastante orgânica, sabendo perfeitamente intercalar ação e drama, sem cansar o público-alvo pelo exagero de qualquer uma delas.

Podemos colocar os créditos dessa harmonia nos bem escritos diálogos, que não se demonstram desnecessários mesmo quando tiros e explosões estão voando por todos os quadros. Esse mérito do roteiro é apoiado pelo traço, no começo, de Paul Pelletier, que garante uma notável expressividade para cada personagem – a ênfase aqui vai para Rocket Raccoon, ou Rocky, que, aos poucos, se torna um dos personagens mais memoráveis destes quadrinhos. Esse cuidado com os personagens não humanos, porém, se perde com os desenhos de Brad Walker, que opta por um maior realismo que tira as marcantes características de cada um da equipe. Mesmo os humanoides parecem duros e com poucas reações faciais.

Somos resgatados, então, por Wes Craig, que nos traz o mais caricato dos traços, com uma arte inteiramente baseada em suas cores. A mudança, contudo, não traz somente um impacto visual e sim também narrativo, ao passo que possibilita o maior uso da violência gráfica – o sangue se faz mais presentem, mas não chega a chocar o leitor em nenhum ponto. A organicidade da história novamente está lá, exaltando-se ainda mais, já que, neste ponto, vemos uma maior mudança nos personagens, que é ressaltada pela criatividade de Craig.

Não seria possível falar das qualidades da obra sem falarmos especificamente da história, que está dividida em três volumes distintos (vendidos em quatro paperbacks nos EUA). No primeiro, presenciamos as primeiras aventuras do grupo recém formado, trazendo algumas subtramas que parecem desconexas, sendo ligadas apenas pelas emoções dos Guardiões em si. Há aspectos psicológicos profundos por detrás, que inclusive remete à própria formação dos Guardiões ao final de Aniquilação 2, além de narrativas envolvendo o espaço-tempo que aproximam essa versão moderna dos Guardiões daquela criada em 1969 por Gene Colan e Arnold Drake e, depois, revitalizada em 1990 por Jim Valentino, contando até com personagens da versão original, todos eles bem inseridos na trama. Aos poucos, contudo, cada ação dos Guardiões acaba nos levando para a primeira saga da qual fazem parte, a Guerra de Reis, que coloca em cheque justamente a estrutura universal que desejam preservar.

Abnett e Lanning novamente demonstram seus talentos, ao encaixarem cada ponta solta na progressão dessa sua narrativa, trazendo elementos desde Aniquilação. Nessas situações de maiores perigos, vemos os membros divididos em grupos, possibilitando uma ênfase maior em cada um deles. Senhor das Estrelas, Rocket Raccoon, Groot, Drax, Gamora, Quasar (Phyla-Vell), Adam Warlock, Mantis, Bug, Cosmo e Jack Flagg, cada um possui grande relevância ao longo da trama geral, sem parecerem desnecessários em qualquer ponto. Mais impressionante ainda é a forma como o humor consegue se inserir mesmo nas falas de Drax (sempre um personagem sisudo, mas que ganha contornos bem mais humanos aqui) ou nos diálogos de Groot que, em geral, consistem em, apenas, no desde já famoso: I Am Groot.

Guerra de Reis acaba nos levando para Domínio de Reis, constituindo o terceiro e último arco narrativo, trazendo uma ameaça que já é prevista por um dos personagens nas primeiras edições. O arco é, definitivamente, o mais complexo dos três, trazendo viagens no tempo e alterações na realidade, que, somados ao bom humor do roteiro, nos remete ao gerador de probabilidade infinita de O Guia do Mochileiro das Galáxias. A confusão do leitor, por incrível que pareça, é mínima e, mesmo quando está presente, não atrapalha a imersão nessa hipnotizante narrativa.

É justamente essa imersão, garantida pela escrita coesa e coerente de Lanning e Abnett, que tiram praticamente qualquer diferenciação existente entre os três volumes, que só pode ser mais facilmente percebido pela mudança no traço entre cada um. Somente em alguns trechos podemos perceber evidentes buracos deixados pela estrutura de sagas separadas. Estes são preenchidos pelas outras revistas pertencentes à trama, como alguns números de Nova e da própria revista Guerra de Reis. Além desses, o término efetivo da história não se encontra na publicação Guardiões da Galáxia propriamente dita, mas sim nas seis revistas da minissérie O Imperativo de Thanos. As páginas finais de Guardiões, contudo, nos dão um leve tom de encerramento para a alegria dos leitores.

Nas mãos de três artistas diferentes e dois roteiristas atuando em conjunto, os Guardiões da Galáxia ganham vida, trazendo todos os elementos que apreciamos em Aniquilação e A Conquista e uma dose praticamente interminável de comédia, além de uma espécie de homenagem afetuosa e mais do que merecida aos Guardiões da Galáxia originais. O resultado são histórias que prenderão cada leitor do início ao fim, garantindo, em seu encerramento, uma sensação de narrativa bem estruturada e bem fechada em si mesma, mesmo considerando os já citados “buracos” que são preenchidos pelas sagas que perpassam essa série e o desenho que sofre pequenos declives, o que não afastará a atenção dos 25 números destas aventuras galácticas. Ao contrário até: o leitor acaba se acostumando e apreciando a presença de guaxinins, árvores e cachorros falantes, deixando a Terra de lado e focando no amplo universo cósmico da Marvel.

Guardiões da Galáxia (Guardians of The Galaxy, EUA, 2008-2010)

Roteiro: Dan Abnett e Andy Lanning
Arte: Paul Pelletier, Brad Walker, Wes Craig
Editora: Marvel Comics
Editora no Brasil: Panini Comics

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