É bem justo dizer hoje que Steven Spielberg talvez tenha sido o diretor hollywoodiano que melhor explorou os seres extraterrestres de formas diferentes, filosoficamente interessantes e, acima de tudo, originais dentro e fora de seus gêneros base durante anos no cinema (isto é, tirando o final de Indiana Jones e o Reino da Caveira de Cristal). Então não seria nem um pouco estranho se o mesmo um dia viesse a dar sua própria visão da icônica obra de H. G. Wells, A Guerra dos Mundos, em uma ambiciosa adaptação no melhor nível blockbuster, e assim ele o fez.

A narrativa segue Ray Ferrier (Tom Cruise), um divorciado que trabalha nas docas e um pai que não se sente à vontade no seu cargo de cuidar de seus filhos, Robbie (Justin Chatwin) e Rachel (Dakota Fanning), quando eles fazem uma de suas raras visitas e pouco nutre de intimidade com eles. Mas logo após uma estranha tempestade de raios, Ray presencia um evento que mudará para sempre sua vida: o surgimento de uma gigantesca máquina de guerra, que emerge do chão e incinera tudo o que encontra. O primeiro ataque de um devastador ataque alienígena à Terra, que faz com que Ray corra contra o tempo para proteger os seus filhos e levá-los o mais longe possível do massacre que caiu sobre a humanidade.

Um Drama Familiar

Pode até parecer estranho ver alguém que mostrou um ser alienígena como um pequeno e humilde ser puro e mágico que trazia um conforto para um centro familiar quebrado em seu íntimo (E.T.), ou que representou o primeiro contato entre humanos com extraterrestres como uma jornada de quase transcendência espiritual (Contatos Imediatos), vir desconstruir toda sua essa sua fama preestabelecida e realizar um filme onde os visitantes extraterrestres são frias máquinas de matança. Mas está longe de ser o caso onde o diretor procura seguir um novo trade comercial genérico para atrair o público, e sim talvez fazer jus à obra de mesmo nome em que se baseia.

Talvez a maior obra pilar da ficção científica de todos os tempos, A Guerra dos Mundos, de Wells, dentro de sua trama sobre uma invasão alienígena massiva na costa Britânica, assumia em si uma personalidade alegórica sobre o constante medo de um imprevisível início de conflito entre nações e uma invasão de uma força militar superior. Se, no início do séc. XX, Wells já apontava isso para os confrontos bélicos que viriam a se suceder na Europa durante mais de 50 anos, sua obra já inspirava Orson Welles a querer brincar com a mesma ideia do medo paranoico de possível conflito e apavorou os Estados Unidos, com sua clássica apresentação da Guerra dos Mundos no rádio. E mais tarde inspirara a primeira adaptação direta do livro de Wells com A Guerra dos Mundos de 1953 de Byron Haskin que ousou fazer o mesmo ao representar o conflito interno no auge da Guerra Fria.

Chegada a vez de Spielberg, o diretor mais uma vez comprovou a atemporalidade da história de Wells, focando sua adaptação em uma América pós o 11 de Setembro e dos conflitos militares no Iraque, e ousa em brincar mais uma vez com o sentimento de medo e paranoia de uma comunidade atual vivendo sob um medo enraizado de um possível conflito bélico à qualquer momento, e quando este aparece aqui com o início do ataque dos seres extraterrestres, a calamidade se instala e o próprio senso de humanidade se torna em risco de extinção.

Com o diretor, mesmo seguindo pelo caminho cinemão blockbuster mainstream em sua construção, ainda é hábil em conseguir se desviar de vários clichês datados do gênero, como também em abordar com rara competência temas importantes e presentes da obra de Wells com a ajuda de seus roteiristas Josh Friedman e David Koep (seu eterno parceiro nos seus blockbusters atuais).

O poderoso instinto de sobrevivência do ser humano em luta contra um inimigo aparentemente invencível; o heroísmo sem super poderes oriundo de um homem pacato em uma situação desesperadora e a perda de toda ou quase toda a racionalidade e urbanidade à sua volta, bem como a dos valores morais e sanidade. E ainda, acima de tudo, ser o Spielberg clássico de sempre, trazendo dois de seus elementos favoritos: alienígenas e uma família partida por dentro. Todos temas de interesse de Spielberg.

E que diferente de filmes como Independence Day ou até mesmo o Guerra dos Mundos original de 1953, revestido de intermináveis clichês, o diretor se mostra aqui mais interessado em ir por um caminho próximo do livro de Wells, onde a guerra é mostrada apenas do ponto de vista do protagonista. Com o foco principal de Spielberg sendo em seguir Ray e sua família à todos os momentos do início ao fim.

Onde de início acompanhamos, lentamente, a apresentação da família Ferrier e seus insignificantes conflitos. E o clima de desconforto entre a família é imediato. Os filhos não se acanham em jogar na cara de Ray o quanto o padrasto é mais bem sucedido e o quanto eles se sentem ignorados, mas ele também não está se importando, é um homem imaturo e um tanto cheio de si. Com Spielberg filmando o cotidiano inicialmente de forma extremamente realista e com uma antecipação de tensão perfeita (resgatando alguns dos seus melhores elementos de filmes como Tubarão e Jurassic Park para tal). Com direito a ouvirmos um vizinho brasileiro gritando “filho da p***” e até uma breve cameo do Bob Esponja na TV. Para poucos minutos depois, os primeiros raios surgirem no céu e, tem-se início a invasão já esperada.

Um primeiro ato de costura rítmica praticamente perfeita e Spielberg se mostra o especialista de sempre em saber manipular imagens e sons para estabelecer suspense e excitação, criando sequências memoráveis como o surgimento do primeiro tripod; do terremoto que o precede à sinistra sirene que ele emite antes de atacar (uma sutil referência ao seu Contatos Imediatos). Com o sentimento de deslumbramento inicial causando o máximo de efeito aterrorizante possível, tanto para o público quanto para a população que o testemunha. Apenas imaginem sequência do T-Rex em Jurassic Park, mas estendida em uns quarenta minutos. E o diretor não para por aí em impressionar na sua direção aqui.

A Guerra

Spielberg não poderia deixar de se divertir em um filme onde ele pode extrapolar na destruição em massa que persegue os personagens. Assim sendo, todas (sim todas) as sequências dos ataques dos tripods alienígenas são dirigidas com uma verdadeira maestria técnica e alguns efeitos visuais de cair o queixo de quase tão fotorrealistas. A cena em que Cruise corre (novidade) fugindo da destruição atrás dele ou quando vemos um viaduto inteiro sendo evaporado com os carros voando e explodindo é de uma textura assustadora e rara de se encontrar em filmes desse porte. Não é uma ação catastrófica gratuita e sim realizada com total esmero. Sempre deixando a câmera no no nível das pessoas, o que torna a ação muito mais pessoal e os gigantescos tripods alienígenas muito mais ameaçadores quando estão em cena, e a escala do filme tomando proporções épicas, mas sempre vindo de um nível sutil e revelando um dos trabalhos de fotografia mais impecáveis de Janusz Kaminski.

Realizando ainda um interessante trabalho de perspectiva. Como dito antes, todos os ataques ao vivo físicos sempre acontecem à partir da perspectiva de Ray e sua família, e toda a situação mundial, ou sequer a “real”, é sempre vista através de noticiários ou de uma câmera, como quando Ray descobre que existe mais do que uma máquina alienígena através de um grupo de jornalistas vândalos, ou a primeira morte no filme sendo a de alguém segurando uma câmera e corta para a perspectiva da câmera com os tripods alienígenas desintegrando as pessoas. Ou apenas notem como Ray, a todo o tempo, se preocupa com os horrores que Rachel testemunha, sempre cobrindo seu olhar nas situações mais brutais, como a agonizante cena do rio com corpos ou a TENSA cena do “sacrifício” no porão. É como se Spielberg, com isso, quisesse dizer que nós só estamos vendo o horror e a morte que reveste essa história à partir da perspectiva de uma câmera (literalmente), e o verdadeiro horror e violência só os seus personagens estão testemunhando.

Existe até uma certa provocação ao próprio Cinema espetáculo nesse sentido, como na cena onde a família se perde de Robbie, onde em vez de mostrar uma épica batalha ocorrendo atrás de uma colina, brincando de forma agonizante com a tensão da destruição do que não podemos ver, Spielberg prefere fugir com seus personagens para um porão onde é apresentado o personagem Harlan de Tim Robbins, negando o que poderia ser uma gratuita cena de efeitos especiais. Lugar esse onde os personagens passam um bom terço desacelerado do filme, quase lembrando o sentimento de enclausuramento de filmes como Sinais e para muitos a parte mais “fraca” do filme com essa ruptura de ritmo que ia até então em uma constante leva de fuga e correria contra o tempo.

Mas tendo em conta o fato de que esse trecho também está presente na história de Welles (incluindo o personagem de Robbins), como também de Spielberg construir realmente uma aura pesada de um filme de guerra e seus personagens são meros refugiados indefesos, que podem morrer à qualquer instante. Seu refúgio no subsolo é só uma ação de sentimento plausível e entrega essa sequência como quase uma versão bem sádica e perturbadora do sótão de Anne Frank, com Robbins entregando talvez sua atuação mais fanática e traumática de sua carreira (e também talvez sua última grande performance). Incluindo ainda duas das cenas mais tensas que Spielberg já filmou, uma sendo quando os aliens finalmente se mostram e descem para investigar o porão, quase uma versão da cena dos raptors na cozinha em Jurassic Park com alienígenas, gracejada ainda pelo trombone soturno de John Williams. E a outra sendo a já dita e bem sombria cena do “sacrifício”, capaz de meter bons calafrios na espinha.

O que pode revelar que, de fato, o filme não toma um completo tom filosófico e alegórico dos temas humanistas da obra, embora ainda trate-os de forma bem sutil aqui e ali, tirando a narração inicial e final de Morgan Freeman, que literalmente parafraseia excertos do livro. Mas que consegue construir dentro de suas características de blockbuster, tons e sensações de um verdadeiro filme de guerra brutal e trágico, como já dito antes, sem muito espaço para tiradas de humor ou sequer um raio de esperança.

Onde Spielberg ousa em mostrar de forma assustadoramente real, o pior estado da humanidade em seu momento de crise e medo. A cena em que uma multidão cerca o carro de Ray, mostra como os seres humanos tão facilmente passam a se comportar como selvagens, como bárbaros. E que os humanos são igualmente ameaçadores, reduzidos a quase selvagens quando se trata de luta pela sobrevivência.

Talvez fora esse um dos motivos que afastou parte do agrado público ao filme durante anos devido ao seu tom soturno, mas isso demonstra, também, como Spielberg realmente leva essa história à sério e foi fiel ao livro de Wells em vários pontos importantes. Principalmente no aspecto e a razão pelo qual os alienígenas no final são derrotados, os germes presentes na nossa atmosfera. Para Wells, os alienígenas são mais uma alegoria à opressão aos mais fracos, então é relevante que eles sejam derrotados pela criatura mais simples que existe. E que sua arrogância os leve a ignorar uma ameaça aparentemente insignificante.

E tanto como Spielberg e também como Wells em sua obra, tratam a invasão alienígena, além de obviamente representar a invasão e destruição em massa de uma nação por uma força militar superior e opressora (encaixe isso em quantos cenários bélicos da História você quiser), é também vista como uma força capaz de mudar a perspectiva humana de sua existência. A destruição e morte que o protagonista testemunha, são o suficiente para inspira-lo no final a ser alguém melhor, como no caso de Ray ser um pai para seus filhos, e assim como ele, também toda a humanidade que presenciaram o mesmo que ele.

Se isso funciona bem no papel é outra história, pois se o faz visualmente bem na cena final, que é particularmente tocante, com filho e pai, rivais de ego o filme inteiro, se reencontrado em harmonia e amor (uma sutil conexão com a história pessoal de Spielberg com seu pai); a narração final de Morgan Freeman lendo literalmente o último parágrafo do livro, explicando o porquê dos aliens terem sucumbido ao nosso ecossistema se torna intrusivo e didaticamente forçado, e retira a oportunidade de termos tido um filme muito bem coeso do início ao fim com esse terceiro ato parecendo abrupto e às pressas.

Mas nem o final feliz que Spielberg tanto gosta ou a aparição milagrosa de Robbie no final conseguem ser tão desconcertante no tom do filme já que uma situação similar acontecia no livro com a esposa do protagonista sendo encontrada milagrosamente viva após a derrota dos invasores. E é mesmo o intuito de Spielberg em preservar a visão de Wells e mostrar que mesmo após tantas brutalidades testemunhadas e ações moralmente ambíguas serem feitas, ainda há esperança para a humanidade se salvar e renascer.

Spielberg e Cruise em seu melhor

Merecíamos ver bem mais dessa breve parceria que Spielberg e Tom Cruise tiveram. Ambos juntos não só fizeram dois dos melhores blockbusters (e se duvidar filmes) do diretor nessa década, como também garantiu a Cruise duas de suas melhores performances. Minority Report pode ser o melhor filme como um todo, mas a atuação de Cruise aqui consegue não só ser superior como realmente excelente e cheia de emoções verdadeiras de um pai, mesmo que arrogante e desastrado, luta pela sobrevivência de seus filhos à qualquer custo. A cena em que Ray cantarola “My little deuce coupe” para sua filha ter um breve momento de sono é uma das melhores cenas da carreira de Cruise.

Dakota Fanning também chega a ser impressionante. Facilmente uma das melhores atrizes mirins de todos os tempos e que infelizmente desapareceu e é hoje subvalorizada, e que aqui rouba a cena com seus maneirismos de criança e convence genuinamente nos momentos de crise e medo. Chatwin é o mais fraco, mas realmente convence na típica impulsividade de adolescente.

Mas além de dirigir seus atores e o filme com pura excelência, tirando os tropeços de seu final, Spielberg mostra como o livro de Wells ainda se permanece atual e que sua história retorna para lembrar de nossa infinita arrogância em relação à natureza e ao semelhante. Uma lição piegas mas que Spielberg a entrega com um dos blockbusters mais divertidos e dignamente emocionantes que você verá nos últimos anos. Guerra dos Mundos é assustador e brutal, mas também divertido como uma montanha-russa, e bastante recompensador como um bom Cinema sendo realizado com esmero e paixão de seu cineasta.

Guerra dos Mundos (War of the Worlds – EUA, 2005)

Direção: Steven Spielberg
Roteiro: Josh Friedman, David Koepp (baseado no livro “War of the Worlds” de H.G. Wells)
Elenco: Tom Cruise, Dakota Fanning, Justin Chatwin, Miranda Otto, Tim Robbins, Rick Gonzalez, Yul Vazques)
Gênero: Aventura, Ficção Científica, Thriller
Duração: 116 min.

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