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Após o remake de Rob Zombie para Halloween ser relativamente bem-sucedido, no que diz respeito à arrecadação de bilheteria e resposta dos fãs – que, em maioria, reagiram bem aos novos massacres de Michael Myers -, a Dimension se via em um cenário muito pouco comum para esse tipo de produção: a continuação de um remake. É um luxo que nem Jason Voorhees, Freddy Krueger ou o Norman Bates de Vince Vaughn foram capazes de garantir, e Zombie retorna à cadeira de diretor e roteirista novamente, agora trazendo uma visão mais “autoral” para este Halloween 2. O resultado é levemente superior ao anterior, mas ainda carece de um artista eficiente por trás das câmeras.

Seguindo um longo flashback que se passa diretamente após o final do anterior, com Michael Myers (Tyler Mane) sobrevivendo aos ferimentos e perseguindo Laurie Strode (Scout Taylor-Compton) enquanto a jovem se recupera em um hospital, a trama engata para começar 2 anos após o retorno do assassino à Haddonfield. Laurie e Annie (Danielle Harris) tentam superar o trauma dos ataques e se veem em uma situação muito diferente, ao passo em que o Dr. Samuel Loomis (Malcolm McDowell) faz sucesso com as vendas de seu novo livro baseado nos ataques de Myers. Porém, à distância, um obcecado Myers planeja seu retorno à Haddonfield para matar sua irmã, sendo guiado por visões angelicais de sua mãe (Sheri Moon Zombie) e um misterioso cavalo branco.

The Hateful Everyone

Da mesma forma como executara em 2007, Zombie divide-se entre literalmente refilmar uma porção do filme original (no caso, a continuação de 1981 dirigida por Rick Rosenthal) e introduzir uma porção completamente nova, mas aqui arrisca-se a ser “inventivo” durante a maior porção da arrastada narrativa de 2 horas. Há elementos interessantes, como toda a porção que envolve Michael e as visões do cavalo branco, que praticamente elevam a mãe Myers a níveis de Pamela Voorhees e Norma Bates, que guiam seu filho para concluir uma série de assassinatos, e Zombie é feliz em trazer os personagens discutindo o significado do cavalo branco e até trazer um texto acadêmico sobre o estudo dos sonhos para justificá-lo, e confesso que a decisão agrada; é algo diferente do que já tínhamos visto na franquia, e até serve para trazer alguma identificação com a máquina de matar – ainda que seja uma decisão questionável.

O grande erro fica no arco de Laurie Strode. Scout Taylor-Compton já não demonstrava o carisma ou leveza de Jamie Lee Curtis no anterior, o que justifica sua radical mudança para uma jovem rebelde e roqueira (típico Zombie), mas é uma personagem simplesmente insuportável. Graças à escrita debilitada de Zombie, o trauma de Laurie jamais é capaz de gerar alguma empatia, visto que a jovem está sempre zangada e largando palavrões como se estivesse em um filme de Martin Scorsese, e suas mudanças de humor são risíveis: em um momento está chorando e xingando o mundo por enfim descobrir sua origem como irmã de Myers, e na cena seguinte está inexplicavelmente implorando para suas amigas para ir à uma festa e “curtir”. Desenvolvimento de personagem 101 com Rob Zombie, é assim que funciona. Não ajuda também que Compton seja forçada e abrace o over acting com os berros e choro o tempo todo, e dessa forma até “entendo” como é mais fácil se identificar com Myers, apenas seguindo o espírito de sua mãe, ao passo em que os policiais, amigas e até mesmo Samuel Loomis se revelam como figuras detestáveis e aborrecentes – ver Malcolm McDowell pistolando em uma coletiva de imprensa foi difícil de defender.

Cavalo do Apocalipse

Na direção, Zombie mantém sua câmera pseudo-documental e marcada por uma fotografia altamente contrastada de Brandon Trost, que também exagera no grão. Mas é um avanço em relação ao anterior, visto que aqui o diretor é capaz de criar tensão genuína em raros momentos, como a ótima cena em que Laurie se esconde no escritório de um segurança do hospital, em um cenário desolado castigado por uma chuva intensa e quase perigosa, sendo a melhor cena de todo o filme e também um dos melhores usos da figura de Michael em toda franquia, cuja máscara fica ainda mais amedrontadora nesse cenário de dilúvio. E por falar em máscara, o visual “mendigo” do assassino funciona surpreendentemente bem, com a máscara despedaçada do Capitão Kirk oferecendo detalhes bem nítidos do rosto barbudo de Tyler Dane, e por consequência, uma presença um pouco mais consciente do assassino, que ganha mais destaque em seu olhar.

Os exageros visuais de Zombie também contribuem para uma sequência ambientada em uma rave de Halloween, com as luzes piscando salientando as bizarras fantasias de monstros e criaturas ali. Por fim, todas as visões de Michael de sua mãe também rendem um cuidado visual mais aparente, com o uso do branco (tanto na fotografia quanto no design de produção e figurino) e raios de luz que evocam uma presença quase angelical. E não fossem as caretas de sua esposa Sheri Moon, Zombie até seria capaz de provocar um certo medo com tais sequências, que contam ainda com a aparição do jovem Michael, que aqui é vivido por Chase Vanek, substituindo o ótimo Daeg Faerch do anterior.

Halloween 2 tenta mergulhar na psique de Michael Myers e oferece algumas coisas interessantes, sendo uma notável evolução de Rob Zombie como cineasta, mas ainda sofre com suas escolhas infelizes e o retrato detestável de praticamente todos os personagens, promovendo um cenário onde o o espectador é simplesmente incapaz de torcer para alguém.

Halloween 2 (Halloween II, EUA – 2009)

Direção: Rob Zombie
Roteiro: Rob Zombie, baseado nos personagens de John Carpenter e Debra Hill
Elenco: Malcolm McDowell, Scout Taylor-Compton, Sheri Moon Zombie, Brad Dourif, Danielle Harris, Tyler Mane, Dayton Callie, Richard Brake, Margot Kidder, Octavia Spencer, Caroline Williams, Chase Vanek
Gênero: Terror
Duração: 105 min

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