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A nova aposta do serviço de streaming Hulu, The Handmaid’s Tale, parece, à primeira vista, mais um simulacro das inúmeras produções audiovisuais que têm como fundação a principal vertente de ficções futuristas: a sociedade distópica.

Desde o início da história cinematográfica, as consequências da tecnologia nas relações humanas sempre foram alvo de exploração. Na década de 1920, por exemplo, tivemos grande obras do expressionismo alemão que se tornaram clássicos indispensáveis para qualquer amante cinéfilo – com destaque para Metrópolis, de Fritz Lang. A partir daí, e em adição às escolas literárias do início do século XX, diversas franquias da cultura pop emergiram como disseminadoras de temas-base como livre arbítrio, escravização, sistemas opressivos, hierarquia de classes e outras – citando, principalmente, trilogias como Jogos Vorazes e Divergente, que se popularizam nos últimos anos.

Entretanto, fez-se necessários resgatas algumas obras mais “eruditas” e que permaneceram escondidas sob os panos por vários anos – e este foi o caso de O Conto da Aia, romance distópico assinado por Margaret Atwood e que recentemente foi redescoberto pelo time criativo da produtora supracitada. A história gira em torno de uma sociedade futurista na qual, após a instalação de um regime totalitário nos Estados Unidos, as mulheres férteis passaram a ser mantidas em cativeiro como forma de atender às demandas de repopulação de seus governantes, transformando-se em “escravas sexuais”.

Diferentemente de outras séries com a identidade narrativa semelhante, The Handmaid’s Tale encontra um equilíbrio rítmico, mas que mesmo assim fornece um desenrolar mais contido que suas “irmãs”; com exceção do começo do ato inicial – um plano sequência de perseguição que culmina na primeira grande virada do roteiro adaptado pelo também criador Bruce Miller -, a sucessão de eventos segue o ritmo próprio da comunidade governamental a ser explorada: uma estagnada América, agora chamada de Gilead. Tudo caminha, ainda que em vertentes separadas, para um mesmo ponto – e isso já nos fornece uma das principais pistas para sabermos como mergulhar no universo criado por Atwood.

A personagem principal é Offred (Elisabeth Moss), mas este não é seu nome verdadeiro. Em Gilead, a liberdade de expressão e a conservação e transmissão de cultura não existem mais; desse modo, qualquer aspecto que lembre as pessoas de épocas passadas deve ser varrido da existência. A censura pode ser indicada como a principal característica do regime reacionário implantado pelo Comandante (Joseph Fiennes).

Uma das grandes sacadas da narrativa é justamente brincar com os parâmetros impostos entre liberalismo e conservadorismo: afinal, apesar de se manterem dentro de um círculo de regras restrito e impedir que ameaças e pensamentos externos inflijam qualquer faísca de mudança, alguns valores de cunho essencialmente humanista permanecem – principalmente no tocante a abusos sexuais. Entretanto, a coalisão de elementos contraditórios predomina em diversos momentos, incluindo esse último mencionado: nenhum estuprador será permitido dentro dos limites da nova terra, mas as mulheres férteis são submetidas forçosamente a se entregarem para seus superiores dentro de uma concepção emblemática e quase espiritual. Tais cenas devem ser analisadas e vistas com cautela, por serem carregadas de construções explícitas.

As aias ou concubinas são deusas e escravas; são as representações da esperança, mas constantemente tratadas como subservientes cujo propósito de perpetuamento da raça humana é a única coisa a mantê-las vivas. Afinal, é um fato dizer que todas ali desejam se rebelar contra a opressão que sofrem, mas qualquer indício de motim é motivo para serem enforcadas e expostas em praça pública. E a série explora também os corolários provenientes da internalização do ódio e da frustração por parte das mulheres: pelo que percebemos, algumas sentenças de morte são assinadas pelas explosões de raiva das escravas sobre “foras da lei”, ou seja, na canalização e externalização física do que sentem.

Offred, assim intitulado o episódio piloto, se desenrola de forma relativamente estática. É necessário sim nos apresentar a este novo universo, mas optar por manter as reais características de um regime totalitário e dominador às escondidas entra como um de seus poucos deslizes. Crê-se que, nos capítulos seguintes, isso seja mais aprofundado – ou deixado de lado completamente para dar margens a uma história ainda não arquitetada por completo. Entretanto, as performances de Moss, Fiennes e outros membros do elenco são suficientemente boas para ofuscar o ritmo lento.

A presença de Samira Wiley e de Alexis Bledel como Moira e Ofglen, respectivamente, apesar de não terem tanto protagonismo, já adicionam momentos de subtramas interessantes e complexas, e levam o espectador a se perguntar que relações as duas possuem tanto com seus opressores quanto com suas colegas de cárcere. E Yvonne Strahovski, encarnando Serena Joy, emerge como a representação nua e crua da superficialidade e do controle compulsório, transmitindo de forma clara cada valor pregado pelo regime de seu marido.

O jogo paradoxal não se restringe apenas à narrativa, mas sim à estética da obra. The Handmaid’s Tale opta pelo uso de uma paleta de cores complementar e que tenha profundas ligações com dois tons: o primeiro deles é o vermelho, símbolo da luxúria, do poder e do sexo, e que é destinado à suposta pureza e santidade das aias (sempre vistas como “curandeiras” aos olhos dos superiores), bem como ao tratamento animalesco ao qual são submetidas; o segundo é o verde, cujo significado está ligado à segurança, mas perscruta os figurinos dos que oprimem e abusam da efemeridade do status quo em que se encontram.

De forma geral, Offred é um ótimo pontapé inicial para uma história comovente e que se faz muito necessária para tempos como este em que vivemos. Apesar de problemas de ritmo, sua construção meticulosamente pensada é o suficiente para nos manter vidrados do primeiro até o último minuto do capítulo.

The Handmaid’s Tale – 1×01: Offred (Idem, 2017, Estados Unidos)

Criado por: Bruce Miller
Baseado em: O Conto da Aia, de Margaret Atwood 
Direção: Reed Morano
Roteiro: Bruce Miller

Elenco: Elisabeth Moss, Joseph Fiennes, Yvonne Strahovski, Alexis Bledel, Max Minghella, Samira Wiley, O-T Fagbenle, Jordana Blake
Gênero: Drama
Duração: 57 min.

 

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