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Na época de seu lançamento nos cinemas, era o maior clichê e redundância do mundo atestar como Harry Potter estava cada vez mais sombrio e adulto a cada filme. Até virou uma piadinha com o logo da Warner, que surgia cada vez mais decrépito e sem vida a cada novo longa, desde seu lançamento ensolarado em A Pedra Filosofal até o nevoeiro gélido onde o encontramos em Harry Potter e o Enigma do Príncipe. E sim, caio na redundância ao dizer que o sexto filme da saga é um filme consideravelmente mais sombrio que os demais em muitos aspectos, mas que também surpreende por sua inesperada camada de ternura em tempos tão trevosos.

A trama começa com o mundo bruxo enfim aceitando o fato de que Lord Voldemort (Ralph Fiennes) realmente voltou ao poder, colocando toda a sociedade mágica em alerta e paranóia. Harry Potter (Daniel Radcliffe) ganhou a nova reputação de Eleito para destruir o poder de Voldemort, o que também o coloca em uma posição social diferente ao iniciar seu sexto ano em Hogwarts ao lado de Rony Weasley (Rupert Grint) e Hermione Granger (Emma Watson). Enquanto lidam com os dilemas da adolescência e o aparecimento deu um misterioso livro que ajuda Harry em suas aulas de poções e feitiços, o protagonista deve ajudar Alvo Dumbledore (Michael Gambon) a encontrar pistas no passado de Voldemort que enfim revelem a natureza das horcruxes, objetos que podem finalmente destruí-lo.

O sexto filme da saga traz as obrigações da história de transição. Na realidade, é a transição para a transição, já que haveríamos ainda duas partes para a adaptação de Harry Potter e as Relíquias da Morte, o que inevitavelmente transformaria O Enigma do Príncipe em um filme de ponte. Porém, sob o comando do diretor David Yates – retornando à função após seu trabalho eficiente em A Ordem da Fênix – o longa transforma-se em algo muito mais especial. A atmosfera de perigo iminente e ameaças invisíveis acaba por gerar um ritmo mais lento e tenso por boa parte da narrativa, mas que é engenhosamente equilibrada por momentos mais bem humorados e intimistas dos personagens.

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A fotografia brilhante de Bruno Delbonnel é essencial nessa mistura. Apostando em um filtro embaçado e em cores que variam entre o quente e o cinzento, é uma atmosfera completamente imersiva e palpável. Ainda que estejamos vendo uma cena engraçada com os Gêmeos Weasley, retornando aos animados jogos de quadribol ou ouvindo a harmoniosa trilha sonora de Nicholas Hopper, Delbonnel mantém o filtro gélido, já estabelecendo através da imagem que – mesmo diante da diversão – os personagens encontram-se em um contexto perigoso, até mesmo pelos corredores de Hogwarts, aqui muito mais carregados e preenchidos por sombras.

Essa lógica visual ajuda muito o trabalho de David Yates e sua composição. Por exemplo, é revelador como Harry e Rony estão rindo à toa em um degrau acima de todos os outros estudantes em um corredor lotado, já nos demonstrando a “superioridade” dos dois no início do ano letivo ou como Draco Malfoy (Tom Felton) constantemente surge nos cantos da tela ou indo para caminhos opostos aos do demais personagens, ilustrando com perfeição o caráter irreversível de sua jornada sombria. A segurança ameaçada também ganha lindos e significativos retratos, como aquele em que vemos o caloroso Grande Salão do lado de fora, com dois seguranças postos em cada canto da tela para protegê-lo nas trevas. É um filme plasticamente perfeito e sem dúvida o mais bonito da saga, fazendo jus à sua merecida indicação ao Oscar de Melhor Fotografia.

E Yates também acerta quando somos surpreendidos por momentos mais tensos. A cena de abertura já merece aplausos pelo dinamismo e qualidade de efeitos visuais durante o ataque dos Comensais da Morte em Londres, passando pela repentina invasão de Bellatrix Lestrange (Helena Bonham Carter, deliciosamente maligna) na casa dos Weasleys ou quando uma aluna é possuída por um objeto amaldiçoado; fazendo à levitar em forma de cruz no melhor estilo Exorcista. Vale notar também a frieza e o realismo do duelo entre Harry e Draco em um banheiro deserto e cinzento. A ausência de música e o uso de câmera na mão trazem muito mais violência para a cena, algo que Yates exploraria ao máximo no filme seguinte.

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Porém, os grandes momentos ficam para o terceiro ato, quando Harry e Dumbledore adentram a uma caverna puro breu para encontrar uma das horcruxes de Voldemort, rendendo uma sequência tensa e digna do cinema de terror bem feito; mérito também de Delbonnel, do trabalho de som e o design das criaturas que atacam a dupla. A outra sequência é logo em seguida, quando testemunhamos o chocante assassinato de Alvo Dumbledore pelas mãos de Severo Snape (Alan Rickman, sempre excelente). É uma cena difícil e que Yates acerta ao mantê-la tensa e silenciosa, sem a presença de música ou muitos diálogos (a edição de som aqui é vital para passar a impressão de algo escondido, na calada da noite), e pelas nuvens negras que circundam o cenário.

É inevitável que em algum momento Harry, Rony e Hermione teriam seus hormônios à flor da pele, e o roteiro de Steve Kloves acerta ao torná-los elementos que servem à trama e não soem como uma distração tola. Ver o início da paixão entre Rony e Hermione é um arco divertido e que contrapõem-se à toda a escuridão, além de render ótimas performances de Rupert Grint e Emma Watson, cada vez mais à vontades em seus papéis. Até mesmo Daniel Radcliffe tem um ano mais leve, sem a pressão de ser chamado de mentiroso no longa anterior ou as ameaças à sua vida em Cálice de Fogo e Prisioneiro de Azkaban, chegando até mesmo no ponto em que brinca com seu status de “Eleito”, revelando um lado muito curioso do personagem.

O elenco de apoio continua eficiente como sempre, mas temos um destaque maior do Dumbledore de Michael Gambon e um lado surpreendentemente vulnerável de Tom Felton. Sempre orgulhoso e malicioso como Draco Malfoy, vemos o medo e insegurança do personagem pela primeira vez, à medida em que tenta realizar a missão imposta por Voldemort. A principal adição ao time fica na forma de Jim Broadent como o professor Horácio Slughorn, um antigo colega de Dumbledore que substitui Severo Snape no cargo de Mestre de Poções. Broadent traz uma estranheza e ironia divertidas para o personagem, principalmente quando vamos descobrindo sua conexão com Voldemort e as horcruxes.

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Talvez o único demérito do filme encontre-se justamente em seu elemento-título. Não só é completamente descartável para o andamento da trama, o Príncipe Mestiço e seu Enigma ganham um tratamento regular e um desfecho igualmente decepcionante, e confesso que essa falha já estava presente no livro de J.K. Rowling. Aliás, considerando a identidade do tal Príncipe, é decepcionante que tenhamos tão pouco de Alan Rickman no filme, ainda que eu compreenda que seu passado seria melhor explorado nos capítulos seguintes da saga. De qualquer forma, um grande exagero nomear a história por um elemento tão superficial à narrativa.

Harry Potter e o Enigma do Príncipe é um dos mais satisfatórios exemplares da saga, tanto em narrativa quanto em quesitos técnicos. Consegue a difícil tarefa de equilibrar seu clima cada vez mais sombrio com uma camada de ternura ao explorar os trancos e barrancos da adolescência dos protagonistas. É uma eficiente preparação de terreno para o grandioso final e um eficiente estudo de personagens com o melhor cuidado audiovisual possível.

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