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Em uma das últimas vezes que Florence Welch visitava Nova York a passeio, mal sabia ela que o passeio que lhe rendeu a triste e controversa tatuagem Always Lonely lhe renderia uma epifania criativa que serviria como inspiração para seu quarto álbum de estúdio, High as Hope. Partindo de um pequeno poema que escrevera à sua amiga, Polly, o título emprestado na verdade também pode ser encarado como uma dúbia mensagem tanto para a carreira da cantora quanto de sua crescente fan base. Afinal, o disco não funciona apenas como uma ode melancólica de esperança, mas também delineia os caminhos tortuosos do amadurecimento e da vida adulta, incluindo o enfrentamento de fantasmas passados – de modo muito mais profundo que podemos imaginar.

Não é nenhuma surpresa que o nome Florence + the Machine tenha se tornado conhecido no meio indie com força descomunal, conquistando um cenário já saturado com investidas complicadas e não tão bem aceitas. Felizmente, a banda, construída das formas mais não ortodoxas possíveis, consegue inovar e renovar seu estilo ao fazer do melhor uma mistura aplaudível de vários gêneros, passando pelo conhecido rock e mergulhando no folk e no soul com naturalidade e graça. Tanto é que, ao longo das poucas dez faixas, Welch entrega-se a diversos monólogos acerca de seus problemas passados, distúrbios psicológicos, reabilitações emocionais – temas que são explorados com um toque único e mágico, próprio da artista. Neste álbum, narrativas cruéis são transformadas em uma jornada transcendental, arquitetadas com melodias suaves e quase épicas, por assim dizer – buscando referências até de seus trabalhos anteriores.

June, música que abre este novo escopo, é uma história romântica que brinca com as construções tonais e modais de uma composição entre o rústico violão que logo dá lugar para um bem-vindo piano, à medida em que a superficialidade atmosférica se torna mais profunda, transformando-se no reencontro entre duas almas perdidas numa chuvosa Chicago. Acostume-se a ver tais cenários pintados em High as Hope: o bucolismo excessivo parece ser marca registrada de Florence, e também é trazida em outras investidas como South London Forever e, de modo mais sutil, Big God, que nos transporta diretamente para uma época remota movida pela fé e pela esperança. A presença de um quase invisível synthpop, com suas explosões eletrônicas contidas, consegue harmonizar quase completamente com a potente voz da cantora e seus falsetes on point – afinal, sua tecedura em mezzo­-soprano lírico não poderia ser desperdiçada.

O primeiro ápice do conjunto emerge em Hunger, que inclusive ganhou sua versão em videoclipe. Welch começa com sua cantoria falada, discorrendo sobre o amor ter a mesma sensação que um vazio compulsório – motivo dela ter começado a passar fome por pura e espontânea. Entretanto, esse simbolismo não deve ser encarado de modo muito burlesco, visto que se refere à dificuldade enfrentada pela cantora durante seus transtornos alimentares (principalmente anorexia) e como tudo aquilo afetou seu cotidiano. Sem sombra de dúvida, abrir-se em relação a um assunto tão complicado e ainda visto como tabu na sociedade em que vivemos é uma jogada muito corajosa – ainda mais construindo-se de modo paradoxalmente clássico e moderno. Até mesmo o pre-chorus repetitivo entra como um respaldo crescente para a estrofe principal, de forma proposital e representando um ciclo difícil de ser quebrado sem ajuda.

Talvez um dos pequenos problemas trazidos pelo álbum é o jeito que certas faixas se desenrolam. Toda a ambience nos coloca em uma progressão de emoções que precisaria encontrar um ápice tão digno quanto o que nos promete; entretanto, essa necessidade parece encontrar uma barreira que, mesmo intencional, deixa-nos querendo mais, sedentos por uma conclusão mais definitiva e catártica. Em Sky Full of Songs, mesmo com a beleza de sua letra e com Welch mostrando suas habilidades vocais em uma crueza visceral, o chorus mantém-se linear, com poucos indícios de que será mais explorado. Não tiro mérito da faixa em si, só deixo um descontentamento inocente de que esse potencial poderia ser levado muito mais adiante.

O que é engraçado, pois Grace, que também mergulha numa delineação similar, mantém-se unidimensional até explodir sem aviso prévio quando as estrofes principais chegam. Em outras palavras, posso dizer que uma investida sem intenções de se tornar-se grandiosa funcionou melhor que uma escolha comercial – e Florence trabalha muito bem com seu vibrato em diversos pontos, rendendo-se a uma narrativa de crença que beira o trágico, mas que logo se volta para um significado interessante da vertente coming-of-age.

A campesina suavidade do folk desaparece conforme chegamos em duas faixas específicas do CD. Em Patricia e 100 Years, as investidas da cantora voltam na exploração de seus falsetes, amalgamados a notas que mostram suas referências instantaneamente conhecidas das décadas de 1970 e 1980 – conseguimos até mesmo ouvir certos momentos que emulam a vertente mais visceral de Bonnie Tyler e Cindy Lauper, sempre repaginadas com a presença indecifrável da lead singer. Tais músicas trazem um respaldo do rock suave misturado a um indie pop que traça um caminho soberbo e irreverente, renegando as construções clássicas do escopo musical atual – odes a um amadurecimento como nenhum outro.

E justo quando nós pensávamos entender o que Florence Welch pretendia ao nos entregar à sua nova obra, ela retorna em um baque melodramático com suas duas últimas tracks. Em The End of Love, voltamos a mergulhar nas viagens sinestésicas da cantora, acompanhando-a para a tristeza de um dia de verão de Nova York – no que podemos encarar como uma de suas melhores baladas em muito tempo, seja pela entrega vocal, seja pela letra minuciosamente escrita. E, em mais um de seus ápices, o hino da compreensão da vida adulta insurgem em No Choir, uma apatia proposital quebras as ilusões que temos quando mais jovens e que preza pela máxima do carpe diem.

High as Hope tem seus problemas estruturais, mas sem sombra de dúvida é um marco muito bem-vindo na discografia da banda. E o mais incrível talvez seja a incessante busca pelo novo e pelo original, contrariando a permanência compulsória de grupos do mesmo gênero em uma zona de conforto que já se mostrou limitada e desgastada.

Nota por faixa:

  • June – 4/5
  • Hunger – 4,5/5
  • South London Forever – 4/5
  • Big God – 4/5
  • Sky Full of Song – 3,5/5
  • Grace – 4/5
  • Patricia – 4,5/5
  • 100 Years – 5/5
  • The End of Love – 4,5/5
  • No Choir – 4/5

High as Hope (Idem, EUA – 2018)

Gravadora: Virgin EMI, Republic
Lead: Florence and the Machine
Composição: Florence Welch, Emile Haynie, Thomas Bartlett, Tobias Jesso Jr., Jamie Smith, Simon Benson, Peter Cox, Sampha Sisay, Andrew Wyatt 
Gênero: Indie Rock, Folk, Soul
Faixas: 10
Duração: 40 min.

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