Com Estrada PerdidaDavid Lynch fez uma revolução na sua linguagem. Nenhum filme do diretor – com a exceção, talvez, de Twin Peaks – Os Últimos Dias de Laura Palmer – podia preparar o espectador para os experimentos narrativos que seriam realizados no longa de 1997. Isso fez com que a antecipação sobre o seu próximo lançamento aumentasse. A impressão era de que o filme seguinte seria ainda mais radical. No entanto, a surpresa foi grande quando o diretor apareceu com História Realum road movie tradicional e repleto de mensagens positivas acerca da vida. De fato, não há como antecipar qualquer passo do cineasta.

Escrito por John Roach Mary Sweeney, o roteiro de História Real é, como o próprio título brasileiro diz, baseado numa história verídica. Nesta, Alvin Straight (Richard Farnsworth), um homem de terceira idade, mora no interior dos Estados Unidos com a sua filha Rose (Sissy Spacek). Depois de receber a notícia de que o seu irmão Lyle (Harry Dean Stanton) sofreu um derrame, ele decide visitá-lo, mas, para isso, terá de fazer uma longa viagem. No entanto, esse é o menor dos problemas. Não possuindo nenhum meio de transporte convencional, ele opta por realizar todo o percurso com um aparador de gramas.

Sim, dá para dizer que História Real é o filme mais convencional de David Lynch, mas somente no que diz respeito à linguagem. Como é possível perceber pelo parágrafo anterior, a história é uma das mais excêntricas. Aliás, às vezes, a estranheza faz parecer que ela não aconteceu realmente. Porém, essa é apenas uma impressão. Os eventos ocorreram e são justamente eles que compõem o escopo narrativo deste belíssimo longa do diretor. E uma vez aceita a bizarrice de percorrer uma parte do país num aparador de gramas, a história de Alvin Straight se mostra acessível a todos, pois é humana e profundamente comovente.

Assistindo à obra, talvez, o espectador se pergunte como é possível um diretor acostumado a contar histórias oníricas e fantasiosas se dar tão bem dirigindo um filme “normal”. Não é preciso ir muito longe para encontrar a resposta. Embora História Real tenha uma estrutura linear, personagens “comuns” e possa ser considerado como um estranho no ninho na sua filmografia, é um equívoco achar que não há nenhum elo de ligação entre ele e os outros filmes. Lynch sempre esteve interessado em abordar os elementos culturais dos Estados Unidos, e não há nada mais norte americano do que o interior do país.

Contudo, diferentemente dos seus outros longas, História Real não se apropria desses elementos culturais para subvertê-los. Pelo contrário, ele os abraça. Se as tomadas de helicóptero, as gruas, os tilts e os grandes planos gerais são empregados para captar toda a beleza natural das bucólicas paisagens interioranas, é o retrato gentil das pessoas que moram em estados como os de Iowa, Nebraska e Wyoming, e a defesa de valores como o da família, que indicam a forma bondosa com que Lynch enxerga essa parte do território norte americano. Com essa abordagem, era natural que o diretor optasse por uma linguagem cinematográfica mais tradicional. Uma ode às coisas simples da vida necessita de um formato artístico simples.

Mas se engana quem acha que não há nenhum tipo de subversão em História RealRoad movies costumam usar a viagem física para simbolizar a viagem de auto conhecimento que acontece dentro dos personagens. Durante o trajeto, surgem novas pessoas e, cada uma delas, tem algo a ensinar. No filme de Lynch, apesar de Alvin usar o percurso para repensar alguns erros do seu passado, não é ele que aprende com outros e sim estes que aprendem com ele. O protagonista é uma espécie de anjo passando pela vida das pessoas e mostrando a elas o que verdadeiramente tem valor. Assim, pode até se dizer que o filme é um anti-road movie.

Com uma trilha soberba de Angelo Badalamenti (é o melhor trabalho da carreira do compositor) e uma atuação inesquecível de Richard Farnsworth, História Real é um diamante raro na filmografia do diretor. Poucos cineastas conseguem tocar fundo no coração do espectador como Lynch. E se isso acontece até mesmo nos seus filmes mais “inacessíveis”, não dá para começar a medir o que ele consegue fazer com uma história intrinsecamente bonita como a de Alvin Straight.

História Real (The Straight Story, EUA – 1999)

Direção: David Lynch
Roteiro: John Roach e Mary Sweeney
Elenco: Richard Farnsworth, Sissy Spacek, Harry Dean Stanton, Everett McGill, Jane Galloway Heitz, Joseph A. Carpenter
Gênero: Drama
Duração: 112 minutos

 

 

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