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Após o sucesso comercial de Homem-Aranha com aclamação universal de público e crítica, a Sony rapidamente encaminhou a produção de uma sequência, trazendo quase toda a equipe de volta. Sam Raimi estava prestes a realizar sua obra-prima.

Livre de uma história de origem, Raimi e o recém chegado Alvin Sargent estavam livres para contar uma trama original explorando completamente Peter e o novo vilão, assim como continuar a jornada de seus coadjuvantes. O importante aqui não era que vilão o herói iria enfrentar na sequência, não era quantas cenas a mais com efeitos especiais poderiam ser mostradas, ou quanto humor a mais seria necessário para tornar o filme mais palatável. A prioridade era que história deveria ser contada.

Nada melhor do que adaptar Homem-Aranha Nunca Mais para desconstruir o herói para reforçá-lo novamente – um baita risco, diga-se de passagem, por ser apenas o segundo longa da franquia, algo que apenas Superman II havia feito. Por falar no filme de Christopher Reeve, é inegável as semelhanças entre ambos. Não só nele, mas com o primeiro filme do Aranha também, com muitos podendo afirmar que quase se trata de um remake. Analisemos.

Assim como em Superman, Peter perde os poderes, abandona o uniforme para se dedicar a sua amada e, ao final, tem de recuperá-los para enfrentar um ser tão poderoso quanto ele, se redescobrindo no processo e salvá-la. Quanto ao primeiro filme do Teioso, o que alguns podem apontar como demérito, eu chamo de reviver momentos passados com um novo e poderoso significado. Raimi já mostrava no segundo Evil Dead que gostava de reciclar alguns momentos do filme anterior para torná-los mais ricos tematicamente.

No filme de 2002, há um cientista que trabalha para a Oscorp, resolve,testar seu experimento em si mesmo, enlouquece, segue o caminho do crime, atinge Tia May, sequestra Mary Jane no final e se mata. Entretanto, perceba como da segunda vez, Raimi imprime um impacto muito maior – algo extremamente difícil por ser uma repetição, consertando, principalmente, todas as falhas relacionadas ao antagonista do primeiro filme.

Doutor Octopus trabalha na Oscorp porque o contexto de sua relação com Harry abrange outras linhas narrativas. O fato de enlouquecer e debandar para o crime após a falha no experimento é muito mais justificado, visto que Ock perde sua mulher e tem o objetivo de sua vida destruído, fora que sofre influência mental dos agressivos braços mecânicos. Quando pega Tia May após um assalto a banco – depois de uma absurda coincidência pelo herói estar lá dentro no mesmo instante e, convenientemente, conseguir esconder os braços mecânicos de alguma forma para entrar – a senhora vivida com serenidade por Rosemary Harris ajuda o herói e muda seu pensamento quanto a ele, abrindo espaço para a interpretação de que ela descobriu que se trata de seu sobrinho.

O sequestro de Mary Jane incentiva Peter a voltar como herói e termina com a revelação de sua identidade. E o ato de suicídio de Octopus encerra seu arco com densidade e coerência, fazendo um paralelo com a jornada de Peter com o antagonista se redescobrindo por causa dele e se sacrificando por escolher permanecer fiel a seus valores frente aos seus sonhos.

Viram? Há repetição? Sim, mas reitero, o impacto é maior.

Falando em Octopus, pessoalmente, trata-se da melhor adaptação de um vilão dos quadrinhos para as telas. Em termos interpretativos, reconheço que Heath Ledger pode levar vantagem, entretanto Alfred Molina e Raimi, não só souberam aliar o lado realista do vilão com o quadrinhesco mas melhoraram o vilão dos quadrinhos em todos os sentidos, o dando um arco e jornadas completas, com estabelecimento, vislumbres de seu passado em diálogos que também são exatos para delimitar sua personalidade, virada e redenção. Molina torna tudo mais poderoso com sua interpretação pesada que nunca falha em transmitir as tragédias do vilão e um eficiente lado irônico, sendo divertido e ameaçador ao mesmo tempo.

Os efeitos que dão vida aos braços mecânicos tornam tudo mais convincente, com eles sendo tão ameaçadores quanto o próprio vilão, realmente nos passando personalidade. Aliás, todo o trabalho de computação é primoroso, sendo uma das maiores evoluções que já vi entre um longa e sua sequência nesta área técnica. Os saltos do Aranha e as batalhas também não envelheceram nada mal em uma revista.

O que me faz lembrar…

Ah, Sam Raimi…

Que trabalho de direção, amigos!

Primeiramente consertando todas as falhas e quebras de tom do primeiro filme, Raimi demonstra que também possui um timing cômico e dramático perfeitos, sem falar que conduz cenas de ação excepcionais que entram em todas as listas de melhores do gênero.

Criando as melhores participações de J.K. Simmons da franquia, todas as cenas em que o ator aparece são engraçadíssimas, mais uma vez firmando Simmons como a encarnação perfeita de JJ. Mas não é só dele que o humor se sustenta. Se utilizando bastante do humor situacional, Raimi elabora sequências de Peter tendo dificuldades em se sustentar sua vida como um ser-humano normal, desde chegar na hora para uma entrega de pizza pelo armário – excepcionalmente longa e precisa – ou consertar uma bicicleta até tendo que pegar um elevador fantasiado.

No manejamento do tom, perceba como uma cena aterrorizante como a que Doutor Octopus assassina a equipe médica de um hospital – violenta e com variedade de posicionamento de câmera, que aparenta ser vinda diretamente de um filme de terror, até com clichês do gênero como uma mulher se arrastando no chão e prejudicando suas unhas – ou a morte de Rose com um caco se aproximando e revelando seu reflexo – se encaixam no restante do filme, transitando de forma imperceptível e natural.

No drama, Raimi preza pelos enquadramentos incômodos ou simbólicos. A conversa de Peter com Tia May, com o protagonista comentando sobre a morte do Tio Ben é deliciosamente fria e com planos exatos, valorizando a atuação dos dois atores e se afastando de ambos ao final da conversa. E quando Mary Jane pede para o filho de JJ Jameson apoiar a cabeça no sofá para beijá-lo de cima enquanto exibe sua reação de incerteza e tristeza depois do ato, cabisbaixa, em um contraste claro com o primeiro filme do Aranha onde o herói beija sua amada de cabeça para baixo e Mary Jane reage com alegria olhando para cima? Genial.

A ação é extremamente bem coreografada e encenada. Sempre prezando pela variedade da linguagem, registrando tudo com clareza e aproveitado cortes mais longos para exibir saltos, travessias, as capacidades físicas de ambos oponentes. A emblemática sequência do trem é o ápice do filme e, arrisco dizer, de uma geração de filmes de heróis. Sintetizando tudo o que o Homem-Aranha representa para o leitor, Raimi faz Tobey rasgar seu uniforme ao se sacrificar para fazer o possível e impossível ao tentar parar o trem sem freio cheio de passageiros. É difícil conter as lágrimas nerds quando, ao desmaiar, os nova-iorquinos puxam o herói sem máscara para dentro do veículo e o reconhecem como apenas um simples menino, um humano normal e depois se colocam na frente dele entre ele e Octopus. Esse é o Homem-Aranha, meus caros. E nem precisou apresentar as características piadas dos quadrinhos ao longo de todo o filme para se provar como a versão insuperável e definitiva do Teioso.

Seja nessa cena ou em todo o texto da crise de identidade de Peter preferindo desistir de seu uniforme – recriano um quadro icônico dos quadrinhos – para focar em sua vida pessoal, nos estudos, trabalho e relacionamento. Peter prova que, mesmo sem poderes – estão vendo como a sacada das teias orgânicas recompensou? – continua um herói ao se sentir mal vendo um assalto e não podendo impedir ou quando salva uma criança de um incêndio, encerrando sua dúvida em slow motion abandonando seus óculos e partindo para a ação.

Quanto aos atores, todos amadureceram profissionalmente. Tobey Maguire tem a melhor interpretação de sua carreira, encarnando o Aranha dos quadrinhos e o de Raimi dramaticamente, comicamente e ingenuamente. Kirsten Dunst, com mais peso na história, igualmente apresentando uma jornada de autodescoberta amorosa, mostra mais variedade em seu trabalho e James Franco nos convence cada vez mais como futuro vilão.

Danny Elfman também não deixa a peteca cair e, ao passo que repete temas icônicos criados para o longa anterior, cria novas e bem compostas faixas, principalmente o tema de Octopus, memorável e que termina em nota depressiva. Elfman também acertas nas trilhas licenciadas com o grande destaque sendo a icônica sequência com Raindrops Keep Falling on my Head onde Peter se ajusta à tarefas mundanas.

Homem-Aranha 2 é uma virada do gênero. Um filme que acerta em tudo em que se propõe. Não somente o melhor com a marca Marvel embutida na produção mas um dos melhores de super-heróis no geral, se não o melhor. Um longa que sabe explorar o manto e o homem em unidades e qualidades iguais de forma elevada. Sam Raimi fez história, criando uma das melhores de todo o cânone do teioso, com primor de texto e direção e trabalho de elenco exemplar em que todos os jogadores principais apresentam uma densa jornada.

Duas vezes mais efeitos, duas vezes mais ação, duas vezes mais humor, sim, mas também, duas vezes mais profundidade, linguagem duas vezes mais rica e duas vezes mais autoria. A sequência perfeita, afinal. Um estudo do Homem-Aranha e do ser-humano.

Ao final, pela expressão de Mary Jane, ficamos com a certeza de que o que futuro nos reserva não será algo tão bom ou otimista para o herói, indicando possíveis tragédias. E, de fato, ela estava certa figurativamente e literalmente. Mas encare como um modo de absorver o que acabamos de ver como algo inacreditavelmente bom e memorável. O Espetacular e verdadeiro Homem-Aranha.

Homem-Aranha 2 (Spider-Man 2, EUA – 2004)

 

Direção: Sam Raimi
Roteiro: Alvin Sargeant
Elenco: Tobey Maguire, Kirsten Dunst, James Franco, Alfred Molina, Donna Murphy, Rosemary Harris, J.K. Simmons, Dylan Baker, Elizabeth Banks, Cliff Roberston, Bruce Campbell
Gênero: Aventura, Drama
Duração: 127 min

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