O Homem-Aranha teve uma estrada complicada rumo a presente adaptação. Passando por uma terrível série japonesa, uma série animada nos anos 90, um projeto cancelado de James Cameron e caindo nos braços de Sam Raimi, o filme do herói enfrentava um dilema de como deveria se dar sua representação.

Em uma época em que adaptações espalhafatosas e cartunescas como Batman & Robin fracassaram e as que experimentaram uma pegada mais pé no chão e realista como X-Men foram sucesso absoluto, a Sony sabia que, ao menos, um aspecto da mitologia do herói deveria permanecer intocado: seu uniforme. Mas que tipo de tom seria cabível para a ligação e que diretor saberia manejá-lo com cuidado?

A resposta veio pelas mãos de Sam Raimi, diretor de diversos curtas e longas como A Morte do Demônio e Darkman que, gozando de liberdade criativa, soube deixar sua marca e entender por completo o personagem.

Talvez a principal característica que torne o Homem-Aranha um dos heróis mais adorados da Marvel seja o fator humano relacionável. Peter Parker é um adolescente comum do Queens que tem de lidar com problemas como a baixa condição financeira, desencontros amorosos, conciliação entre emprego, escola e família, etc, ao passo que encara as responsabilidades de ser um super humano e proteger os cidadãos nova-iorquinos. Entretanto, há uma peça fundamental de sua personalidade que dá todo um charme ao personagem difícil de ser transposta corretamente para as telas: o fato de Peter se comportar de modo mais reservado e inseguro nas relações interpessoais e se libertar e mudar sua atitude quando veste a máscara do aracnídeo.

Para nos passar de forma competente a troca seria necessário um ator que, se não excelente, ao menos soubesse manobrar essas interpolações. Tobey Maguire atendeu todos os requisitos. Transmitindo toda a timidez e imaturidade presentes no cerne do herói antes da assumida da identidade com precisão e convencendo ao longo da fita a respeito de seu amadurecimento e confiança após as tragédias que o definem, Maguire foi a escolha perfeita. Mas de nada adiantaria o particular talento de Tobey para esse tipo de proposta sem uma mão firme na direção que saiba criar momentos propícios para tal e um roteiro que demonstre com clareza a evolução do personagem.

Felizmente, Raimi estava interessadíssimo na obra e sua paixão transborda na tela. São inúmeros os momentos que o diretor planeja os enquadramentos e composições com cuidado para que se agarre ao contexto da cena para torná-la memorável. Exemplos não faltam. A picada da aranha, Peter descobrindo seus poderes, o primeiro beijo com Mary Jane, a montagem de criação do uniforme, os momentos finais com o vilão… E o que dizer do herói se balançando pelos prédios de Manhattan?

Vou dar um exemplo de uma cena, ao final, que merece uma análise solo para identificarmos a marca de Raimi.

Note como a batalha final do herói contra o Duende, além de adaptar um momento famoso dos quadrinhos que envolve a morte de Gwen Stacy, é modificada em prol da narrativa e termina em um duelo físico agressivo onde são identificáveis severos danos físicos (algo praticamente ausente hoje no cinema de heróis) com diversificado jogo de câmeras em slow motion, close ups, planos fechados, médios e mais abertos, com cortes duradouros e que se encerra com a magistral cena de morte do antagonista (também adaptada dos quadrinhos) onde Raimi atinge o auge da técnica experimental e contextual quando estabelece as posições de Norman, Peter e o planador no cenário e os intercala gradativamente, até a vinda do planador seguido de um pulo do herói, um foco na reação de Norman e uma desaceleração de toda a ação – note como a distância entre Peter e Norman é bem menor do que indica o tempo de chegada do planador – para criar algo verdadeiramente impactante e chocante.

Ou seja, Raimi pegou um famoso e importante momento dos quadrinhos e, ao invés de simplesmente jogar na tela para que os fãs o identificasse e pesasse a nostalgia pela referência, transformou em algo próprio, com sua marca.

Sabiamente aproveitando as cores vibrantes e tons de vermelho e laranja da cinematografia de Don Burgess e enchendo o elenco com um figurino igualmente colorido, a estética da obra, além de possuir enorme personalidade, é linda e inventiva, se aproximando diretamente da estética das páginas de um gibi. Essa fidelidade pode ser encontrada também no experimento entre tons. Perceba como o longa navega do leve, humorado para o grave e dramático com constância, nem sempre acertando, com muitas das cenas exagerando caindo para a caricatura e não fechando com o estabelecimento do drama de outrora.

Esses problemas estão concentrados mais quando discutimos a respeito do vilão de Willem Dafoe, o Duende Verde. Já não bastasse a suspensão de descrença exigida pelo fato de surgir um super vilão em Nova York quase que no mesmo tempo de um super-herói, o longa ainda quer que aceitemos que Norman Osborn, um cientista e empresário arrogante, aceita como nova perspectiva de vida a dominação da cidade por vias criminosas (?) se aliando ao Aranha com um traje verde destoante da lógica interna, com direito a máscara malvada. Afinal, qual era o plano de Norman pós transformação? Ele simplesmente ficou louco e temos que aceitar? Que reducionismo para com o vilão da parte do roteiro…

Felizmente Willem Dafoe salva o antagonista completamente, evitando descambar para o desastroso. O ator exibe expressões maléficas e insanas com facilidade e seu trabalho de voz é decisivo para que sintamos a ameaça e presença, mesmo sendo cartunesco.

O restante do elenco é outro deleite. Kirsten Dunst, por mais que muitos a critiquem como uma das piores coisas da trilogia de Raimi, tem personalidade e uma química absurda com Tobey, interpretando outra personagem cheia de problemas identificáveis, sendo assim, multifacetada. Uma pena que o roteiro insista em “travá-la” como a mocinha a ser salva. Rosemary Harris e Cliff Robertson são insubstituíveis em seus papéis. Harris é a Tia May. Cliff é o Tio Ben. Ponto. Assim como J.K. Simmons que parece ter saído diretamente das páginas para as telas, adicionando o melhor alívio cômico do filme. James Franco é o que menos se destaca, mas demonstra potencial de construção futura bem consistente.

A trilha sonora de Danny Elfman cria um tema magistral que sim, faz jus aos icônicos temas de John Williams para Superman e do próprio Elfman para Batman. Uma sonoridade agitada que pulsa conforme a música progride, casando perfeitamente com a jornada do protagonista, onde presenciamos tons mais esperançosos e enaltecedora ou graves (para as tragédias) se intercalando.

O defeito que talvez mais incomode seja a necessidade do roteiro de repetir situações (Mary Jane é posta em perigo e salva pelo herói nada menos do que três vezes) e inserir o Duende de forma um tanto quanto apressada para adicionar rapidamente um desafio à altura do herói (justamente quando estava tão bom toda a sequência de aprendizado e experimento), com alguns exageros de caracterização já comentados acima.

Gosto de dizer que Homem-Aranha trata-se de um experimento. As cenas de ação ainda ofereciam espaço para melhora, até por conta de questões orçamentárias e o tom é a maior prova dessa alegação ao oscilar entre o cartunesco, dramático e grave (assim como ocorreu em A Morte do Demônio), apresentando características de filmes B. Um experimento que deu muito certo. Com elenco irretocável, uma trilha inspiradíssima e a pesada mão autoral de Raimi, o material é elevado a um dos melhores filmes de origem de heróis de todos os tempos.

Sim, fizeram jus ao uniforme, afinal. Tanto em design quanto em todo o resto que o envolvia contextualmente. 

Homem-Aranha (Spider-Man, EUA – 2002)

Direção: Sam Raimi
Roteiro: David Koepp
Elenco: Tobey Maguire, Kirsten Dunst, James Franco, Willem Dafoe, Rosemary Harris, Cliff Roberston, J.K. Simmons, Joe Manganiello
Gênero: Aventura, Ação
Duração: 121 min

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