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Eu não sei nem por onde começar.

Depois de entregar dois dos melhores exemplares de filmes com super-heróis em 2002 e 2004, Sam Raimi tinha tudo para fechar alguns arcos com chave de ouro com esse final de trilogia. Entretanto, os fãs do Teioso não contavam com dois fatores que poderiam resultar no colapso da produção: a interferência da Sony com as exigências criativas do executivo Avi Arad e a perda de foco do diretor por conta do primeiro fator.

Toda obra de arte precisa delimitar um tema. Toda manifestação artística humana existe por causa de uma motivação de seu autor. Não importa se clássica, modernista, surrealista, abstrata ou de contracultura, toda obra passa uma mensagem, caso contrário, o próprio conceito de definição de arte é afrontado. Em Homem-Aranha 3, os temas que rondam os personagens são as consequências da vingança e o valor do perdão, excelentes e pertinentes para um filme do herói. É realmente uma pena que a mensagem não seja transmitida de forma adequada e o tema se perca em meio a um dos piores exemplos de roteiro e adaptação que tive o desprazer de presenciar em uma sala de cinema.

A trama se inicia algum tempo depois de Homem-Aranha 2, com Peter tendo achado o equilíbrio entre sua vida como herói e sua vida como Peter Parker, inclusive, com planos para se casar com Mary Jane. Mas claro, problemas surgem para atazanar o herói não na forma de 3 vilões ou crises de relacionamento, mas na das piores contravenções, conveniências, deturpações e furos de roteiro imagináveis.

A começar por Harry Osborn, um personagem tão bem construído ao longo dos dois primeiros filmes e que é utilizado do pior jeito possível. Inicialmente planejado para estar em conflito sobre seguir ou não os passos de seu pai, aqui Harry surge logo de cara como vilão – de algum modo, tendo aprendido a mexer na armadura e planador, aprimorando-os, algo que exigiria alto conhecimento em mecânica e não ficando louco depois de tomar o soro – e, após uma bem filmada cena de luta que peca pelo uso de CG em alguns momentos, é jogado para escanteio pelo roteiro, apresentando amnésia para podermos focar em outros jogadores da história, até que volte a ser conveniente o termos de volta. Engraçado mesmo foi Peter, após a apresentação musical de Mary Jane, resolve falar com Harry a respeito de seu pai, como se tivesse passado um tempo ínfimo de intervalo entre o segundo e terceiro filmes e não houvesse existido a oportunidade antes. Ao final, seu sacrifício até poderia ter funcionado fechando bem o arco do personagem, redimindo não somente Harry mas Norman pelo fato de ambos terem morrido pelo planador, um tentando salvar Peter e o outro, matar. Entretanto, não houve a devida construção para isso. E as bombas do Duende voltaram e oscilam em efeito mais do que nunca. Uma hora explodindo frente a Harry e desfigurando sua face e em outra evaporando totalmente o simbionte e Eddie Brock juntos.

Mary Jane é outra que sofre com o roteiro, chegando a ser irritante a níveis de Jar Jar Binks. Reclamando a fita inteira em uma melodramática e fora do ponto interpretação de Kirsten Dunst, a personagem, assim como Harry, também age de forma não condizente com os filmes anteriores. Por exemplo, após receber críticas por seu desempenho musical – o que é uma tremenda bobagem e forçação de barra porque a atriz realmente mostrou ter talento em sua melhor cena no filme – ela vai até a Peter e, enquanto o mesmo tenta consolá-la fazendo um paralelo com as críticas que o Homem-Aranha recebe, a ruiva o corta dizendo que não é sobre ele e que ele devia tentar entender como ela se sentia, o que, diga-se, foi exatamente o que ele fez. Diálogo ilógico da pior qualidade. O que dizer então da decisão de terminar com Peter depois da ameaça de Harry, sendo que bastava um aviso para o Teioso de que seu amigo havia voltado para o lado mal e estava logo ali atrás, afinal, ela sabia quem era o Homem-Aranha e tinha ciência de que ele já enfrentara inimigos piores. E a cena da dança na cozinha? Não vale uma análise… vou me poupar. Seria filler no texto, assim como foi no filme. Ah, e ela é sequestrada pela terceira vez em um terceiro ato da franquia. Inacreditável.

E os outros vilões? Bem…

O plano de Raimi seria utilizar, além de um conflituoso Harry, o Homem-Areia por ser um de seus vilões favoritos de infância e oferecer possibilidades visuais belíssimas ou o Abutre, com Ben Kingsley tendo sido procurado. Mas Avi Arad insistiu para que o diretor pusesse no filme o simbionte que daria origem ao popular vilão Venom, visto que o Abutre não bastava para vender bonequinhos e não era tão conhecido quanto. Raimi não gostou nada por achar Venom um vilão pouco humano, mas teve de ceder. Ambos apresentam problemas graves de construção e concepção.

Homem-Areia é concebido a partir de um retcom bizarro em que fora responsável pela morte do Tio Ben, uma ideia estupidamente falha que veio do próprio Raimi. O problema disso? Além dos policiais terem ocultado esse fato de Peter por 3 filmes e só contado quando Flint Marko foge da prisão, o fato causa uma ruptura no alicerce do herói. Se Peter vira o Homem-Aranha porque entende que com grandes poderes vem grandes responsabilidades e poderia ter usado essa filosofia para parar o ladrão e impedir o assassinato de seu tio, então, com o ladrão sendo inocente da morte, Peter não foi responsável pelo acontecimento e ainda carrega o fardo de ter tirado a vida do ladrão sem motivos pessoais. Ou seja, ele não teve um motivo poderoso para virar o Homem-Aranha. Uma abissal e equivocada mexida no cânone do personagem.

Fora isso, o vilão apresenta diversos outros problemas. A única coisa que mantém o personagem minimamente interessante por todo o filme é o fato de ser motivado a cometer roubos por sua filha doente – não sabemos de quê – porém nunca obtivemos payback disso. Sua filha aparece uma vez e o antagonista olha seu cordão com sua foto a todo momento mas, ao final, esse arco não se conclui e, depois de obter o perdão de Peter pelo assassinato do Tio Ben, desaparece. Não há jornada. Simples assim. Então ele vai continuar a roubar bancos? Vai se entregar? E sua filha, o que aconteceu? Jamais saberemos. Em uma tentativa falha de introduzir profundidade ao vilão, o texto nada mais oferece se não emoção e empatia baratas. A situação só piora quando pensamos que Flint, após quase ser desmaterializado por Peter em água, se une a Venom para matá-lo em vez de permanecer no anonimato e “morto” para, enfim, roubar o dinheiro necessário para sua filha. Céus, até o videogame que acompanhou o lançamento do filme apresentou maior lógica, visto que Venom obrigou Marko a se aliar a ele após raptar sua filha.

Thomas Haden Church faz o que pode e a cena do nascimento do vilão é a mais bonita e delicada do filme, porém até ela carece de lógica. Flint foge dos policiais para uma área de testes científicos (sem seguranças, claro), pula uma cerca e cai dentro de um espaçamento com uma máquina e areia. Não somente os policiais optaram, por alguma razão, não pularem a cerca para segui-lo e darem a volta mas os cientistas que relataram uma modificação na massa concluíram que deveria ser um pássaro (!). E que tipo de teste seria esse, afinal? Tudo o que aconteceu foi que rodaram areia… e por que motivo o cordão de Flint não se desmaterializou também? Vai saber.

A situação só piora quando falamos de Venom. Acontece que Eddie Brock é um personagem riquíssimo nos quadrinhos, com uma das backstories mais trágicas e densas de todos os tempos para um vilão, onde o antagonista, ao receber a informação falsa de um farsante de um assassino, perde credibilidade no ramo jornalístico e começa a trabalhar em tablóides, sendo renegado por sua família e amigos, entrando em depressão e optando por melhorar seu físico, mais tarde descobrindo que possui câncer, pensando em suicídio e, aí sim, recebendo o simbionte. Aqui, em um caso tenebroso de miscasting, temos Topher Grace como um farsante desonesto desde o início, falsificando fotos, perdendo o emprego com razão, vendo Peter sair com a garota que ele pensava em pedir em casamento após um encontro para tomar café (!), indo à igreja para pedir a Deus que mate Peter (!!!), recebendo o simbionte por estar, convenientemente, no mesmo local que o Aranha e proferindo frases como “Gosto de ser mau… isso me faz feliz”. Que reducionismo absurdo! Cadê o vício de Brock sendo explorado? Cadê a complexidade? Meu Deus… juro que estou tentando não arrebentar as teclas do teclado enquanto escrevo.

E o modo como o simbionte é lidado? Estava na cara que nem Raimi, nem a Sony faziam ideia do que fazer e de como o material alienígena funcionava. No cerne, o simbionte é um ser buscando um hospedeiro apenas para tentar sobreviver, ou seja, faz seu hospedeiro agir por instinto, por proteção, apenas tornado-o mais agressivo e não um completo retardado malvado. Por isso Cletus Cassidy, o Carnificina, se transforma em uma máquina de matar impiedosa, visto que o simbionte ampliou tudo o que já era de sua natureza humana. Além de proporcionar maior força e agilidade para quem é atingido, justificando o vício. No longa, Peter faz questão de mudar seu visual para um penteado emo, com direito a parada no espelho, vira dançarino – em algumas das cenas mais vergonhosas do gênero, primeiro na rua, durante várias cantadas com diferentes mulheres e outra em um clube de jazz – e fica respondão e folgado. E é isso. Já pararam para pensar que ele não faz nada de errado enquanto usa o simbionte? Quero dizer, ele molha o Homem-Areia, faz um farsante perder o emprego, sai com Gwen após Mary Jane dizer que terminou com ele, joga uma granada em Harry em um movimento de autodefesa… onde estão as coisas terríveis que ele diz ter feito? Afinal, a agressão a Mary Jane nem sequer fora proposital. Novamente, cadê o vicio sendo abordado? Cadê a complexidade? Não há. A atuação afetada de Maguire – em seu pior trabalho na trilogia – também não ajuda.

Peter agiu de forma pior ao beijar Gwen Stacy na frente de Mary Jane – em uma decisão totalmente out of character – e nem sequer estava com o simbionte. A retirada da substância do corpo também é inconstante. Em um momento, Peter simplesmente o remove no formato do uniforme e em outro, fica quase impossível retirar, tendo êxito apenas com o barulho de um sino. Doutor Connors reagindo à descoberta da forma de vida alienígena como se fosse algo banal é outro momento de causar risadas na platéia. Pior ainda, é como a substância é introduzida na trama, através de uma coincidência de um meteorito cair justamente ao lado de Peter. Risível. A série animada dos anos 90 veio com uma solução bem mais criativa para isso, envolvendo a queda de um foguete vindo da lua com o simbionte e JJ Jr. (que havia aparecido no segundo filme e não é citado aqui).

O restante dos coadjuvantes também sofre com o tratamento inócuo do roteiro, exceto por Rosemary Harris sempre eficiente como Tia May e J.K. Simmons, engraçadíssimo – a cena dos remédios e da negociação com uma criança são impagáveis – embora há mais uma repetição de humor do que renovação. Já a família Stacy…

Gwen Stacy, a melhor personagem feminina de toda a mitologia do Aranha, reduzida a uma jovem sem qualquer arco que admira Peter pela ajuda nas aulas de ciência e trabalha como modelo (!!). E claro, além de beijar o Homem-Aranha, tem de estar no exato restaurante no mesmo momento que Peter convida Mary Jane para jantar para fazer o pedido de casamento. A cena de ação que se segue após seu ensaio como modelo é de se revirar os olhos pela total falta de lógica em que é conduzida. O fotógrafo percebe o guindaste nas fotos antes mesmo do objeto aparecer atrás da janela e todas as modelos esperam o prédio ser atingindo para tomarem alguma atitude. Não bastasse os movimentos do guindaste estarem completamente errados e a geografia ser péssima e incongruente, Gwen ainda é avistada pendurada à beira da morte por seu pai no chão que, ao invés de reagir com preocupação, pergunta para Eddie o que ela estava fazendo no local, ouvindo a resposta “Estou namorando sua filha”. É surreal. Bom, depois, quando o Homem-Aranha chega e salva Gwen, parece se esquecer do guindaste e das outras pessoas em perigo atingidas pelo acidente. Uma cena de ação que só acontece porque é possível pagá-la. E qual o motivo dos Stacy estarem no filme mesmo?

Talvez para ajudarem em um dos casos de narrativa mais repetitiva, viciada, preguiçosa e bagunçada já arquitetada, onde personagens são apresentados, ficam um tempo fora de cena e voltam quando o roteiro fica sem ideias, alternando entre Peter, Mary Jane, Harry, Homem-Areia, Eddie Brock, Gwen Stacy, não necessariamente nessa ordem, em um vai e vem inacreditável. Harry muda de lado nada menos do que 3 vezes no mesmo filme. É tão amador e desorganizado que faz filmes como Esquadrão Suicida parecerem terem estruturas fortes de narrativa.

Mas então onde estão os pontos positivos do filme? Bom, como disse antes, alguns atores se salvam e o humor ainda é criativo. Raimi também é excelente em conduzir ação, embora recicle tomadas de seu segundo filme – perceba como o Aranha socando seu oponente durante uma queda, vinda de duas lutas contra Octopus é repetida aqui com Venom e Homem-Areia em diferentes momentos – e careça de melhor contextualização. Há um excesso de cortes na luta contra Harry na mansão pouco característico do diretor.

Nem a trilha é inspirada, ao repetir temas de seus antecessores ou criar novos que igualmente não superam o que veio antes. Compare os temas de Octopus e Homem-Areia. As boas trilhas licenciadas, infelizmente, são usadas em momentos constrangedores, perdendo seu apelo e contribuindo para que desgostemos do que se passa na tela.

“Ah, mas pelo menos é divertido e tem a marca de Raimi”

Autoria por autoria, até Joel Schumacher teve em 1995 e 97.

E diversão é um conceito subjetivo. Como vou me divertir com uma obra que, à todo momento, afronta tudo o que li a respeito do personagem e sua mitologia e ainda subestima a inteligência do espectador com as soluções de roteiro e trato aos personagens mais imbecis possíveis? Tudo o que passo é vergonha alheia e a sensação de raiva de ter perdido meu precioso tempo, domina. A direção de Raimi com algumas boas tomadas como o nascimento do Areia, de Venom, a cena de Peter na igreja, o número musical de Mary Jane e ação não adiantam para salvar um filme se toda a narrativa que os cercam é tão firme e coerente quanto uma pilha de cartas em uma piscina de jujubas. Se fosse por algumas cenas bem conduzidas e imagens bonitas, que um curta-metragem ou um videoclipe fossem gravados, ora. Estamos falando de um longa de quase 3 horas.

“Homem-Aranha 3” é um filme que não deveria existir, pelo menos não dessa forma. Não só insulta o fã mais ferrenho do personagem e dos filmes anteriores como o mais casual espectador que só quer se divertir comendo sua pipoca mas não consegue por ser bombardeado a todo momento com bobagens que jamais deveriam ter saído do papel. Se Raimi realizou o melhor filme de super-herói da década com o segundo longa da franquia e aqui realiza um dos piores de todo o gênero, já tendo se desculpado publicamente e admitido que o resultado ficou aquém de sua capacidade. Trata-se, por mais que muitos não gostem de admitir por valorizarem fatores e qualidades que já vimos antes e feitos de forma mais eficiente complementados por uma narrativa e personagens coerentes, do Batman & Robin dessa geração. Um equívoco em todos os sentidos, digno das mais tristes tragédias gregas. Uma pena que Avi Arad não iria aprender com seus erros tão cedo. Ao menos, nada do que fizesse de ruim com o personagem depois de 2007 iria conseguir ser pior do que a catástrofe definitiva aqui apresentada. O que não é lá grande coisa, convenhamos. 

Acredito veementemente na teoria de que o último diálogo entre o Areia e o Aranha no presente filme seja, também, uma mensagem do próprio Raimi para com os fãs se desculpando, alegando que não teve escolha. Sam Raimi, eu te perdoo. Nós te perdoamos. Agora volte para o gênero.

Homem-Aranha 3 (Spider-Man 3, EUA – 2007)

Direção: Sam Raimi
Roteiro: Sam Raimi, Ivan Raimi e Alvin Sargent
Elenco: Tobey Maguire, Kirsten Dunst, James Franco, Thomas Haden Church, Topher Grace, Bryce Dallas Howard, J.K. Simmons, Rosemary Harris, Dylan Baker, James Cromwell, Cliff Roberston
Gênero: Aventura
Duração: 139 min

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