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Homem de Ferro 3 tinha uma carga pesada nas costas. Se redimir do vergonhoso segundo filme, cumprir todo o hype criado pelos trailers e, vindo após Vingadores, provar que o estúdio poderia fazer bons filmes solo sem depender da equipe. Dar o próximo passo.

Infelizmente, parece que a responsabilidade foi demais e o filme só conseguiu ser eficiente em consertar alguns erros de Homem de Ferro 2.

Primeiramente, a premissa é excelente. Ao passo que Tony Stark sofre de estresse pós traumático depois dos eventos de Vingadores e enfrenta uma crise existencial, surge um terrorista que se denomina Mandarim explodindo supostas bombas em diversos pontos dos Estados Unidos enquanto realiza transmissões de televisão ensinando “lições” ao presidente. O confronto perfeito para um final de trilogia e o primeiro vilão ameaçador de verdade do Universo Cinematográfico da Marvel. Isso, no papel.

Shane Black foi o escolhido da vez para substituir Jon Favreau na cadeira do diretor, após as críticas que Homem de Ferro 2 sofreu. Válido. Demonstra o dinamismo do estúdio para se ajustar a esse tipo de situação, com o mesmo ocorrendo aos filmes do Thor e Capitão América e até Vingadores. Uma pena que só podemos acompanhar o peso de Black na técnica em três sequências de ação, com todo o resto sendo apenas o dever de casa básico de um filme do gênero.

São elas a destruição da mansão de Malibu pelos helicópteros do Mandarim com muitos planos abertos, sem shaky cam, permitindo o pleno entendimento de toda a cena com momentos criativos com a Mark 42 enquanto os helicópteros vão sendo destruídos; a sequência da queda do Air Force One, onde Black atinge o ápice ao misturar efeitos práticos com digitais perfeitamente e acompanha a armadura salvando aos poucos os passageiros e o clímax no petroleiro em que vários elementos em movimento preenchem a tela enquanto a câmera, com controle, passeia por vários pontos do cenário e as diversas armaduras surgem com várias soluções diferentes de como agir em batalha. De encher os olhos. 

Ou seja, na ação, Homem de Ferro 3 entrega competentemente e corrige o problema do segundo Homem de Ferro da falta dela no geral e da carência de um ápice no clímax dele e do primeiro. 

A outra área em que é possível sentir o peso de Black é no tom e no rumo que a história segue. Desde o clima natalino até o buddy cop comedy que se inicia quando Stark passa a investigar o terrorista com o menino Harley ou o persegue com Rhodes, este é, definitivamente um filme de Shane Black, o que garante uma boa dinâmica entre os pares formados e diversão para quem quer apenas assistir ao filme e desligar o cérebro. E acredite, você vai precisar.

Pegando elementos da mediana saga Extremis dos quadrinhos – aqui, mal explorados – e tentando puxar a versão ultimate do Mandarim para a nova concepção, ainda assim infiel, o roteiro, escrito também por Black e Drew Pierce, é preguiçoso e recheado de vícios e lacunas. Em nenhum momento, demonstra preocupação com coerência e abrangência de conflitos. A todo momento, uma piada é jogada de forma abrupta seja para amenizar o peso de alguma situação ou para cumprir tabela. Parece que a Marvel pensou com este filme que o público não vai conseguir assistir uma cena por 5 minutos sem a intensa dinâmica do humor, o que não impede de criar situações vergonhosas. Vou listar algumas.

Happy Hogan se jogando em cima de Tony Stark no início do filme, Happy Hogan não sabendo virar uma tela de IPad (?), Happy Hogan seguindo o segurança de Killian porque o achou suspeito (??) no meio da noite e arrumando briga como um adolescente (???). Aliás, qual foi o motivo de Savin voltar se já tinha resolvido tudo com o cliente? Por que Tony Stark dá seu endereço ao Mandarim? Não tinha como o vilão descobrir? Afinal, é Tony Stark…

Vamos continuando. Harley pergunta pra Tony quem é ele mesmo tendo lido a poucos minutos atrás um jornal com a notícia de sua morte (??). Stark chega no bar para interrogar a mãe do soldado quando ela, convenientemente, entrega o arquivo que possibilita a ele desvendar parte do plano de Killian porque estava esperando alguém (???). E essa alguém entra no bar, mesmo depois de ter topado com Stark na calçada ao estar seguindo para o lado completamente oposto (???). Rhodes atende o chamado de Stark no meio de uma invasão a uma suposta base terrorista e os alvos riem quando ele diz a senha de acesso para Stark de sua conta militar (????). Rhodes vê Killian cuspindo fogo e deve relatar o que viu para a plateia (?). Os guardas que vigiam Stark acorrentado são uma versão alternativa de Moe e Larry?

E, talvez, uma das mais graves. Após Pepper, aparentemente, cair para a morte, Stark chama sua Mark 42 depois de uma luta com Killian e ela se desmonta pela terceira vez. Uma piada repetida no meio de um processo de perda? Outch. E porque Killian não morre com a explosão (e ainda mantém parte de suas roupas) se Ellen Brendt havia morrido por uma no Tennesse? E Pepper que ressurge das chamas com roupas de yoga com sangue nos olhos pronta para dar cabo de Killian em meio a saltos e tiros precisos com a luva da armadura de Stark? Meu Deus…

Bom, talvez vocês tenham entendido o que eu quis dizer. O humor é desequilibrado de forma grave. Já deu pra sacar, não?

Mas não para por aí! O roteiro também erra ao forçar uma conexão com Killian e Pepper. Quer dizer que o vilão veio do passado de Stark e Pepper…? Coincidência tão grande quanto às firulas inventadas em Homem-Aranha 3. Há ainda uma reviravolta relacionada ao Mandarim que, em tese, é excepcional. Na prática, é vergonhosa. Simplesmente somos obrigados a aceitar o personagem sem graça de Killian e nos contentar com a perda do personagem ameaçador de Ben Kingsley ao se revelar um ator contratado em busca de mais drogas.

Uma pena, visto que a reviravolta em si, é inteligente e traz discussões extremamente relevantes. Claro, deixadas de escanteio assim como todo o drama de Stark que se resume a ataques de pânico que passam após uma respirada com auxílio de Harley. Logo, concluímos que o cerne do roteiro é tão frágil quanto a Mark 42 e não sustenta a transição dos eventos de forma concreta e coesa, devido à tantas incongruências e forçação de suspensão de descrença. Seu ponto forte se concentra no fato de Stark passar por uma jornada que o faz, ao fim do filme, estar mudado em relação ao começo e descobrir que, apesar de ter dependido da armadura para sobreviver por um tempo, no fim das contas, o homem não se dá pela máquina e sim a usa para um complemento. Ele retorna para a caverna do primeiro filme enquanto não consegue se desvincular da obsessão de construir mais armaduras e sai da mesma através de Pepper no final, ao explodir todas elas.

Stark descobre, enfim, que o homem é o super-herói Homem de Ferro e não a armadura.  O personagem cresce, se desenvolve. Ao contrário do 2 em que iniciou e terminou da mesma forma. Um olhar mais humano, mas que nunca navega por águas mais profundas.

Além disso, se torna visível no longa, um dos problemas que o estúdio enfrentaria nos 2 filmes que seguiram a este: a justificativa para não aparecer um outro vingador ou sequer mencioná-lo frente a ameaça enfrentada. O presidente é sequestrado por um terrorista e Tony Stark é presumido morto e Nick Fury não dá as caras? Ora… E o que a Viúva e o Capitão estavam fazendo de tão importante?

O elenco, ao menos, é um ponto positivo. Robert Downey Jr., inspiradíssimo, entrega sua melhor performance desde o primeiro Homem de Ferro e teria sido melhor ainda se o roteiro não focasse de forma intensa em sua verve cômica. Nos poucos e breves momentos de maior carga dramática, como segundos antes da queda de Pepper, é visível o talento do ator para tais cenas, evidenciando o desperdício. Gwyneth Paltrow tem mais o que fazer do que no segundo filme e está bem mais ativa, desta vez, fazendo parte do arco central da história. Don Cheadle está mais apagado e sua interpretação, mesmo que competente, não muda de nota ao longo do filme.

No núcleo dos antagonistas, Guy Pearce até que se esforça mas seu trabalho aqui nem arranha a superfície de seu potencial – visto no fantástico Amnésia – muito devido ao roteiro que constrói um personagem bem quadrado. Rebecca Hall se mostra dedicada mas a personagem mal escrita e confusa com motivações tortas que interpreta não contribui para se destacar. Por fim, Ben Kingsley sai na vantagem desse núcleo, com uma interpretação engraçadíssima e bastante condizente com a proposta do roteiro, goste você ou não da reviravolta. Ao menos, os vilões movimentam a trama e são relevantes, um avanço se compararmos com a trajetória paralela do Chicote Negro à história principal do filme de 2010.

A trilha de Bryan Tyler é aceitável. Apostando muito no som grave para realçar a tensão ou atos grandiosos do herói mas que em nenhum momento sentimos o peso do tema principal como um mantra. Entendo que quiseram se distanciar do status rock and roll das trilhas passadas, mas o trabalho aqui realizado nem de longe tem a mesma personalidade.

Também é válido comentar sobre a desonesta campanha de marketing que o filme recebeu antes da estreia ao exibir dois trailers que prometiam um longa mais maduro, disposto a levar a ameaça e conflito interno a sério e acabou por entregar um material que destoa demais do tom prometido. Vendeu um produto e entregou outro.

Homem de Ferro 3 é uma tremenda decepção. Esconde no fundo, bem lá dentro, um ótimo filme mas que, infelizmente, se deu nas mãos de um estúdio que preferiu jogar toda possibilidade de investida em conflitos mais pesados em troca de humor barato. Toca em temas relevantes, é verdade, porém só na superfície. Eu havia dito em minha crítica de Homem de Ferro 2 que o filme era um desserviço ao personagem e dificilmente haveria um pior do que ele na história do estúdio. Após a lástima de ter que rever Homem de Ferro 3 fico na dúvida se alguns pontos consertados desse segundo são suficientes para colocá-lo na frente ou não no ranking…

Homem de Ferro 3 (Iron Man 3, EUA – 2013)

Direção: Shane Black
Roteiro: Shane Black e Drew Pierce
Elenco: Robert Downey Jr., Gwyneth Paltrow, Don Cheadle, Ben Kingsley, Jon Favreau, Guy Pearce, Rebecca Hall
Gênero: Aventura, Ação
Duração: 130 min

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