nota-4,5

Depois de termos aprendido que um homem poderia voar com o “Superman” de Richard Donner, o cinema de ação jamais foi o mesmo. Engajando mais três sequências, sendo duas mal sucedidas e quatro filmes do Batman, com dois enterrando o herói por 8 anos, eis que em 1998 chega aos cinemas “Blade” que mesmo passando despercebido mostrava ali o potencial de sucesso de uma certa linha execução de filmes heróis.

Dois anos depois, “X-Men” estreava nas telas com uma proposta mais “pé no chão” e realista do que os fantasiosos filmes do Morcego. Mesmo com um roteiro essencialmente caricato na maioria das vezes, definiu um padrão que seria desafiado mais 2 anos depois com o “Homem-Aranha” de Sam Raimi. Com a proposta de se afastar dos filmes do Batman assim como os “X-Men”, se diferenciava do filme dos filhos do átomo por apostar fortemente em cores e em um tom mais leve para a narrativa.

Porém, em 2005, tudo mudou quando Christopher Nolan reformulou completamente o conceito de “filme de herói” que estava em plena experimentação na década ao reintroduzir o Morcego no cinema com abordagem sombria e de estética mais realista, dando um enorme passo à frente da proposta iniciada com “Blade” e “X-Men”.

A Marvel, tendo vendido o direito de seus personagens mais populares para os grandes estúdios e acompanhando de perto as idas e vindas dos filmes de seus heróis, resolveu apostar em um personagem desconhecido ao criar seu próprio estúdio visando o equilíbrio do que havia sido feito até então, se inspirando em cada game changer do gênero, o Homem de Ferro.

Mas como introduzir ao público um personagem desconhecido e ainda gerar lucro? A resposta se encontra em cinco fatores fundamentais: Robert Downey Jr, Jon Favreu, o time de roteiristas formado por Mark Fergus, Hawk Ostby, Art Marcum e Matt Holloway, o produtor Kevin Feige e o uso do humor.

O risco era enorme. Uma escolha duvidosa de um ator pouco popular que já havia enfrentado poucas e boas em sua conturbada carreira hollywoodiana, um roteiro escrito a 8 mãos e um diretor de filmes infantis sessão da tarde. É impressionante como absolutamente tudo dá certo e não deixa dúvidas de que a Marvel sabia exatamente o que estava fazendo. A começar por Robert Downey Jr. (escolhido a dedo por Favreu) que representa o casamento perfeito entre ator e personagem. Simplesmente cria uma figura extremamente carismática e inesquecível em uma atuação de se aplaudir de pé responsável por levar o filme nas costas.

Todas as características do Tony Stark das HQs se encontram presentes, obviamente algumas atenuadas devido à possível não aceitação do público. É espantoso como Downey Jr. consegue nos fazer torcer por um sujeito arrogante, ególatra, egoísta que ao longo da película se transforma no herói que amamos hoje, fazendo parecer um trabalho fácil. Além disso, é adicionada uma característica nova a sua personalidade que, se pararmos para pensar hoje, não conseguimos mais visualizar o herói sem sua presença, o humor, responsável também por melhorar (sim, isso mesmo) o personagem em relação à sua contraparte nos quadrinhos. Algo ratificado pelo próprio Stan Lee.

O resto do elenco não desaponta. Gwyneth Paltrow encarna uma Pepper Potts bem mais interessante do que nos quadrinhos e que foge do clichê de interesse amoroso indefeso. Não que ela não seja um interesse romântico e não precise ser salva em um pequeno momento no final, mas o que a personagem tem a oferecer é muito acima disso.

Desde o início vimos uma mulher segura mas por vezes desconfortável com seu chefe. Sua relação com Tony é construída aos poucos através de pequenos pontos de virada, o que torna tudo muito crível e natural ainda mais pela química impecável entre os dois. Entretanto, não espere beijos no final. Sua participação na trama também é relevante, sendo ela de fundamental importância para a revelação dos planos do vilão e para a redenção de Stark em uma cena bonita envolvendo seu primeiro mini-reator.

Terrence Howard nos traz um simpático e fiel Coronel James Rhodes possuindo também boa química e bons momentos com RDJ e o que lhe faltou aqui é compensado por seu substituto nos filmes seguintes. Já o experiente Jeff Bridges dá vida ao vilão Obadiah Stane/Monge de Ferro em uma interpretação fria, dúbia e envolvente que só peca no terceiro ato (ponto que falarei a respeito mais adiante). A falta de grandes momentos com seu personagem, infelizmente, não contribui para Bridges demonstrar todo o seu potencial.

Porém, nada disso adiantaria se não fosse pela história focada em desenvolver por completo seu personagem título através da famosa Jornada do Herói de Joseph Campbell. Na trama, Tony Stark é capturado em solo estrangeiro por terroristas após uma apresentação da sua mais nova invenção bélica para os militares e é forçado a construir uma armadura para fugir com a ajuda de seu companheiro refém, Dr. Yinsen (Shaun Toub, ótimo) enquanto tenta manter os fragmentos de uma bomba longe de seu coração através de um imã eletromagnético.

Nota-se que a história de origem do herói foi adaptada para a modernidade, logo retira-se a Guerra do Vietnã e entra a guerra contra o terrorismo, tornando a película substancialmente relevante e próxima da realidade atual. Em termos de ação, o roteiro é corretamente contido, oferecendo poucas, mas belas sequências explosivas quando necessário sempre contribuindo com a narrativa. Todos os coadjuvantes possuem espaço e o Stark do começo não é o mesmo do final, tendo sua meta de desenvolvimento satisfatoriamente cumprida e os eventos são bem amarrados com alguns plot twists eficientes (mesmo que  previsíveis).

A direção aqui é adequada. Favreu não toma riscos até porque o estúdio limita alguma possível autoria. Mas o que faz, faz bem, pecando somente no ato final. Desde o início, o competente diretor consegue imprimir o tom sem dificuldades nos guiando até o final com um ritmo excelente. Nas cenas de ação, que aliadas à uma fotografia colorida e com identidade, o diretor se sai bem em grande parte do filme.

Na fuga da caverna, Favreu sabe criar expectativa e entregar catarse em momentos chave que ajudam a engrandecer a figura do herói juntamente com a energética trilha sonora e o uso de efeitos práticos belíssimos. Mas talvez a sequência em que ele mais se destaca seja na perseguição dos F-22 pelo Homem de Ferro com planos mais abertos e longos que cumprem bem a função de exibir a mecânica de um herói voador em um filme de ação. Favreu também se prova um ótimo diretor de atores que somado ao talento natural de cada um, o filme transforma-se num deleite artístico em cenas mais intimistas das quais ele insere uma linguagem padrão mas corretíssima como na sequência em que Tony e Pepper dançam.

Onde o diretor peca também é onde se concentra o ponto mais fraco de todo o filme, na batalha final. Desprovida de um ápice, de uma trilha sonora marcante, de um senso de urgência e ameaça maiores (que haviam sido estabelecidos no momento em que Pepper encontra Obadiah de armadura), toda a sequência seria totalmente esquecível se não fosse por um adendo: os efeitos práticos.

Sendo difícil filmar uma batalha entre duas armaduras durante voos ou passagens em rodovias com efeitos práticos, é compreensível que Favreu se limite ao básico e que a sequência seja contida visto o orçamento. Porém, o maior erro se encontra ao reduzir o personagem de Bridges a uma figura vilanesca caricata que profere frases efeitos que não condizem com o caráter mais “pé no chão” que havia sido construído para o personagem até então, o tornando parte do que viria a ser o maior problema do Universo Cinematográfico da Marvel, vilões fracos e nada memoráveis.

Falando como um leitor dos quadrinhos do Ferroso mesmo antes do filme estrear (algo raro na época), posso dizer que a experiência de assisti-lo pela primeira vez nas telas tratou-se de algo revigorante. Todo o cuidado estético e fidelidade no visual de sua primeira armadura é de deixar qualquer fã babando e a primeira vez que Tony enfim coloca sua armadura aprimorada com as cores clássicas é um momento ímpar que me remeteu diretamente a primeira aparição de Clark como Superman e Peter Parker como Homem Aranha.

Nunca imaginei que a personalidade e um visual de um super-herói (claro, com as devidas adaptações) desconhecido pudessem ser tão bem representados nas telas. As menções a um certo vilão e um pequeno vislumbre do que Rhodes iria se tornar também me causaram euforia e nem irei comentar da já antológia cena pós-créditos que mudou o jeito de Hollywood fazer blockbusters para sempre. Os fãs estão bem servidos, enfim.

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“Homem de Ferro” é filme fantástico e um verdadeiro game changer. Uma prova de que há futuro no cinema de heróis e uma verdadeira aula de construção de personagem em uma boa história que não precisa se apoiar em CG e cenas de ação mirabolantes para entreter o espectador, mantendo-o engajado de uma forma cômica e contida.

Um blockbuster genuinamente relevante. A excepcional atuação de Robert Downey Jr. dá identidade a um dos melhores personagens do gênero e, sem dúvida, do melhor e mais complexo do MCU, tornando um herói não familiar em um memorável em questão de minutos. Eu realmente duvido que algum outro filme do estúdio possa superar esse clássico instantâneo no quesito maturidade e qualidade como um todo que mostra que quando um diretor limitado (pelo próprio estúdio) mas inspirado é guiado por um roteiro que prioriza história e desenvolvimento de personagem ao invés de pirotecnia e fan service é possível sair algo que representa uma ode não somente para um bom filme de herói, mas para um bom cinema.

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