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CUIDADO: spoilers no texto.

Há algo de brilhante e de duvidoso sobre a nova temporada de House of Cards.

Desde seu terceiro ano, uma das séries mais densas e mais emocionantes da plataforma de streaming Netflix começou a depender demais da situação política contemporânea para criar uma base narrativa para seus personagens. É claro que, para uma produção audiovisual deste porte, a fidelidade para com o mundo real é essencialmente necessária a se atingir a verossimilhança e manter o público conectado, ainda que seja da maneira mais ínfima, com suas criações. Entretanto, é um fato dizer que o brilho do show começou a desgastar e a ser apagado gradativamente, mesmo que seu incrível roteiro continuasse extraindo reações condizentes à atmosfera criada.

E agora, depois de uma quarta temporada relativamente monótona e que colocou em cheque a premissa de House of CardsBeau Willimon e seu time criativo conseguiu resgatar quase completamente o motivo instigador e exploratório que permitiu nos apaixonarmos pela simples feição dúbia e demoníaca do casal Underwood. Logo no primeiro episódio, percebemos que o clima na Casa Branca vai de mal a pior: a guerra contra o terrorismo – mais precisamente contra o grupo ICO -, e cujo tema sempre teve grande presença contraditório na Câmara e no Senado norte-americanos, transformou-se em um debate caloroso e individualista que se alastrou para a clara disputa de poder das duas chapas, a republicana e a democrática.

Frank Underwood não poderia estar fora dos holofotes. E durante uma sequência caótica, cuja construção amorfa gradativamente ganhou uma identidade belíssima composta por planos assiduamente simétricos, deixa que seus colegas e inimigos mantenham o tenso clima até que ganhe a possibilidade da retórica para mais uma vez entregar-se aos seus princípios irrevogáveis. O protagonista é encarnado por Kevin Spacey, e sua notoriedade e versatilidade tanto no cinema quanto na televisão mais uma vez se provam indiscutíveis: as sutilezas nas feições e nos gestos “patrióticos” sugerem uma inclinação para a compreensão social, mas seus solilóquios traduzem o que ele realmente deseja.

Seus objetivos e aspirações já são conhecidos desde o episódio piloto: ele foi traído, então se vê na total liberdade deliberativa de destruir aqueles que se opuseram à linearidade do destino para fazer exatamente a mesma coisa. Mas a construção de tal personagem o torna cego frente aos obstáculos, colocando-o num patamar de superioridade que é constantemente ratificado por seus trajes e pela imponência superficial de seus bens materiais – seja a casa de governador, o carro que usa ou até mesmo a quantidade absurda de seguranças que cercam seus conhecidos para mantê-lo longe do perigo (ainda que o perigo seja ele mesmo).

O quinto ano de House of Cards tem grandes referências a acontecimentos políticos tanto dos Estados Unidos quanto de outros países. A proposta de marketing para esta temporada criou uma dialética metalinguística para a situação brasileira no ano de 2016, além de conseguir casar harmonicamente diversas vertentes governamentais para um mesmo canal: as pessoas são cruéis e não se limitam aos próprios valores para conseguirem o que querem. Frank deixou isso bem claro em diversos momentos da trama – quando matou um cachorro para “livrá-lo do sofrimento”, quando trouxe a vida de Zoe (Kate Mara) ao fim para “impedi-la de cometer erros” ou quando permitiu que o grupo terrorista supracitado tirasse a vida de um soldado americano para “um bem maior”. Este é o incidente incitante do Chapter 53, o qual assombrará as decisões do presidente e de seu concorrente até os momentos finais.

O pano de fundo são as eleições presidenciais de 2016. Após a tentativa acobertada de golpe feita pelo casal principal, a qual tirou Garrett Walker (Michael Gill) do “posto supremo”, outros disputantes emergiram – agora nas feições de Will e Hannah Conway (Joel KinnamanDominique McElligott, respectivamente), representantes do partido republicano. Apesar de constantemente ofuscados pela química dos Underwood, os dois trazem consigo uma ameaça endossada e muito bem arquitetada, seja no carisma do concorrente a presidência dos Estados Unidos ou na ingenuidade forjada da “futura” primeira-dama. Com os ataques reveladores sobre as ações de Frank e seu próprio partido virando-lhe as costas, a primeira metade da temporada pode ser considerada quase previsível. Quase.

O grande lance da disputa entre dois candidatos diferentes busca elementos de luta até mesmo em se tratando de idade. Durante várias sequências, personagens secundários discorrem sobre Will representar a modernidade e Francis ainda carregar ideais conservadores, ainda que dentro de um partido considerado liberal, para a teoria e a prática. Já aqui percebemos os primeiros deslizes da série, os quais, como supracitado, vêm acontecendo há algum tempo: o drama político, passível de reverenciar ironicamente o modo de agir dos próprios governantes estadunidenses, deixou-se levar por uma vertente tresloucada e impossível.

Em Chapter 57, marcando a divisão entre os períodos abordados na narrativa, é quase egocêntrico, por assim dizer, por se levar tão a sério. Há tempos que House of Cards tornou-se uma brincadeira entre trâmites e acontecimentos surreais para garantir a profundidade de seus personagens – e não estou fazendo uma crítica negativa para a série, muito pelo contrário. É necessário que o público, ou parte dele, perca a ignorância de que está vendo uma recontação da realidade. Disse alguns parágrafos acima que a verossimilhança é a base, mas só; as perscrutações, as relações coadjuvantes e os tramas paralelas mantém-se no mundo ficcional e criam um microcosmos digno de ovações, justamente por parecer real.

Ora, Frank consegue fechar uma zona eleitoral inteira e adia o resultado das eleições presidenciais para benefício partidário, incitando a população aos ares de uma nova “guerra civil”. Not My President (Não É o Meu Presidente) é a frase que mais vemos em tela – e em alguns momentos, o protagonista decide enfrentá-los de forma pacífica. Isso não é nenhuma novidade, principalmente para aqueles que já conhecem os métodos não-ortodoxos da figura política para tratar seus oponentes, deixando-os sem reação e garantindo-lhe mais poder – ainda que seja o mais subjetivo possível. E é claro que não podemos deixar de lado a responsável por tudo isso acontecer: a sórdida e extremamente eficaz mente de Claire Underwood (personificada pela perfeita delineação de Robin Wright).

Claire é uma peça a ser examinada com cuidado. Sua inexpressividade blasé pode ser confundida, a priori, com uma falta de personalidade, submetendo-se ao poder masculino que há séculos controla o governo estadunidense. Mas por trás da fidelidade ao seu marido e às roupas impecáveis – constantemente adornadas por tons neutros ou mais escuros, provocando-lhe uma sensação de ambiguidade -, ela possui suas próprias aspirações. Ainda que não verbalize com frequência, principalmente se levarmos em consideração que a série parte da perspectiva de Frank, Claire tem um apreço pela política que vai além da de seu marido: em Chapter 58, após tensões políticas mais uma vez tomarem conta do cenário principal, ela sobe ao cargo de presidente interina.

Nem mesmo a imparcialidade mais dura poderia tirar o brilho de seus olhos ao ter o controle de uma nação inteira nas mãos. E já posso adiantar que esse gostinho pelo poder a tira dos trilhos, fazendo menção aos dois capítulos finais. Wright faz um incrível trabalho como a personagem e mostra seu tato impecável para a direção tomando a cadeira principal de Chapter 6465. Seguindo o padrão dos capítulos anteriores, ela opta por planos centralizados, entrando em uma divergência idealista com os diálogos entre personagens – todos fincados em barris de pólvora prestes a explodir. E é então que, nos momentos finais de um dos melhores arcos do ano, ela resolve mostrar sua onipotência e quebrar a quarta parede, roubando o protagonismo de Spacey de modo inefável.

House of Cards, ainda que tenha entregue uma temporada melhor que suas anteriores, ainda traz alguns deslizes complicados. Além da sobrenaturalidade de eventos, explanada anteriormente, as criações secundárias a habitarem as paredes da Casa Branca mantém-se num nível de submissão um tanto quanto monótono: até mesmo Doug Stamper (Michael Kelly) e Leann Harvey (Neve Campbell), braços-direito dos Underwood, são peões trabalhando em função de outros. Eles não são lineares, mas beiram uma desenvoltura quase ínfima, se compararmos seus arcos atuais com a do quarto ano, por exemplo: apesar dos poucos momentos de glória e de autoaceitação, eles continuam temendo a implacabilidade de seus “chefes”, principalmente se levarmos em conta o passado sangrento que têm.

Até mesmo os “vilões” dos protagonistas abandonam seus postos de seriedade e se tornam cômicos. Will definitivamente é o escape a encarnação dos momentos mais pueris da quinta temporada. Não pude deixar de soltar alguns risos ao vê-lo perder a eleição e transformar-se num adolescente mimado que tinha como único objetivo atacar seus adversários. Em uma das sequências mais cruas, o personagem de Kinnaman participa de uma reunião com a Black Caucus, tentando convencê-los a apoiá-los com argumentos mais rasos que um prato de comida vazio. Sua personalidade mais robusta e severa entra em choque com os participantes afro-americanos do caucus e o tacham como racista – e com razão. A relação com a mulher Hannah passa de utópica para desastrosa em questão de pouquíssimo tempo, e mesmo assim traz mais comicidade para um ambiente essencialmente dramático.

Ainda não se sabe se House of Cards terá seu legado interrompido ou se a jornada dos Underwood terá um fim digno. Os deslizes ainda existem, mas conseguem ser ofuscados brevemente pela competência surreal de seu elenco; o que precisamos fazer é manter a consciência de que a série não é um espelho da sociedade, e sim uma convergência de estilos narrativos que tangem a ficção, entregando-a de forma convincente e satisfatória e com um season finale que, apesar de ser esperado, consegue nos manter deliberantes quanto ao que pode acontecer agora.

House of Cards – 5ª Temporada (Idem, 2017 – EUA)

Criado por: Beau Willimon
Baseado em: House of Cards, de Michael Dobbs

Direção: Robin Wright, Agnieszka Holland, Alik Shakarov, Roxann Dawson, Daniel Minahan, Michael Morris
Roteiro: Andrew Davies, Michael Dobbs, Laura Eason, Bill Kennedy, Tian Jun Gu, John Mankiewicz, Melissa James Gibson, Frank Pugliese, Kenneth Lin
Elenco: Kevin Spacey, Robin Wright, Michael Kelly, Derek Cecil, Neve Campbell, Jayne Atkinson, Joel Kinnaman, Dominique McElligott
Emissora: Netflix
Gênero: Drama político
Duração: 60 minutos

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