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Já fazia algum tempo desde que How to Get Away with Murder não me prendia desde o primeiro minuto. Sua temporada de estreia em geral mostrou-se como a mais bem desenvolvida, com viradas e polêmicas novas a cada capítulo e que definitivamente nos afastavam de qualquer explicação lógica ou simplista sobre as ações dos personagens. A segunda, por sua vez, embolou-se em meio a tramas que prometiam muito, mas entregaram pouco. Entretanto, garanto que nenhum episódio me manteve tão preso quanto Call It Mother’s Intuition – quarenta minutos de pura metáfora e “lavação de roupa suja”.

Um dos pontos fortes a se destacar aqui – sim, logo de cara – é o ritmo do episódio. Diferentemente dos capítulos anteriores, o roteiro de Erika Harrison não se preocupa em criar uma atmosfera ou pavimentar a estrada antes de nos colocar frente a frente com os personagens, justamente porque não há necessidade disso: já conhecemos o procedimento, já sabemos quem são as figuras principais – só nos leve direto ao ponto, por favor. E é exatamente isso o que acontece: o caso abraçado por Annalise Keating e sua grande equipe de advogados-alunos é de uma mãe que alega ter sido vítima de envenenamento por uma substância anticongelante, culpando seus três filhos da tentativa de homicídio. E já na primeira sequência, um deles brinca com a advogada dizendo que “o discurso que ela faz é digno de um Oscar”. Não sei se chega a tanto, mas sua capacidade de convencer é inegável.

A relação mãe e filho sempre foi muito bem explorada pela narrativa de How to Get Away with Murder, e levar isso aos tribunais foi uma das grandes sacadas do episódio. A priori, somos inclinados a defender a pobre velhinha, mas assim que ouvimos os depoimentos dos irmãos, não sabemos mais o que pensar: para termos uma ideia, sua mãe tinha uma acidez tão cruel para com os filhos que não podemos evitar em sentir uma vergonha alheia e nos colocar no lugar dos acusados. Bullying, ameaças e exposição são alguns dos métodos de controle – e nem são os mais viscerais. O desejo de vê-la morta seria totalmente compreensível em tais situações.

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Apesar do caso supracitado ser um dos melhores da temporada – e por que não da série? -, o foco aqui é definir o que será discutido pelos protagonistas. Sabemos que cada um deles carrega um leque inefável de pesares e ressentimentos, e manter o equilíbrio entre razão e loucura já foi tema de diversas subtramas da série. Está na hora de desabafar; os Keating 5 tentam canalizar o ódio que sentem por todas as mentiras e os perigos que passam nas mãos de Annalise através do sexo ou da bebida, mas chega uma hora em que nem esses catalisadores são capazes de contê-los. E é aí que entra a metáfora: Connor, Wes, Laurel, Michaela e Asher são como filhos para a personagem eximiamente interpretada por Viola Davis. Mas relacionamentos são resguardados e fortificados pela confiança – coisa que a advogada jamais demonstrou durante mais de trinta episódios. Tudo o que sentem e que engolem para “agradá-la” ou para “agradecê-la” é despejado de forma tão profana que não podemos fazer nada a não ser esperá-la responder.

Entretanto, o episódio também se baseia em momentos paradoxais para dar mais estrutura aos personagens. Depois de ouvir tudo aquilo, Annalise simplesmente vai dormir e os alunos vão para suas respectivas casas. Eles desejam recomeçar, talvez resgatando o tesão sobre o próprio ofício e realmente seguindo em frente. Ainda que de forma sutil, os protagonistas passam por um arco de amadurecimento considerável, refletido não apenas no roteiro, mas em sua paleta de cores: enquanto nos primeiros episódios as cores se deitavam pela cena profusamente, aqui são mais encorpadas e mais simétricas entre si; ora, até a construção dos planos segue uma angulação em perspectiva, sugerindo um equilíbrio há muito não visto.

Annalise, como já é de se esperar, abandona o sarcasmo e a ironia para com seus colegas de trabalho, mas em momento algum esquece de sua forte e decidida personalidade. Intrigas passadas estão sendo enterradas – e um terreno com grande potencial está nos preparando para a midseason finale: o sentimento de tranquilidade aumenta, e sabemos que um incêndio tirará a vida de um dos personagens principais. As expectativas talvez nunca tenham sido tão altas – e a catarse está pronta para explodir.

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Os desabafos não se restringem apenas à trama principal. Mais uma vez, vemos o retorno de Frank e seu relacionamento dúbio tanto com Laurel quanto com Bonnie e sua ex-chefe. As tensões já estão formadas, e não culpo nenhuma das três mulheres de não querer vê-lo nem pintado de ouro. Afinal, seu vitimismo desenfreado teve trágicas consequências em episódios passados, e perdoá-lo não será fácil, nem para os personagens, nem para o público. Uma das cenas mais viscerais de Call It Mother’s Intuition se passa na casa da assistente, onde é-nos mostrado que um coração partido pode sim se mostrar muito racional e separar o que lhe faz bem do que lhe pode trazer nada além de sofrimento.

O pequeno deslize – que definitivamente não desmerece nenhuma passagem deste capítulo – é na resolução do caso entre a mãe e os três filhos. Gostaria de ter visto mais a incessante busca dos advogados por resposta e o encontro de brechas onde ninguém pensaria em buscar. É compreensível, no entanto, que o “crime” entra como suporte para um arco maior e mais complexo que vem se desenvolvendo desde o piloto: a famosa metáfora do copo quebrado.

Em suma, o sétimo episódio da terceira temporada foi, de longe, um dos mais emocionantes. Espera-se, pois, que o ritmo se mantenha, e que a qualidade técnica eleve-se cada vez mais, ousando penetrar territórios nunca antes explorados e firmando How to Get Away with Murder como uma das melhores série da atualidade.

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