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How to Get Away with Murder, mesmo em meio a seus claros problemas – principalmente no quesito direção e montagem – é uma série muito interessante de ser analisada e acompanhada. E parece que, em meio a alguns deslizes narrativos, o time criativo que arquiteta os inúmeros casos abraçados por Annalise Keating (Viola Davis) está subindo ainda mais as expectativas para a quarta temporada, desenvolvendo uma trama principal que conversa com os arcos de seus personagens e resgata o sentimento de angústia e de tensão que o público sentia no ano de estreia e que, infelizmente, foi se perdendo com passar do tempo.

Chega a ser irônico comparar o modo como os protagonistas, mesmo na tentativa de se manterem fiéis a uma personalidade perdida em meio a tantos traumas, tornaram-se mais elaborados e mais complexos desde sua primeira aparição até agora. Quando os conhecemos, tínhamos um escopo estereotipado dos tipos sociais que compõe um dos cenários mais adversos para a expressão individualista – a faculdade. Esses brutos rascunhos foram lapidados constantemente por forças externas e inimagináveis, transformando-se em pequenas pérolas arquetípicas que, no presente momento, entram em conflito com uma negação de valores que carregavam desde o princípio e que agora postam-se em cheque.

Annalise talvez seja o exemplo mais claro disso, emergindo como uma das últimas a sair de sua couraça impetuosa para respirar e entrar em uma ruína psicológica necessária para seu amadurecimento – tanto que, ao lado de sua mãe Ophelia (Cicely Tyson), o retorno a um período de ingenuidade e despreocupações a impacta com tanta força que ela desconstrói a imagem intransponível da advogada e professora de direito para permitir-se sentir todas as frustrações a que tem direito. Mas isso não significa que a análise permitida pela série tivesse se mantido a certos momentos – e o quarto episódio deste novo ano, intitulado Was She Ever Good at Her Job?, disserta sobre como uma reputação tão firme tornou-se tão frágil quanto um pedaço de vidro.

Durante os quarenta e dois minutos, a personagem encarnada por Davis parece ter sido “jogada aos leões”, recobrando toda a força própria de sua personalidade para começar do zero, sendo constantemente atacada por inimigos advindos dos anos de tribunal e dos incontáveis casos que venceu. Não podemos deixar de ficar surpresos quando Annalise retoma contato com a reitora da universidade, Soraya Hargrove (Luna Lauren Velez) como forma de retornar para o âmbito jurídico. E ficamos ainda mais boquiabertos quando descobrimos que ela está sendo representada pela firma Caplan & Gold, a mesma que aceitou Michaela (Aja Naomi King) como uma de suas estagiárias. O resultado já pode ser previsto, e com certo e estranho ânimo por parte dos fãs: a estudante, rejeitada por Annalise no primeiro capítulo dessa nova temporada, irá trabalhar com a ex-mentora contra sua vontade – e talvez em um dos casos mais escandalosos de toda a série.

Acontece que Soraya, mantendo semelhanças com Annalise por ser alcoólatra e estar se tratando, está no meio de um processo de divórcio, a partir do qual seu ex-marido deseja lhe arrancar seis milhões de dólares e a guarda compartilhada dos filhos. Entretanto, conforme sua primeira advogada, Tegan Price (Amirah Vann), diretora-executiva da Caplan, lhe aconselhou, as investidas podem ser mais duras – quer dizer, até o momento em que a contrapartida lhes dá uma fita contendo um breakdown da cliente, tornando-a inapta para cuidar dos filhos ou para continuar sua carreira.

O pano de fundo segue como preparação para Annalise aceitar uma possível derrota interna e analisar como pode dar a volta por cima. Através de viradas muito interessantes e bem arquitetadas, é de se esperar que elas consigam vencer o caso – mas são os corolários dessa parceria que são o foco: Tegan oferece um trabalho para a protagonista em sua empresa, para desespero de Michaela. Quando as duas se enfrentam, Annalise não mede esforços nos diálogos verborrágicos para mostrar como sua ex-aluna na verdade tem um fascínio pela busca constante de uma figura materna, ausente quando criança e adolescente e que deixou uma lacuna em uma personalidade bombardeada pela necessidade de atenção – e analisando cruamente, parece que ela está expressando sobre aquilo que lhe diz respeito; em outras palavras, ela precisa atacar alguém para poder entender o que tem de errado em si mesma.

E isso nos leva para o outro lado da história, ou seja, àquele contado por Bonnie (Liza Weil) no capítulo seguinte, I Love Her. Sabemos que a eterna assistente de Annalise passou por poucas e boas desde sua infância – sendo abusada sexualmente pelo padrasto e por inúmeros outros homens dentro de uma rede de prostituição, até ser paciente do ex-marido da advogada, Sam (Tom Verica) e tornar-se cúmplice de sua mentora em diversos assassinatos e acobertamentos. Quer dizer, até ficar “livre” com uma carta de demissão altruísta feita por ela, a qual desencadeou uma onda de repulsa e ódio entre as duas que quase culminou em agressão física.

A partir daí, Bonnie entrou em arco de vendeta pessoal contra sua mais nova nêmeses, fazendo o que estiver ao alcance para impedir que ela consiga alcançar seus objetivos. Nesse ponto, vemos uma clara distinção e troca de personalidades entre as duas personagens, visto que a assistente, agora trabalhando sob supervisão do Detetive Nate Lahey (Billy Brown), tornou-se amargurada e letárgica perante as súplicas de Annalise, a qual deixou-se levar por suas fraquezas e deixou de lado sua faceta inquebrável e intransponível para permitir errar e melhorar.

Mas isso não seria How to Get Away with Murder sem mais um twist – e, ao que tudo indica, todos os problemas convergem para um mesmo personagem: Isaac (Jimmy Smits), psiquiatra responsável por atender tanto Annalise quanto Bonnie (esta última sob a falsa identidade de Julie). Acontece que a ex-assistente na verdade nutre um sentimento de amor pela mentora, a qual abandonou até mesmo seu promissor cargo em uma agência conhecida depois de fazê-la sofrer no tribunal, dando-lhe tudo o que precisava em troca de absolutamente nada – mais uma prova do altruísmo escondido da advogada vindo em cena. Ela, entretanto, não pode revelar o quanto a ama porque se recusa a ser dependente de novo, e quer mostrar que pode resolver tudo por conta própria – ou seja, mostrar que pode ser também um alter-ego de Annalise Keating.

Os dois últimos episódios divulgados da série, apesar mais uma vez dos deslizes óbvios e corriqueiros, são ótimos no quesito narrativa e movimentação dos arcos dos personagens. Em harmonia com o comum epílogo que sempre segue cada uma das temporadas, estamos nos aproximando do que pode ser uma das maiores viradas da temporadas – e que colocará em cheque mais uma vez a sanidade mental dos personagens e como cada um sabe lidar com perda, dor e sofrimento.

How to Get Away with Murder – 04×04: Was She Ever Good at Her Job? / 04×05: I Love Her (Idem, 2017 – EUA)

Criado por: Shonda Rhimes, Peter Nowalk
Direção: Michael Smith, Lexi Alexander
Roteiro: Michael Russo, Sarah L. Thompson
Elenco: Viola Davis, Billy Brown, Jack Falahee, Aja Naomi King, Matt McGorry, Conrad Ricamora, Karla Souza, Alfred Enoch, Liza Weil, Charlie Weber
Emissora: ABC
Gênero: Drama criminal
Duração: 45 minutos

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