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A família é uma das instituições mais antigas que existem na sociedade, e seu conceito tradicionalmente talhado já caiu por tabela há muito tempo. Em se tratando de temas controversos, How to Get Away with Murder é uma daquelas séries que cutuca com gosto a ferida, tanto para chocar quanto para levar à reflexão – desse modo, não é nenhuma surpresa que a narrativa girando em torno de uma problemática advogada tenha como principal elemento-gatilho esse conceito tão complexo de ser explicado e tão inerente à própria felicidade do ser humano.

Em Stay Strong, Mama, sexto capítulo da quarta temporada, Annalise Keating (Viola Davis) enfrenta mais um de seus demônios interiores para tentar alcançar uma transcendência pessoal e profissional, como forma de se livrar das amarras que a mantém prisioneira de um sistema falho e corrosivo – o sistema judiciário. Sua personalidade petulante e impetuosa é palco para os mais diversos acontecimentos, e aqui todos eles se concentram na ajuda que pode oferecer, juntamente com sua reputação fragilizada e seu incrível conhecimento técnico e aplicado, aos menos favorecidos. É interessante ver que alguém que prezava pelo reconhecimento de outrem não importasse os meios para alcançar esse objetivo poderia ser transformado justamente por aquilo que costumava distorcer para benefício próprio: a justiça.

Após perder grande parte de seu “eleitorado” para a petição de um corpo de advogados treinados para atender os menos favorecidos, Annalise faz o possível para ajudar sua ex-colega de cela – que inclusive contribuiu de forma indireta para sua soltura -, Claudia (Yolonda Ross) a retornar para sua casa e para seus filhos, cuja relação é explorada exatamente no ponto certo para dar suporte aos planos por trás dessa corrida pelo que é certo. Ela é a única que ainda acredita na capacidade da advogada de poder retirá-la, mesmo com as crescente dúvidas de um jovem rapaz que se vê num círculo de amadurecimento forçado, um coming-of-age que serve como metáfora explícita para os frágeis arcos dos outros personagens. E, em contrapartida, temos a presença inesperada de Connor (Jack Falahee), outrora crítico ferrenho das investidas de Annalise e principal nome a acusá-la de sua ruína, mas agora encontrou um lugar no qual os dois realmente podem compartilhar de um mesmo desejo.

É interessante como a série também brinca com os conceitos de amigo e inimigo, mostrando de que forma um relacionamento essencialmente abusivo pode acabar se transformando em uma rixa muito conturbada. Aqui, refiro-me à Bonnie (Liza Weil) e sua tentativa de destruir as ambições de sua ex-chefe após sentir-se traída e ser dispensada de seu serviço para um bem maior. É claro que compreendemos ambos os lados – abrir mão de uma companheira de anos e o consequente e perigoso desejo de vingança -, mas o mais interessante aqui é como, para suprir essa falta de alguém para guiá-la, Bonnie praticamente se jogou aos leões e alcançou uma suposta independência que a torna mais parecida com Annalise que qualquer outra pessoa: impetuosa, defensiva e sem escrúpulos para conseguir o que quer.

E, bom, assim como sua nova nêmeses, ela também sofre com o que comete, tornando-se frágil e se descontruindo a ponto de poder sentir aquilo que internalizou durante suas horas como uma armadura impenetrável. Agora, vemos dentro de um círculo ainda mais íntimo como essas conexões vulneráveis são reflexo de todos os traumas que presenciaram e protagonizaram no passado – seja com perdas, sacrifícios e até mesmo pseudo-redenções.

Apesar de estarem apagados frente à majestuosidade do arco envolvendo Annalise e sua tentativa de dar a volta por cima, os ex-Keating 4 estão, por conta própria, entrando em um perigoso mundo corrupto, volúvel e instável, ao investigarem a morte de Wes (Alfred Enoch), a qual aparentemente foi ocasionada pelo pai de Laurel (Karla Souza). Ainda não conseguimos pensar em um motivo palpável e crível o suficiente que possa criar um paralelo entre os dois personagens supracitados, mas esperamos que a série continue em um frenético ritmo em busca de respostas. Dentro dessa subtrama, Michaela (Aja Naomi King) e Oliver (Conrad Ricamora) também têm papéis imprescindíveis para hackear o sistema da Caplan & Gold e traçarem os acordos e transações feitas entre essa companhia e aquela comandada pelo Sr. Castillo, Antares, como forma de chegar a uma conclusão irrefutável.

O problema a ser enfrentado é o seguinte: caso eles consigam provar que ele foi responsável pela morte de Wes, o que farão com a informação? Não é como se eles já houvessem bolado um plano minuciosamente detalhado para um futuro iminente, e mesmo assim parece que essas coisas não vão importar muito. O personagem de Enoch já está morto, mesmo que não tenha caído no esquecimento – e garanto que as coisas tomariam um rumo muito mais interessante caso envolvessem algum escândalo político que apenas uma série com o dedo de Shonda Rhimes conseguiria criar.

Apesar desses deslizes, Stay Strong, Mama é um episódio bom. Até mesmo o cliffhanger e o subsequente epílogo mantém o público vidrado no mistério que gira em torno dos protagonistas – e que pode vir a ser o maior enfrentado pelos nossos anti-heróis desde a primeira temporada.

How to Get Away with Murder – 04×06: Stay Strong Mama (Idem, 2017 – EUA)

Criado por: Shonda Rhimes, Peter Nowalk
Direção: Cherie Nowlan
Roteiro: Morenike Balogun
Elenco: Viola Davis, Billy Brown, Jack Falahee, Aja Naomi King, Matt McGorry, Conrad Ricamora, Karla Souza, Alfred Enoch, Liza Weil, Charlie Weber
Emissora: ABC
Gênero: Drama criminal
Duração: 45 minutos

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