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How to Get Away with Murder está se aproximando de seu hiatus de inverno e parece ter total consciência disso. As pistas estavam sendo gradativamente apresentadas, e em momento algum a narrativa se acelerou ou freou bruscamente; o oitavo episódio, intitulado No More Blood, entrou aqui como um divisor de águas antes do finale que está mantendo o público sem dormir durante semanas. Afinal, uma vida foi tirada e Annalise Keating parece ser a grande culpada por isso. De acordo com Shonda Rhimes, a criadora da série, a ideia era apresentar um sobrevivente ao final de cada episódio. Confesso que estou com um pouco de receio: afinal, não precisa ser um gênio para riscar da lista o nome dos protagonistas e deduzir que foi a vítima do fatal incêndio. Mas Rhimes não costuma se basear na obviedade (Grey’s Anatomy e Scandal, suas outras duas séries, deixam isso bem claro). Resta-nos esperar – e as expectativas são altas.

Apesar de trilhar o mesmo caminho que seus predecessores, o oitavo capítulo decidiu não trazer clientes para a clínica pro-bono. Em vez disso, resgata a virada de Call It Mother’s Intuition e desenvolve um arco muito bem delineado. Acontece que Charles Mahoney, filho do falecido Wallace Mahoney (aquele assassinado por Frank na season finale da segunda temporada) possuía um álibi na hora do assassinato do pai, refutando o argumento de Wes (Alfred Enoch), que jurou tê-lo visto na calçada durante o interrogatório da polícia. Desse modo, o garoto seria colocado como primeiro suspeito e, além disso, traria todo o passado dos Keating 5 à tona e colocaria em cheque os novos ideais do “bom samaritano” que os protagonistas tentavam seguir.

A trama parece meio confusa, mas traz consigo um objetivo de suma importância. Como bem lembramos, as histórias e backstories envolvendo Wes não costumavam ser interessantes; muito pelo contrário, o enredo era tão monótono que nos deixava sonolentos nos primeiros minutos. Por isso não posso dizer que fiquei encantado com a sinopse ou com o início. Mas felizmente, o roteiro de Morenike Balogun conseguiu transcender as expectativas e nos presenteou com talvez não um dos melhores episódios, e sim algo muito além do medíocre.

O relacionamento entre os personagens parece cada vez submerso na tensão. Até mesmo os casos amorosos entre Michaela e Asher ou entre Oliver e Connor estão abalados com tantos ressentimentos e pesares resguardados. Desde a temporada de estreia, sabemos que os protagonistas são capazes das mais inesperadas ações para conseguirem o que desejam, e isso está afetando inclusive a boa convivência. Não sabemos mais quem é o mocinho e o vilão: nossa simpatia oscila a cada cena construída – e isso é um dos muitos motivos que tornam How to Get Away with Murder uma série tão envolvente. A personalidade dos personagens abrange tantos níveis da psique humana que nos identificamos com os traumas, dramas e ironias que nos são revelados episódio a episódio.

Outra das tramas principais que se desenvolve aqui é a relacionada a Frank. Como também sabemos, o advogado duas-caras responsável pelo assassinato de várias pessoas queridas da série retornou, e Annalise não poderia estar mais furiosa. A relação entre os dois trazia muitos conceitos dos laços mãe e filho, e vimos estas conexões quebrarem uma a uma. O perdão emerge como um dos temas-base – de forma muito oportuna, devo dizer, visto que no sétimo episódio, todos botaram para fora os sentimentos negativos e o que pensavam um do outro. Mas será que a advogada está pronta para esquecer o que aconteceu? Frank foi o responsável pela morte de seu filho e, de forma indireta, pela do marido também. Apesar de se mostrar forte para os alunos e para colegas de trabalho, suas estruturas estão cada vez mais fragilizadas. Sentimos isso inclusive na concepção do cenário: a “fortaleza” de Annalise torna-se tomada por tons mais escuros semana após semana, como se indicasse que futuras escolhas de nada mais servem: o destino é inevitável e, uma hora ou outra, a verdade será divulgada.

De qualquer modo, se ela decidisse perdoá-lo logo de cara, não teríamos história. Logo, ele deve se mostrar útil e é escalado para seguir a advogada de defesa do caso Mahoney e descobrir um modo de eliminar o álibi – que, de forma surpreendente, é a mesma mulher que lhe deu o dinheiro para atropelar o carro de Annalise há vários anos. Parece que o jogo virou, não é mesmo?

Como Frank está se encontra num arco de redenção, todo cuidado é pouco; então, não espere ver atrocidades rolando soltas pela cena, ou assassinatos a sangue frio. Ele sabe que várias coisas estão em jogo, e nesse momento é apenas um peão em algo muito maior. Sua personalidade passou por uma involução drástica até aqui, passando de um homem independente e temido para um filhote que deseja atenção e que é capaz de cometer loucuras caso não tenha controle sobre tudo – e isso reafirma inclusive a manipulação exacerbada que a advogada exerce sobre ele.

A montagem das cenas segue o mesmo modelo dos episódios anteriores, e aqui o contraste entre cores parece ainda mais vívido. Se analisarmos com cuidado o primeiro capítulo e este, vemos uma preparação cautelosa de terreno para um clímax mais que esperado.

No More Blood mostrou-se essencialmente verborrágico, até mais que seus predecessores. As cenas trazem menos movimento e mais intimismo, sugerindo que o terror psicológico será o grande catalisador da temporada. O que podemos esperar é o acerto de Rhimes e sua equipe, evitando graves deslizes e presunções equivocadas como aqueles feitos no ano anterior. E realmente não adianta: com esse tipo de história, espera-se sempre o máximo, e nunca o mínimo.

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