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É costumeiro, em muitas séries de drama – principalmente quando nos referimos à TV aberta dos Estados Unidos -, que a narrativa principal alcance seu clímax antes do hiatus de inverno, criando uma atmosfera catártica que vise a tirar o fôlego dos mais céticos espectadores e mantê-los presos para os próximos episódios e para as consequências de tal explosão. How to Get Away with Murder parece ter seguido esta mesma gama de regras, nos entregando a morte de um dos protagonistas no capítulo anterior – Wes (Alfred Enoch) – e deixando diversas perguntas no ar.

Primeiramente, devo dizer que a série aprendeu mais que nunca com seus erros no passado, inclusive com sua temporada anterior, cujas viradas na trama eram previsíveis e não tão convincentes quanto antes. E até mesmo no ano de sua estreia, o modo como as coisas se desenrolaram eram descobertas após o quarto episódio. Mas aqui, Shonda Rhimes e seu incrível time criativo resolveram apostar na cronologia para enganar a todos e fornecer falsas pistas para que o quebra-cabeça fosse resolvido. Uma jogada muito inteligente, diga-se de passagem, que afastou o show do puro novelesco para uma conspiração jurídica e homicida muito coerente.

Era de se esperar que os acontecimentos seguissem um padrão mais lento no episódio intitulado We’re Bad People – cuja chamada entra em contraste com o título do primeiro episódio (We’re Good People Now) e reflete como a personalidade intrínseca a cada um não pode ser mudada por completo. Deste modo, precisávamos saber como a morte de alguém tão próximo afetaria a vida de cada protagonista – até daqueles que não tinham uma relação saudável com ele.

Devo mencionar que a direção de arte e a escolha da paleta de cores foi de grande auxílio para a ambientação dúbia dos novos quarenta e cinco minutos da série. A opção aqui foi de tons amarelados e azulados que, em outros contextos, indicariam a existência de sociabilidade, cooperação e calmaria. Mas a cada sequência que é construída, percebemos que não há nada além de ressentimento, culpa e ódio se espalhando pelos relacionamentos. E cada uma das subtramas é montada com algo semelhante a flashbacks, os quais focam em momentos específicos entre os outros membros do “time” com Wes. Por exemplo, Annalise (Viola Davis) está presente numa cena em que seu protegido se diverte com a ex-namorada. Laurel (Karla Souza) resolve algumas questões com o amor de sua vida. Michaela (Aja Naomi King) tem uma das únicas e mais francas conversas com ele. E o mais interessante – talvez um dos pontos que mais eleve a construção do roteiro deste episódio – é que não sabemos se isso é verdade: tudo está embebido numa iluminação profusa que pode nos indicar que as cenas fazem parte de um futuro que nunca aconteceu ou de mágoas remotas.

Seja no plano palpável ou no onírico, as coisas não vão bem para nenhum deles. A advogada, antes conhecida por sua impetuosidade e força de vontade, se encontra numa posição de pura fragilidade, encolhendo-se numa cela enquanto luta para não desabar completamente. É incrível como Davis consegue manter a essência da personagem em situações de puro caos e ainda assim fornecer nuances dignas de uma atriz de seu porte.

Laurel provavelmente é a que mais sofre. Sua química com Wes era notável em cena e, quando ainda tudo parecia indo às mil maravilhas, mais um desastre abatera-se sobre sua vida. Sabemos de seu passado conturbado com a família, com o ex-namorado Frank (Charlie Weber) e com a própria identidade, cuja descendência latina torna seu desenvolvimento profissional complicado. A complexidade da personagem, há algum tempo, vem se restringindo ao extrapessoal, mas parece que as coisas estão prestes a mudar: afinal, ao que tudo indica, ela tem uma pista que pode indicar quem matou Wes e quem incendiou criminosamente a casa de Annalise.

Como citei há alguns parágrafos, a previsibilidade de How to Get Away with Murder deu uma trégua neste retorno do hiatus, mas ainda sim encontra uma brecha para se instalar. E isso acontece, como é de se esperar, nos cinco minutos finais, nos quais a trilha sonora conversa em harmonia com o ritmo do roteiro para criar um suspense angustiante, preparando-nos para o gancho final. Entretanto, o gostinho de quero mais em We’re Bad People não é animador o suficiente.

Um dos pontos mais fortes do capítulo são as sequências protagonizadas por Connor (Jack Falahee) e Oliver (Conrad Ricamora). Sem dúvida alguma, este casal, que começou a soltar faíscas desde o episódio piloto, tem um dos desenvolvimentos mais apaixonantes da série. E há alguns meses, sua relação vem se deteriorando por diversos motivos: primeiro, Connor, apesar de todos os problemas pessoais que vem enfrentando e sua clara falta de confiança no tocante a conflitos caóticos, é um personagem superprotetor que não quer que seu namorado caia nas garras de Annalise, a qual considera o mal primordial que deslanchou uma cadeia de desgraças para todos a seu redor. Entretanto, Oliver é independente e sente que sua própria presença ofusca o potencial do futuro advogado.

No midseason finale, vemos com clareza que os sentimentos um pelo outro ainda estão aflorados, ainda que eles desejem ficar separados. Mas eu, assim como a maioria do público que acompanha a série desde o começo, sabe que Connor e Oliver representam uma das poucas centelhas de esperança dentro de How to Get Away with Murder de que as coisas ainda têm como funcionar e que o destino de todos não está fadado à ruína.

Em suma, e considerando a construção narrativa desde o primeiro episódio da temporada, a série voltou com um ótimo ritmo apesar de falhar no quesito expectativa – e aqui refiro-me ao final. Ainda temos cinco episódios pela frente, e só podemos esperar que ela tenha consciência de sua própria finitude.

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