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É certo que um espectador que não foi devidamente submergido nas águas profundas de David Lynch veja em Império dos Sonhos, filme de 2006 e último trabalho do diretor antes de retornar ao comando de Twin Peaks, um filme experimental. Mas oras, não é o primeiro filme de Lynch a tratar do ambiente hollywoodiano e suas imagens. Cidade dos Sonhos trazia isso de maneira muito clara e era construído em toda uma linha narrativa bem definida, dando um quebra-cabeças na mão do espectador. Talvez, se tivéssemos de chamar o filme mais experimental de Lynch, talvez seja Eraserhead e suas representações tão caras ao círculo íntimo do diretor.

Mas em Império dos Sonhos, não se trata de ter uma narrativa sobre a refilmagem de um longa polonês amaldiçoado, nem das barreiras do sonho hollywoodiano, nem sobre a força das protagonistas lynchianas. Mesmo assim, é tudo isso, junto e misturado em um cinema em que o teto e o chão se confundem. Quer dizer, em nenhum momento as imagens do filme tocam algo do nosso consciente enquanto espectador, mesmo que nem todas essas sinapses se liguem com tanta facilidade. Há algo de Videodrome no início, com uma personagem chorando enquanto vê TV – estaria ela vendo as imagens que vemos mesmo? –; há um coro grego num grupo de prostitutas; há o drama do script do filme que a personagem de Laura Dern e Justin Theroux estão vivendo, como paira também os conflitos dessa atriz. E quem não ficaria meio pirado após a visita de uma “vizinha estrangeira” como aquela do começo do filme? – que está carregada no tipo de estranhamento que só o olho treinado nos filmes do diretor sabe identificar desde o começo.

Não existe aqui momentos de impacto, de contato com o incompreensível, como um choque de terror, e adrenalina, mas algo como uma imensa zona cinzenta. Uma zona cinzenta e chuviscada como a de uma TV. Quer dizer, em termos técnicos, não são essas gravações um enorme apanhado de pontos digitais que tentam dizer algo, como as pinceladas coloridas são para uma pintura? E Lynch parece, a cada sequência que passa, a cada retalho que insere – aquele do vidro quebrado n’A Visita de Shyamalan –, dissolver mais e mais a tinta que vai usar. E reafirma, porque outros já haviam feito, algo em extinção no cinema.

De que importa saber que tal filme não foi filmado de um jeito linear, ou de que o filme “só nasceu na sala de edição”? No final das contas, tudo nasce lá. Até mesmo o projeto mais rígido. É contra essa promiscuidade dos bastidores que Império dos Sonhos luta para conseguir se afirmar como obra de arte e não um desvio qualquer de um ou outra escola estética – última coisa que podemos pensar no cinema de Lynch. Tratando disso, o filme é deformado como nos diversos close-ups em Laura Dern, onde o claro-escuro do digital, mais até do que impressionismo de sua textura, se revela perfeitamente. Sem esquecer do uso de grande angulares para invocar o abismo em cena.

Adentremos esse buraco em que o fim é o começo e vejamos o sitcom de uma família de lebres antropomórficas. Diferente do coelhinho de Alice, essas não tem pressa alguma. O tempo funciona de outra forma. Passam roupa, sentam no sofá, atendem o telefone. E nós, espectadores, somos mecanicamente forçados a mostrar os dentes, da mesma forma que o digital modulável incha a face da protagonista.

Império Dos Sonhos (Inland Empire, EUA e Polônia – 2006)

Direção: David Lynch
Roteiro: David Lynch
Elenco: Laura Dern, Justin Theroux, Jeremy Irons, Harry Dean Stanton, Karolina Gruzka, Grace Zabriskie, Diane Ladd, Naomi Watts, Laura Elena Harring 
Gênero: Suspense, Drama
Duração: 180 minutos

 

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