Como visto no documentário Duna de Jodorowsky, as ideias que teve o artista para adaptar a obra de Frank Herbert para as telonas era tão grande, que só pode chegar à realidade no papel, num gordo volume de storyboard, todo desenhado pelo seu parceiro, o quadrinista francês Moebius. Ideias grandiloquentes que circulam desde a época, influenciando toda uma geração em termos de cinema e design relacionado à ficção científica. Para o alívio de Jodorowsky, pelo menos, Duna acabou chegando às telonas no irregular longa de David Lynch. Impossibilitado de colocar seu sonho em película, voltou-se no início da década de 80 à possibilidade de reformular todo o trabalho feito em arte sequencial. Muito dessa primeira incursão é o que encontramos sintetizado em Incal.

Trata-se da segunda obra que Jodorowsky trabalha com Jean Giraud. A primeira havia sido a capsular narrativa Os Olhos do Gato. O tamanho não dava espaço para grandes ambições, e por isso mesmo é tão bem sucedida em seus limites. Agora, nessa primeira série – que depois desembocaria em outras continuações, a última sendo concluída em 2014 –, trabalha-se com um enredo mais completo. Ainda assim, de estrutura muito simples – muito menos complexo do que pinta o senso comum ao se deparar com uma iconografia distinta. Felizmente, a narrativa não é conduzida como uma exposição de símbolos, como é a A Montanha Sagrada (1973), ainda que eles apareçam em abundância pela história.

Incal conta a história de um detetive de quinta categoria, John Difool, que tromba com um ser morinbundo numa rede de esgotos e recebe dele o misterioso artefato que dá nome ao quadrinho. John entra, então, porque assim quis o destino, como procurado por uma grande quantidade de grupos que querem apossar-se do Incal. Ao tentar esconder o objeto no estômago de sua gaivota de estimação, vendo que Deepo começa a falar e profetizar, o protagonista começa a tomar consciência dos grandes mistérios encerrados na peça. Sozinho, porém, o desleixado herói não conseguirá escapar. Por isso, alia-se à uma série de personagens: o grande soldado Metabarão (cuja arvore genealógica seria traçada depois em A Casta dos Metabarões, com Jodorowsky e Juan Giménez), o andrógeno Solune, a rebelde Tanatah e seu assistente Matador, além da belíssima Animah.

Não fossem os quadros de Moebius, a obra não seria citada entre as mais influentes do gênero. Essa criatividade lúbrica do desenhista, que se alastra pelas páginas é, sem dúvidas, o que garante a boa mistura de um universo complexo, estranho e ainda muito familiar. Inclusive, em relação à outros universos de ficção científica, é em Incal que Moebius faz um trabalho bem palatável, com momentos de beleza estonteante mesmo quando há poucos detalhes. No caso, vale apreciar as cores originais da obra (da maneira como saiu, no Brasil, no volume único Incal Integral, e não nos três encadernados anteriores, com uma pasteurizada pintura digital). É um momento distinto, em que as cores revelam outra exuberância da arte de Moebius, até mais cartunesca, diferente do seu detalhismo característico, em preto e branco.

Das hipérboles, hoje mais típicas, de uma sociedade futurista e distópica em que se misturam seres de toda a galáxia, Incal constrói sátiras predominantemente políticas, sobre a organização social, as autoridades e cultos. O contraponto, a iluminação, é obtida através da transcendência proporcionada pelo Incal aos protagonistas. Nessa mistura de um tom leve e outro mais místico reside o maior defeito do quadrinho, o de não saber construir curvas suaves entre eles. Nessas incômodas protuberâncias, o roteirista atesta sua dificuldade ainda de construir uma narrativa de todo coesa. Incal é muito importante, mas não é a obra mais madura dos seus autores.

Nos nomes, já se anunciam boa parte do conteúdo da história. John Difool mistura John Doe (o nosso Zé-Ninguém) com o Louco (o Fool, primeiro arcano maior do baralho de tarô), indicando um personagem em iniciação, próximo de cair no “abismo” da vida. Não por acaso, a narrativa começa acompanhando essa queda de John no Beco dos Suicidas, desencadeando uma série de mortes. É arremessado por soldados em busca do Incal, como parte de um interrogatório. Chega lá, porém, porque entrou em contato com o Incal após escoltar, por uma boa quantia em dinheiro, uma aristocrata por uma zona de puro bacanal.

Partindo disso, seguimos uma narrativa essencialmente linear em que John é desafiado a traçar um novo caminho para sua vida. Porém, como é de sua natureza medíocre como detetive “classe R”, recusa novas perspectivas até o fim, mesmo após tantas experiências místicas.

No final, diferente de seus colegas, que sacrificam-se pelo destino imposto pelo Incal (In Call, o “chamado interior”), John sobrevive como indivíduo, “testemunha eterna”, “a gota que nunca se funde no oceano” – como o chama o Jovem Tempo, em direta referência à star child (além-do-homem) de 2001 – Uma Odisseia no Espaço. Difool segue, então, seu destino mítico como um “tolo”, num eterno e cíclico início. Recusa se fundir ao mundo, atitude contrária à de Motoko ao final de Ghost in the Shell. Assim, Incal encontra um encerramento adequado, que casa bem com o tom menos filosófico e mais lúdico.

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