Quando Indiana Jones e seus amigos cavalgaram em direção ao pôr do sol nos segundos finais de A Última Cruzada, parecia um encerramento digno e poético para as aventuras do arqueólogo. Mas, sendo Hollywood uma máquina que sempre acaba trazendo ícones do passado de volta, e também o clamor da fanbase que descobria a internet nos anos 2000, era certo que veríamos o herói de Harrison Ford mais uma vez, despertando assim uma onda de resgate a personagens clássicos do cinema, vide Rocky Balboa, Rambo IV, Tron: O Legado, Star Wars: O Despertar da Força, Blade Runner 2049 e até o próprio Indiana Jones, que retornará para uma quinta aventura em 2020. Mas antes de a fase Disney da LucasFilm oferecer seu capítulo de Jones, o aventureiro dividiu opiniões com seu último filme, O Reino da Caveira de Cristal. A verdade é que, tendo baixado a poeira após 10 anos de seu lançamento, é que o quarto filme da saga não deve muito a seus antecessores.

A trama é situada em 1957, com a Guerra Fria entre os EUA e a União Soviética a todo vapor. Nesse cenário, o envelhecido Henry Jones Jr. (Ford) é forçado à voltar ao campo quando uma expedição russa liderada pela ambiciosa Irina Spalko (Cate Blanchett) parte em busca de uma misteriosa Caveira de Cristal, que pode estar relacionada com civilizações antigas e até mesmo extraterrestres. Também enrolado nesta trama, está o jovem Mutt Williams (Shia LaBeouf) que procura a ajuda do arqueólogo após sua mãe, Marion Ravenwood (Karen Allen) e seu mentor Harold Oxley (John Hurt) serem capturados após irem atrás do mesmo artefato.

The Outer Limits

A maior reclamação que escuto sobre O Reino da Caveira de Cristal é sobre não ser uma história de Indiana Jones, por ser “absurdo” que o arqueólogo lidasse com criaturas alienígenas, por assim dizer. Bem, as histórias de Jones sempre tiveram uma inspiração assumida nos matinês e pulp fictions dos anos 40, e dado o salto temporal obrigatório de 19 anos, era evidente que encontraríamos Indy na Guerra Fria dos anos 50. Uma década particularmente popular para os romances de ficção científica, então o roteirista David Koepp é bem feliz e certeiro em utilizar esses elementos como parte da nova história; ainda mais levando em conta toda a paranoia nuclear e as teorias da conspiração envolvendo o infame Caso Roswell e o mistério da Área 51. É o tipo de episódio histórico que tem o nerve de Indiana Jones, e ver referências do texto que confirma a participação do arqueólogo na escavação e até encontros com Pancho Villa, só enriquecem e expandem seu universo – afinal, existem estudos e pesquisas conceituados ligando as civilizações maia com a presença de vida fora da Terra, e Indy só trabalha dentro dessa hipótese.

Seguindo essa linha anos 50, O Reino da Caveira de Cristal traz uma antagonista de peso à franquia na forma de Irina Spalko. Sem dúvida a vilã mais impactante da série, Cate Blanchett preenche Spalko com um sotaque pesadíssimo e delicioso de se ouvir, aliado a um corte de cabelo que imediatamente nos chama a atenção, e cuja franja reta possibilita à atriz um trabalho fenomenal com os olhos. Claro, é uma personagem caricata e exagerada, com uma paixão bizarra pelo oculto e poderes mentais, mas Blanchett se diverte e traz muito charme e presença, sempre acompanhada de um tema musical charmoso e icônico, fornecido novamente pelo mestre John Williams. De forma similar, adoro como o design dos seres extradimensionais são do mais básico possível: um ET marciano e uma nave que literalmente é um disco voador, da mesma forma como eram descritos e ilustrados em publicações e filmes da época. É uma decisão corajosa do designer Guy Hendrix Dyas, em pleno 2008 voltar para o visual mais minimalista possível de uma embarcação alienígena, e até compreendo a aversão de alguns ao contemplar a tomada do Indy observando sua decolagem.

Da mesma forma como A Última Cruzada apostava em uma aventura de pai e filho, este Indy também aposta em uma trama familiar, trazendo não só o filho de Indy, Mutt, mas também resgatando Marion, de Caçadores da Arca Perdida. Não é uma fórmula vencedora como o hilário embate de egos entre Ford e Sean Connery no terceiro filme, afinal é um nível altíssimo a ser superado, mas LaBeouf faz um bom trabalho aqui; afinal, nesta fase o ator ainda não enfrentava os “problemas com a fama” ou sua nova filosofia underground. Mas é realmente maravilhoso rever Karen Allen, em tão boa forma e com o mesmo sorriso estelar que conquistou Indy no primeiro filme, 26 anos antes. E, claro, Harrison Ford parece não ter envelhecido em nada seu espírito. O mesmo humor, tiradas irônicas e reações rápidas de Indy estão de volta, e Ford se diverte à beça ao zombar dos “poderes” de Irina Spalko ou até mesmo a forma cansada e rabungenta com que exclama “russos!” em suas primeiras falas do longa. Vale também mencionar que, embora Indy não entre tanto em ação aqui, há uma persistência em utilizar dublês – ou próprio Ford – e um bonecão digital do arqueólogo felizmente é algo que a franquia ainda não enfio sob nossas goelas.

Nuke the Fridge

Claro, não dizendo que Indy 4 seja um filme irretocável, e há diversos elementos que realmente fazem entender o ódio de alguns pelo projeto. A franquia nunca foi estranha para efeitos visuais, desde tela verde até os estágios mais primordiais de CGI, mas sempre apostou em efeitos práticos, maquiagens, stop motion e bonecões para executar suas cenas mais surreais. Aqui, Spielberg se apoia completamente em CGI, já com o pé na porta ao abrir o longa com uma fuinha nitidamente digital, além das formigas carnívoras que não causam o mesmo arrepio que as cobras, insetos ou ratos todos reais provocavam na trilogia. É algo que acaba incomodando, especialmente durante a longa perseguição de carros em uma floresta tropical, onde o uso de um chroma key é berrante e artificial, além daquela sequência absolutamente ridícula envolvendo Mutt se balançando pelos sipós com um grupo de macacos – o mais próximo de Jar Jar Binks que Indiana Jones já chegou, e acho que todos concordamos sobre a identidade do responsável por tal ideia ideia…

Há também a famosa cena da geladeira nuclear. Confesso que ver Indy fugindo da Área 51 apenas para cair em uma casa falsa para servir de testes nucleares em Nevada é das mais divertidas, mas até eu achei um pouco forçado quando o arqueólogo se esconde em uma geladeira chumbada para escapar da explosão; e ainda sai voando intacto após o impacto. Não por acaso “nuke the fridge” virou o equivalente desse século para “jump the shark”, no que diz respeito aos exemplos mais absurdos da suspensão de descrença. Mas, novamente, venho usar os filmes antigos como defesa: o mesmo Indiana Jones sobreviveu a uma queda de avião nas montanhas ao usar um bote inflável para amortecer sua queda e ainda sair deslizando pela neve. São situações diferentes, claro, mas não foi de agora que Jones adquiriu um instinto Dominic Toretto de sobrevivência às leis da Física.

De Volta ao Jogo

Steven Spielberg estava em uma fase muito diferente de sua carreira em 2008 do que quando assumiu o arqueólogo pela primeira vez. Buscando tipos de história mais adultos e maduros, Spielberg acabara de sair do pesado Munique, além de já ter experimentado dramas históricos pesados com O Resgate do Soldado Ryan, Amistad e A Lista de Schindler, e até mesmo o blockbuster Guerra dos Mundos tinha uma roupagem sombria e assombrada pelo pós-11 de Setembro. Então, era curioso ver como Spielberg se sairia ao voltar para esse tipo de cinema mais leve e despretensioso, e felizmente o diretor mantém seus mesmos traços. Mesmo que prejudicados pelo CGI evidente, seu trabalho com câmera segue excepcional, assim com sua habilidade em criar imagens icônicas; como a arrepiante tomada em que vemos a sombra de Indiana catando o chapéu do chão e colocando-o novamente pela primeira vez em 19 anos; até mesmo o fotógrafo Janusz Kaminski manera em suas luzes estouradas e o grão forte para se assimilar ao visual dos três filmes anteriores, incluindo o icônico jogo de sombras.

A admirável como Spielberg consegue colocar tanta informação em um único quadro, servindo tanto como dispositivos para ilustrar a personalidade de seus personagens ou simplesmente provocar um humor discreto. Por exemplo, o plano médio aberto onde Indy e Mutt conversam na lanchonete, onde uma grande quantidade de exposição está sendo apresentada, e vemos Mutt casualmente mergulhando seu pente na bebida de um universitário na mesa ao lado (assim como sua reação indignada e um diálogo inaudível com sua amiga) e roubando uma cerveja da bandeja de um garçom, apenas para que Indy a coloque de volta em questão de segundos. Nenhuma dessas ações é destacada verbalmente – apenas com gestos e olhares – e os personagens jamais tiram o foco do diálogo em questão. Apenas um exemplo do tipo de composição que Spielberg faz aqui, e até mesmo os críticos mais fervorosos são forçados a reconhecer o trabalho primoroso do diretor, que nunca parece enferrujar.

Realmente acredito que O Reino da Caveira de Cristal seja um filme subestimado. Não é o melhor exemplar de Indiana Jones, e definitivamente força nossa amizade com algumas ideias questionáveis e um uso despirocado de computação gráfica, mas acerta ao amadurecer os personagens e nos surpreender com suas evoluções, além de oferecer um mistério saboroso e uma belíssima homenagem ao cinema de ficção científica B dos anos 50. Por mais que hajam seus defeitos, esse retorno tardio do arqueólogo é tão Indiana Jones quanto os filmes anteriores.

Indiana Jones e o Reino da Caveira de Cristal (Indiana Jones and the Kingdom of the Crystal Skull, EUA – 2008)

Direção: Steven Spielberg
Roteiro: David Koepp, baseado no argumento de George Lucas e Jeff Nathanson
Elenco: Harrison Ford, Cate Blanchett, Shia LaBeouf, Karen Allen, Ray Winstone, JoHn Hurt, Jim Broadbent, Igor Jijikine
Gênero: Aventura
Duração: 122 min

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