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Um dos últimos longas da vida de Éric Rohmer é também um de seus mais controversos pela abordagem histórica corajosa e fora do convencional sobre uma das revoluções mais sanguinárias da História: a Revolução Francesa.

De muitas maneiras, essa é uma obra fora da curva para o diretor habituado a suas ficções dramáticas contemporâneas sobre problemas intrinsicamente ligados ao viver e as paixões. A abordagem aqui é histórica inspirada nas memórias de Grace Elliot, uma aristocrata inglesa que vivia em Paris enquanto a Revolução foi se transformando em um movimento repleto de ódio até a queda de Robespierre.

Segredos e Confissões

Sempre focado em personagens hipócritas, Rohmer não deixaria de focar sua ácida filmografia em um movimento que traiu completamente os seus valores em questão de poucos anos. A Inglesa e o Duque é sobre a opressão que a pequena aristocracia sofreu nos momentos mais imprevisíveis da revolução.

Adaptando os relatos de Grace (Lucy Russell), Rohmer foca nas muitas conversas ideológicas que trocou com seu amigo Duque de Orléans, primo do rei Luís XVI. Enquanto ela é uma fervorosa defensora da monarquia, o Duque aprova as mudanças, mesmo sem saber que isso pode lhe custar a cabeça posteriormente.

Esse é um dos filmes menos apaixonantes e mais filosóficos de Rohmer. Conferindo uma natureza episódica para a narrativa, temos diversas passagens envolvendo situações perigosas para Grace como uma centrada no acobertamento de um fugitivo, inimigo do Duque. Ou com outras envolvendo decepções na forte amizade que os dois compartilham.

Respeitando o retrato de época, Rohmer adequa os diálogos com aquela formalidade excessiva da aristocracia, além de já tornar o choque ideológico em algo complexo para os personagens em suas apresentações. Estranhamente, o cineasta adota um ar teatral no filme inteiro. Portanto, algumas abordagens para revelar motivações ou sentimentos não são sutis apelando para monólogos expositivos.

Apesar disso, é impossível ficar indiferente ao destino dos personagens que se revelam sim bastante interessantes e cheios de opiniões para dar. Por isso, é muito importante que o espectador tenha conhecimento moderado sobre a década que envolve a Revolução, pois, caso contrário, ficará perdido. Rohmer não se preocupa em dar breves introduções ou explicar quem são as figuras históricas retratadas.

Essa abordagem nos diálogos, aliás, obviamente não é a especialidade do cineasta, já que temos pessoas mais adultas se queixando de problemas em uma situação muito distante da que vivemos. Justamente por isso, é fácil não sentir o mesmo vigor nas conversas como nos casos de obras-primas de Rohmer como O Joelho de Claire ou Amor à Tarde.

Anos se passam até que enfim o conflito que traz o perfeito retrato tirânico chegue e, nessa altura, já estamos no final do filme. Além de ser uma experiência tediosa – uma das primeiras que encontrei na filmografia de Rohmer, a natureza repetitiva dos diálogos se torna constante não focando também na interação de Grace com seus empregados para ter maior amplitude sobre os efeitos da Revolução no cidadão comum.

Choque de Estilos

É surpreendente o quanto Rohmer consegue se renovar e, ao mesmo tempo, se ater fielmente ao seu estilo. Em uma raríssima ocasião, o diretor aposta no ar teatral, deixando cenas inteiras – a maioria constituída por diálogos, correrem com somente pouquíssimos planos. Não há nenhum artifício cinematográfico utilizado para manipular a nossa emoção o que, consequentemente, torna A Inglesa e o Duque em um filme bastante frio e quase indiferente ao que ocorre.

Rohmer nunca havia trabalhado com a violência gráfica antes e, quando esta surge em um pequeno segmento, há muita artificialidade. Sabendo que esse não seria o caminho ideal para abordar o tema, o diretor então nos mantém em uma sucessão de cenas internas nas casas de Grace, afetando o ritmo do longa entre o vai-e-vem constante das visitas do Duque. Apesar de conseguir trazer o retrato da imobilidade que a aristocracia sofreu nas mãos dos revolucionários, virando prisioneiros antes mesmo de ir para a cadeia, isso tem grande potencial de prejudicar a experiência de quem assiste.

Nitidamente, trata-se de uma produção pequena. Visando impressionar com cenários simples, mas requintados, Rohmer utiliza uma técnica de reconstrução digital da Paris do século XVIII. É algo arriscado que não funciona sempre, mas o diretor tem um cuidado estético de conferir um filtro visual que aproxima as criações digitais de elementos pintados. Ou seja, mesmo que nada pareça natural, temos um toque artificial agradável de assistir.

A encenação de A Inglesa e o Duque é possivelmente a mais rígida dos filmes de Rohmer até esse ponto. Com pouca ou nenhuma mobilidade, os atores dão pequenos passos e se sentam. Limitado pelos cenários digitais que só oferecem a ilusão de profundidade, nem mesmo as externas conseguem ser mais interessantes.

O ápice criativo da obra trata-se de duas ótimas cenas. Uma envolvendo um modo criativo de acompanhar a execução do rei, através de uma luneta e, depois, no julgamento absurdo que Grace sofre diante de um tribunal “igualitário” até a chegada de Robespierre. Ótimo cinismo visual que exprime a grande inteligência que Rohmer preservava mesmo em suas últimas obras.

Verdades não ditas

Mesmo tedioso e repetitivo, A Inglesa e o Duque traz um retrato muito raro de qualquer evento histórico: a versão dos perdedores. A crítica à Revolução se faz pertinente e até mesmo visionária, pois hoje, o conturbado período passa por um intenso reestudo histórico sobre os eventos opressivos que se instalaram dando origem a uma monarquia diferente.

Direcionando um grandioso evento, Rohmer traz um belo retrato sobre a vida de uma inglesa que viu perder tudo e todos por conta de uma psicose disfarçada como dano colateral. Mais que uma adaptação de um período importante da História, se trata dos pequenos requintes de humanidade nas horas mais escuras.

A Inglesa e o Duque (L’anglaise et le Duc, França – 2001)

Direção: Éric Rohmer
Roteiro: Éric Rohmer, Grace Elliot
Elenco: Lucy Russell, Jean-Claude Dreyfuss, Charlotte Véry, Alain Libolt, Marie Rivière
Gênero: Drama histórico
Duração: 129 minutos

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