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“O policial bom não dorme pois falta uma peça do quebra cabeça. O policial ruim não dorme pois tem culpa na consciência”.

No momento que essa frase é dita em Insônia, remake realizado por Christopher Nolan, o filme confirma sua intenção. Será ele um mistério policial? Ou um estudo de seu personagem central? Ao escolher a segunda alternativa, o suspense se aproxima de uma obra como Os Suspeitos, de Denis Villeneuve. Um caso policial genérico e previsível, contado através de perspectivas mais interessantes. Como já mencionado, é um remake, então as sacadas aqui encontradas não são mérito dessa versão e sim do original norueguês de 1997, dirigido por Erik Skjoldbjaerg, que trazia Stellan Skarsgard como protagonista. Porém, a execução dessas sacadas é competente nas mãos de Nolan, mesmo que seja seu trabalho menos chamativo e bem arquitetado.

A trama começa, convencionalmente, com dois detetives de Los Angeles, Will Dormer (Al Pacino) e Hap Eckhart (Martin Donovan), em um avião indo em direção a Nightmute, cidadezinha no Alaska. Uma garota foi espancada e assassinada, o caso passado a eles. Começam então a investigação, que é trazida de maneira rápida e até levemente desinteressada pela montagem apressada de Dody Dorn (que trabalhou previamente com Nolan em Amnésia). Quando investiga a casa da vítima, a primeira sacada, sem relação alguma com o caso: aquele dia claro é, na verdade, 10 horas da noite. Aquela região se encontra em um ciclo de 24 horas de luz do dia. Isso traz, por um momento, o elemento da insônia sugerido pelo título. Com a claridade constante, Will não consegue dormir direito.

O caso continua e mais pistas são investigadas, levando a um suspeito e uma operação de captura, que termina em um acidente, um erro de Will que o atormentará de lá pra frente. É nesse momento que a obra ganha força, alterando seus conceitos. Will continua a não dormir, atormentado pela culpa de seus atos. Os flashes trazidos pelo filme demonstram esse incômodo com o que foi feito, tirando o sono do personagem e o estabelecendo em um caminho de deterioração mental e moral. Se ganha também nova perspectiva sobre o filme, antes do acidente. Afinal, os flashes acontecem desde a primeira cena. O que representariam? Culpa na consciência?

Não pretendo revelar mais detalhes sobre isso, pois esse sim é o único mistério do filme: os atos passados de Will, sugeridos levemente em diálogos com seu parceiro. É o único mistério, mas ainda não o foco. Will é o seu centro, sendo moldado por tudo que o cerca. Inclusive por um dos suspeitos, Walter Finch (Robin Williams), um escritor de uma cidade pequena próxima dali. Mesmo com todos esses detalhes e sacadas, de ser um filme sobre um personagem não exemplar e uma espiral de decisões ruins, a condução de tudo é genérica. A direção de Christopher Nolan não se destaca dos inúmeros suspenses similares da época, sendo, como dito, genérica. O uso dos flashes pode até ser interessante num nível do roteiro, mas na tela em si não surpreende, às vezes simplesmente ilustrando o que já está sendo dito no diálogo.

Nesses casos, o filme parece inseguro se sua audiência consegue entender e extrair informações do diálogo em si, abdicando da sutileza. A direção é decente, competente, mas não se destaca e ainda mais decepciona ao analisarmos do ponto de vista de 2017, quando Nolan está aparentemente no ápice de suas habilidades. Claramente era um projeto de estúdio onde ele, novo talento, é contratado para refazer um sucesso do cinema europeu, mas agora com dois ícones do cinema norte-americano, Pacino e Williams.

São os atores e quase todo o resto que se destacam em Insônia. Al Pacino transmite bem a mudança em seu personagem ao longo da semana em que a história se passa. Um detetive confiante, charmoso e de pensamento rápido, Pacino traz uma aura de carisma ao início, eventualmente a diminuindo ao mesmo tempo que seu personagem passa dias sem dormir, se corroendo pela culpa e os delírios de uma vida sem descanso. Ao final, é quieto, desanimado, desconcentrado, uma atuação sonolenta das melhores. Entre os coadjuvantes, Robin Williams está excelente, trabalhando muito bem com um roteiro mais sério que seu costume. É uma atuação contida, que parece ainda mais contida ao levarmos em conta seus outros papéis. Williams convence com a seriedade de seu personagem, nos fazendo esquecer de seus outros papéis e o aceitando como Walter Finch. Um grande ator, que faz falta.

Hilary Swank faz um trabalho competente como Ellie Burr, detetive de Nightmute, admiradora de Dormer e seus casos. Sua personagem não traz tantas nuances, sendo a idealização de um personagem novato e inocente. Ainda assim, é uma personagem interessante em seu comprometimento e eficiência, não sendo diminuída pelo roteiro mesmo com sua relativa simplicidade. O elenco faz um bom trabalho com o roteiro dado. Entre as categorias técnicas, a fotografia de Wally Pfister é o que mais chama a atenção. Trabalha muito bem com a constante claridade do ambiente trazido pela narrativa e outros detalhes como a neblina em uma das cenas-chave do filme. É mais simples que a fotografia realizada em suas futuras colaborações com Nolan, sendo elegante mas não exatamente surpreendente em retrospecto.

A trilha de David Julyan, por outro lado, não se diferencia e nem pontua memoravelmente as cenas, parecendo ser um complemento e apenas isso. Em comparação com suas outras colaborações com Nolan, desde o curta Doodlebug até Amnnésia e O Grande Truque, é um trabalho pálido. E esse pensamento se traduz no veredito. O saldo final é, então, uma obra que consta como a pior de Christopher Nolan, pelo menos para mim. Não faz o suficiente para ser memorável, apenas se mantendo no campo da competência. A trama se diferencia, sim, com a mistura de seus elementos, mas sua condução é banal, sendo salva pelo trabalho dos atores envolvidos (e a direção desses atores). Ainda é um ponto positivo na carreira do diretor, trazendo a ele uma oportunidade de trabalhar com atores extremamente talentosos como Pacino, Williams e Swank.

Além disso, garantiu um futuro projeto com a Warner, sobre certo bilionário que se veste de morcego à noite…

Insônia (Insomnia, EUA/Inglaterra – 2002)

Direção: Christopher Nolan
Roteiro: Hilary Seitz, baseado no filme escrito por Nikolaj Frobenius e Erik Skjoldbjærg
Elenco: Al Pacino, Hilary Swank, Robin Williams, Martin Donovan, Paul Dooley, Nicky Katt
Gênero: Suspense
Duração: 118 min

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