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Após o surpreendente sucesso de Las Acaciaso cineasta argentino Pablo Giorgelli retorna ao cenário internacional com Invisívellonga que conta a história de uma jovem grávida em dúvida sobre o aborto. Desenvolver um tema moral rotineiramente associado às discussões políticas é sempre um desafio, uma vez que o risco de incorrer em generalizações incompatíveis com a complexidade do assunto e de culminar em defesas acaloradas e desinteressantes de um dos lados ideológicos são grandes. Felizmente, mostrando a segurança de um artista experiente, Giorgelli foge de todas essas armadilhas e entrega um filme duro, bonito e brutalmente real.

Mostrando saber que, antes de ser um possível retrato social ou um comentário geral sobre o aborto, o seu filme é sobre uma individualidade – a da protagonista -, o diretor constrói com maestria o microcosmo da personagem, a ponto de, no final, em um daqueles momentos definitivos na vida de qualquer pessoa, conheceremos com exatidão quais são os sentimentos, temores e dúvidas que a habitam, além das circunstâncias que a colocaram naquela situação específica (são raras as vezes em que ficamos imaginando como serão os próximos anos de uma persona cinematográfica).

Aliás, é só a partir dessa construção dramática cuidadosa que surge uma camada extra, caracterizada por um comentário social relevante, que se aproxima muito mais da constatação de um estado de coisas do que de uma denúncia. Desenvolvido, majoritariamente, como o universo cujas características contribuem – positiva e negativamente – para a formação de sua personalidade, o ambiente que rodeia a protagonista também funciona como o retrato de uma parcela da comunidade argentina, mais precisamente, o bairro de La Boca, formado, em sua grande maioria, pelas novas gerações das famílias de imigrantes, quase todos seres “abandonados” por um Estado que promete mais do que cumpre.

Pertinente, essa caracterização chama a atenção pela forma como é realizada. Em um filme no qual a palavra aparece comedidamente e a imagem é composta para expor uma intimidade (nesse sentido, as expressões e os olhares da Mora Arenillas são essenciais), a realidade externa se mostra presente, principalmente, através do trabalho do extra-campo e do design de som. São a partir destes que ouvimos as notícias de um país interessado em assuntos que passam longe dos problemas imediatos enfrentados pelos cidadãos e as vozes dos professores inatentos aos dilemas de seus alunos. Em resumo, na estética que recria imageticamente o mundo interior de uma jovem, o Estado é apenas um barulho vindo de fora.

No entanto, acima desse conteúdo social, talvez esteja o registro de uma particularidade capaz de abarcar um universal determinado: o da juventude atual. Essencialmente, a protagonista é uma típica jovem dos dias de hoje: não se interessa pela escola, não gosta de ler, é sexualmente ativa e evita criar muitos laços emocionais, porém, assim como tantos outros da mesma idade, carrega um corpo de emoções indefinidas e confusas, nunca trazidas à tona em razão de uma comunicação sempre comprometida pelas cacofonias das grandes cidades, as quais calam inúmeras vozes, relegando-as a se pronunciarem internamente (daí surge a lógica visual de Giorgelli, interessada em ilustrar os sons internos e, através da distância entre a câmera e a personagem principal, a incomunicabilidade moderna).

Assim, Invisível se configura como um filme preocupado, inicialmente, com a construção da protagonista e do seu universo, para, no fim, além dos méritos intrínsecos da história, também funcionar como um quadro da juventude e da Argentina atuais. Como camadas que vão se revelando aos poucos, a estrutura da segunda empreitada de Giorgelli na direção nunca permite que o espectador se torne um espectador passivo. Pelo contrário. Faz-lhe um convite irrecusável para sentir e pensar.

Invisível (Invisible, Argentina – 2017)

Direção: Pablo Giorgelli
Roteiro: Pablo Giorgelli
Elenco: Mora Arenillas, Diego Cremonesi, Paula Fernandez Mbarak
Gênero: Drama
Duração: 90 min

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