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Não se deixe enganar, Jackie Brown é o melhor filme da fase noventista de Quentin Tarantino. Preso às atribulações narrativas de seu livro-base – Rum Punch, de Elmore Leonard – e a obrigação auto-imposta de reviver a carreira de Pam Grier, o diretor e roteirista controla o sadismo pueril usual de seus dois sucessos passados e investe em um objetivo mais simples, maduro e digno: o de contar uma história.

Por mais que o blaxploitation seja um prato cheio para o encaixe da violência transloucada de Tarantino, o autor opta por debater complicações temáticas como o peso da idade, a perda de perspectiva e o amor. Pode parecer pouco característico, mas tratam-se de interesses sinceros.

Abrindo o longa acompanhando sua protagonista pelo aeroporto através de longos meios primeiros planos de perfil e contra-plongées, o diretor já mostra se tratar de seu trabalho de câmera mais denso e consciente até então e de seu planejamento musical mais concordante com suas intenções de escrita ao som de “Across 110th Street”.

Afinal, sua musa requer o tratamento necessário para que seja o centro de seu estudo. É a personagem que manipula outros personagens e que é manipulada pela câmera. Ausente durante boa parte do primeiro ato, Jackie Brown é a primeira a agir frente à situação que se encontra com desejo de mudança após avaliar seus status mundanos. É a personagem não-passiva com quem Tarantino sonhava.

Todo o núcleo do apartamento de Ordell Robbie – personagem excêntrico e divertidamente caricato de Samuel L. Jackson – é composto de personagens sem perspectiva e grandes ambições. Robert De Niro dá vida a um ex-presidiário inerte e inexpressivo e Bridget Fonda a uma jovem desinteressada e viciada. Do outro lado, Michael Keaton faz as vezes do agente da lei comum do gênero e Robert Forster do homem que enxerga em Jackie, além de uma atração amorosa, uma oportunidade de realizar algo significativo além do que seus arrastados anos de vida puderam proporcionar.

Com o tabuleiro da mediocridade armado, cabe à Jackie movimentar as peças e brincar com a percepção de seus jogadores quanto a um audacioso golpe legal e monetário. A dedicatória à sua presença vai desde registros inteiros de caminhadas, câmeras no ombro, close-ups em suas expressões até a cadência de seu ritmo narrativo que se rende à sua jornada e ao maquinário do plano, alongando determinadas sequências que caem no risco de se tornarem enfadonhas aos fãs joviais do diretor.

Quebrando sua parceria com Andrzej Sekula e com o auxílio de seu novo cinematografista, Guillerme Navarro, e designer de produção, David Wasco, Tarantino exprime uma atmosfera aconchegante, aquecida e confluente com a lógica visual de seus trabalhos anteriores mas com o valor agregado da homenagem setentista, resultando em seu longa mais visualmente refinado até então. O figurino, em especial, ocupa um espaço importante na hora de definir personagens e suas personalidades. Enquanto os coadjuvantes carecem de vestimentas chamativas, Jackie, por outro lado, é realçada através da imponência do azul, do preto ou do branco e Ordel Robbie, de um amarelo exaltado.

Aliás, o vilão de Samuel L. Jackson ganha contornos interessantes ao pensar ser o único capaz de rivalizar com a astúcia de Jackie e achar que dificilmente seria manipulado. Mesmo menos charmoso e com menos camadas do que Jules Winnfield, seu personagem em Pulp Fiction, Jackson brinca com a histeria de Ordell e sua quase inocência na transmissão de sua segurança em uma situação insegura. Não à toa seu primeiro encontro com Jackie se dá por ameaças, armas apontadas e a ausência de luz, assim como seu último com consequências fatais e que, apesar de composto por variações situacionais, ainda evidencia a posição de controle de Jackie. Luzes apagadas nunca tiveram tanto significado em um filme do diretor.

Visivelmente amadurecido e com intenções mais louváveis enquanto artista, Tarantino injeta uma sobrevida ao seu modus operandi e tenta induzir o público à reflexão e não ao choque a respeito da jornada de sua musa após o término da história. Logo depois de presenciarmos um close take de quase 2 minutos em que vemos a face entristecida de Pam Grier dirigindo rumo a uma nova etapa sem perspectiva de sua vida, apesar do êxito de seu plano, notamos a falha de uma simples correspondência amorosa posterior à 2 horas de criação de expectativa em relação ao personagem de Robert Forster.

Certamente um atestado mais valioso do que tiroteios vazios em armazéns ou violações sexuais por agentes da ordem. Não redefine o gênero mas aproveita algumas de suas melhores possibilidades.

Jackie Brown (EUA, 1997)

Direção: Quentin Tarantino
Roteiro: Quentin Tarantino, baseado na obra de Elmore Leonard
Elenco: Pam Grier, Robert Forster, Robert De Niro, Samuel L. Jackson, Michael Keaton, Bridget Fonda, Michael Bowen, Chris Tucker, LisaGay Hamilton
Gênero: Drama
Duração: 134 min

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