Às vezes estamos tão imersos em uma realidade que nem percebemos o tempo passar. Por exemplo, ao me informar sobre a proposta deste Jogador Nº 1, minha primeira reação foi achar a ideia um tanto atrasada, visto que games de realidade virtual e o efeito do Second Life eram novidades apenas no passado. Porém, um segundo de reconsideração nos traz à óbvia constatação de que vivemos sim em um ambiente virtual, à frente de nossos smartphones, whatsapps e redes sociais. Mesmo não sendo um videogame, é uma realidade que acaba tornando a obra literária de Ernest Cline relevante e ainda atual, mesmo que seja um viés mais próximo do entretenimento e da diversão escapista do que um estudo sociológico – ainda que esta característica esteja presente.

Entra o lendário cineasta Steven Spielberg, que no passado já foi conhecido como o mestre do entretenimento, e também da diversão escapista. O Spielberg do século XXI é um muito diferente de sua fase nas décadas de 70 e 80, visando uma aproximação do estilo mais sóbrio e classudo de John Ford, e também escolhendo temas mais “importantes” e concentrados em eventos históricos; sem nunca perder seu toque de mestre, claro, e nos rendendo obras do calibre de MuniqueLincoln e Ponte dos Espiões. É de se admirar que, ao assumir a adaptação de Jogador Nº 1, Spielberg reencontre seu espírito mais jovem e mostre-se capaz de dirigir uma aventura intensa e de ritmo incessante, com toques que só o responsável por Indiana Jones seria capaz de realizar.

A trama nos apresenta ao ano de 2045, onde temos mais uma variação do planeta vivendo em algum tipo de distopia não esclarecida, com conjuntos habitacionais deploráveis e um modo de vida não muito saudável, com o protagonista definindo como “uma população acomodada e que desistiu de tentar superar os problemas”. Parte disso também se dá ao sucesso do OASIS, um jogo de realidade virtual criado pelo excêntrico James Halliday (Mark Rylance), que, após sua morte, anuncia que deixou uma série de pistas escondidas no jogo, e quem as encontrar poderá obter controle do game e de sua bilionária fortuna. Nesse cenário, o jovem Wade Watts (Tye Sheridan) é um dos muitos que tentam descobrir o segredo, lutando ao lado de um grupo de rebeldes para obter sucesso antes da maléfica corporação IOI, liderada pelo inescrupuloso Nolan Sorrento (Ben Mendehlson).

Upgrade do blockbuster americano 

Jogador Nº1 é um sonho molhado para os fãs da cultura pop. Através da proposta de se criar um mundo virtual que pode ser populado com absolutamente tudo o que o jogador imaginar, o roteiro de Zak Penn e do próprio Cline se dá na liberdade de trazer diversos personagens e ambientes de filmes, seriados e jogos do imaginário popular, o que pode ser definido como o cartão de visitas da obra. O protagonista dirige um DeLorean de De Volta para o Futuro no OASIS, enquanto seu melhor amigo secretamente trabalha na construção de um Gigante de Ferro e até mesmo artefatos mágicos como “o cubo de Zemeckis” estão espalhados por aí, tornando a experiência de encontrar os easter eggs algo extremamente prazeroso para o cinéfilo e entusiasta de plantão. Quer dizer, quem não fica empolgado em ver uma corrida entre o DeLorean, a moto de Akira e diversos outros carros em uma pista sendo atacada pelo T-Rex de Jurassic Park e o gorilão de King Kong? Não há definição mais sucinta e apropriada do que orgasmos nerds, e nem ousarei comentar outras inacreditáveis sequências para não estragar as (muitas) surpresas pela frente.

Em um nível estrutural, Penn e Cline fazem um ótimo trabalho ao equilibrar as convenções de uma ficção científica distópica com as de um videogame; este último, ainda um elemento que Hollywood não dominou por completo. Todas as pistas e revelações dos personagens na caçada pelo easter egg de Halliday são bem construídos e apresentados, com os avatares encontrando informações relevantes até mesmo em pistas falsas; o espectador sente uma escalação lógica e divertida durante a jornada, e ajuda que, novamente, diversas obras populares façam parte dessa narrativa, e uma pista envolvendo o grupo literalmente entrando em um filme famoso é um dos momentos mais inspirados da produção. Próximo do final, uma solução tipicamente relacionado aos videogames também é bem utilizada, remetendo ao trabalho de Edgar Wright em Scott Pilgrim contra o Mundo, e já que mencionei o cineasta inglês, vale apontar a participação de Simon Pegg aqui, que revela-se uma figura importantíssima da trama – ainda que seja desenvolvida tarde demais, em um dos leves deméritos da produção.

No lado distópico, a dupla mantém a mesma eficiência. Temos o clássico duelo da gigantesca e maléfica organização contra pequenos grupos de rebeldes, e o arco antagonista é bem representado pela IOI e Nolan Sorrento. O estereótipo do engravatado malvado e capitalista ganha mais uma representação divertida, especialmente por Nolan ser um empresário sem o menor conhecimento de cultura pop ou games, contando com uma inusitada equipe de geeks para estudar e analisar todos os elementos do OASIS a fim de encontrar o easter egg – além de sempre soprar respostas e comentários nerd para Nolan através de um comunicador, rendendo uma curiosa cena envolvendo o cinema de John Hughes. Há também uma ação inesperada envolvendo o personagem de Nolan próximo da conclusão, que parece ter vindo do nada e sem qualquer tipo de preparo, mas que surge como uma boa forma de espantar clichês, e também de fortalecer o que está acontecendo em cena.

Jogadores 2, 3, 4…

Depois de passar um bom tempo trabalhando apenas com atores consagrados, vide o elenco monumental de The Post: A Guerra Secreta, é refrescante ver o cineasta dando espaço a novos talentos. Já tendo despontado no indie Amor Bandido e causado uma boa impressão como o jovem Ciclope em X-Men: Apocalipse, Tye Sheridan tem aqui o papel que o transformará em um astro. Carismático, divertido e carregando a típica personalidade de um filme Spielbergiano dos anos 80, na forma do jovem altruísta e inteligente, Sheridan faz de Wade um protagonista sempre interessante e que ganha a admiração do público; mantendo todos esses traços também em seu avatar Parzival. Veterana da finada Bates Motel, Olivia Cooke é uma presença magnética e radiante, e que já deveria ter tomado Hollywood desde sua participação no fraco terror A Marca do Medo, e que faz da guerreira Samantha/Art3mis uma figura igualmente carismática. Lena Waithe, Win Morisaki e Philip Zao compõe o restante do grupo de Parzival, e se não trazem muito backstory ou informações para destacá-los, ao menos garantem bons momentos graças ao carisma e timing cômico – especialmente Waithe, conhecida pelo ótimo trabalho em Master of None, que tem uma revelação inusitada envolvendo sua personagem.

Praticamente fadado a interpretar vilões, Ben Mendehlson faz um bom trabalho como Nolan, e o departamento de maquiagem merece aplausos pela discreta dentadura que faz seus dentes parecerem maiores, mas sem transformá-lo em uma caricatura. É admirável como seu avatar também reflete perfeitamente sua postura mais impaciente e ignorante em relação ao game, sendo simplesmente um sujeito grandão com um terno por cima de uma armadura. Novo melhor amigo de Spielberg, Mark Rylance retorna para mais um personagem completamente diferente, fazendo de Halliday uma figura insegura e socialmente esquisita (pense em uma mistura de Steve Jobs com Napoleon Dynamite), e o ator se diverte muito com esses traços, mas também garante uma tocante catarse quando chegamos na mensagem final. Por fim, ainda que seja uma presença diminuída, Hannah John-Kamen impressiona como F’Nale, a agente especial de Nolan, que desempenha um papel similar à de Sylvia Hoeks em Blade Runner 2049, mas aqui com um pouco mais de humor.

Um mestre renovado

Em termos de direção, é praticamente um pleonasmo elogiar o trabalho de Spielberg. Um poeta com a câmera, seu trabalho de movimentação já fica evidenciado logo nos segundos iniciais, quando uma série de planos longos acompanham a descida de Wade de seu trailer no conjunto habitacional, e o diretor emprega esse dinamismo visual de distintas formas: seja para uma revelação surpreendente, seja para acentuar o suspense de um certo personagem tentando escapar. O grande diferencial plástico de Jogador Nº 1 são as cenas no OASIS. Em uma aposta que poderia ter falhado estrondosamente – e os primeiros trailers sugeriam isso – Spielberg opta por retratá-la inteiramente em computação gráfica, e com os atores utilizando captura de performance. Literalmente temos um game nas telas, ainda que com um motor gráfico não tão impressionante quanto o de obras como Uncharted 4. Felizmente, o espectador se acostuma rápido com aquela textura e o visual cartunesco dos avatares, que surgem menos pesados do que aqueles usados pelo diretor em As Aventuras de Tintim, e se adequam bem à fotografia mais dessaturada de Janusz Kaminski, que aqui também aposta em um look mais clean, surgindo menos como suas luzes platinadas em Minority Report: A Nova Lei, e mais como o trabalho de Dan Mindel nos longas de J.J. Abrams – mas com um uso de flares bem mais discreto, claro.

Quando as cenas de ação nesse universo do OASIS começam, é quando o espectador mergulha em um espetáculo sem precedentes. Ainda que tudo seja CGI, Spielberg e a equipe da ILM acertadamente não escondem esse fato, e abraçam todas as possibilidades de ambientação e câmera que um cenário 100% digital é capaz de realizar. O diretor nunca esteve tão solto, e ainda que não contenha um feito tão admirável quanto o plano sequência de Tintim, ver todos aqueles personagens e veículos famosos se batendo e mergulhando no caos é algo impressionante, ainda mais pelo nível de detalhes: algumas das referências podem aparecer discretamente no canto da tela ou voando pelos ares em grandes sequências de batalha. É de se impressionar que, praticamente no mesmo ano, Spielberg tenha lançado Jogador Nº 1 e The Post: A Guerra Secreta, remetendo aos anos em que o cineasta oferecia uma sessão dupla com amostras de seu ecletismo: um blockbuster divertido (Jurassic Park, O Mundo Perdido, As Aventuras de Tintim) e um drama histórico (A Lista de Schindler, Amistad, Cavalo de Guerra).

Irrepreensível nos quesitos técnicos, há de se dar atenção ao fato de que um filme de Steven Spielberg não tem sua trilha sonora musical composta pelo gênio John Williams, que passou a tarefa para Alan Silvestri enquanto lidava com a agenda louca que já incluía The Post e Star Wars: Os Últimos Jedi. Nada mais apropriado para que o responsável pela trilha de De Volta para o Futuro retorne aqui – e até traga uma sutil rendição de um dos temas da trilogia de Robert Zemeckis – e ofereça uma música que mistura muito bem as composições clássicas e grandiloquentes que Spielberg tanto preserva, com um toque mais eletrônico na percussão, mirando na alma dos fliperamas e longas dos anos 80. Um trabalho eficiente, e que divide bem o espaço com as diversas canções licenciadas que ajudam a despertar a nostalgia oitentista.

Explosão de energia e diversão

No fim, Jogador Nº 1 é uma celebração da nerdice e da cultura pop, servindo como um delicioso entretenimento comandado pelas mãos de um dos grandes mestres desse tipo de cinema. Ainda que imperfeito, nos remete aos grandes filmes de aventura de Steven Spielberg, e levanta a barra para os vindouros longas metragens que se arrisquem a traduzir a linguagem dos games para as telas. Mais um filmaço para a invejável filmografia do diretor, e que ele não deixe a aventura de lado por muito tempo…

Jogador Nº 1 (Ready Player One, EUA – 2018)

Direção: Steven Spielberg
Roteiro: Zak Penn e Ernest Cline, baseado na obra do último
Elenco: Tye Sheridan, Olivia Cooke, Ben Mendehlson, Mark Rylance, Simon Pegg, Lena Waithe, Win Morisaki, Philip Zao, T.J. Miller, Hannah John-Kamen, McKenna Grace, Kae Alexander, Letitia Wright, Ralph Ineson, Susan Lynch, Rona Morison
Gênero: Aventura, Ficção Científica
Duração: 140 min

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