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Aviso: O texto abaixo pode conter leves detalhes a respeito do enredo da obra. 

Alguns indivíduos conseguem criar um mito em torno de sua personalidade. Seus feitos importantes, seus gênios e seu carisma deixam uma estigma de estudos por diversos anos, décadas, séculos… alguns milênios. Suas histórias resultam em diversos livros, homenagens, chegando até mesmo a produções hollywoodianas. Um bom exemplo deste caso, trata-se da figura emblemática de Steve Jobs. Morto há 5 anos, o fundador da Apple ainda segue gerando comentários até hoje.

Não é por menos. Claro, há controvérsias a respeito da propriedade intelectual de Jobs envolvendo os produtos da Apple, porém é inegável que boa parte do “boom” tecnológico das últimas décadas é graças ao seu pulso firme.

Coincidentemente, no mesmo ano em que Jobs vem a falecer, Ernest Cline lança este Jogador Nº 1, cuja essência da história se assemelha muito ao empresário.

James Halliday, mega-bilionário criador de um sistema de simulação online chamado OASIS, morre deixando toda sua fortuna, porém sem herdeiro. Seu testamento, peculiar e nada usual, em vídeo, propõe uma competição em sua plataforma criada. Inspirado em seu jogo favorito da infância, o Adventure (Atari 2600), o qual o desenvolvedor põe um Easter-Egg com seu nome escondido, Halliday segue seus passos fazendo o mesmo no OASIS. No vídeo, o ricaço deixa um enigma, dando início a corrida por seu “ovo” (como foi traduzido ao decorrer do livro), porém deixa claro que fez o melhor possível para escondê-lo. Aquele que encontrar, fica com a fortuna e todos os bens declarados do empresário.

Anos se passam… A mídia e a sociedade não fala outra coisa. Fóruns gigantescos na internet se organizam, transferindo informações e pistas sobre a caça ao ovo. Aliás, os indivíduos que são conhecidos por dedicar-se à procura, são chamados justamente de “caça-ovos”. Um caça ovo passa horas de seus dias estudando toda a vida de Halliday, cuja história teve como pano de fundo na adolescência e início de carreira os anos 80. Logo, em plena década de 2040, a cultura pop daquele período volta com força, sendo analisada e novamente vivida em cada detalhe – claro, dentro da plataforma OASIS.

A história, em primeira pessoa, é narrada sobre a perspectiva de Wade Watts/Parzival. Pobre, morando em pilhas de trailers em uma sociedade totalmente exacerbada de metal e poluição, tem acesso ao OASIS graças aos estudos em uma escola pública. Sem muito dinheiro, trabalha como um caça-ovo da melhor maneira possível, criando estratégias superando seus limites dentro do mundo virtual. E, assim como a maioria dos caça-ovos, o jovem de 18 anos é contra a IOI, empresa de tecnologia que tenta de qualquer maneira possível comprar a plataforma, “tornando-a inacessível, com preços abusivos ao consumidor e repleta de propagandas”.

É preciso lembrar que Jogador Nº 1 uma ficção distópica. Estamos em um mundo onde as fontes naturais de energia são escassos, a taxa de fome no mundo nunca foi alta, e grandes corporações são os maiores “administradores” da sociedade, já que esta vive a maior parte de seu tempo dentro do OASIS. Apesar deste cenário futurista e pessimista, Cline foge do padrão desenhado por George Orwell em seu 1984, o qual inspira a maioria dos autores do gênero. No entanto, Cline não abandona por completo a verve crítica, propondo uma análise mais discreta – mas não invisível, os olhares mais atentos absorverão a mensagem.

É clara a sátira: As pessoas estão tornando-se cada vez mais escravos de um sistema. Ao comover todo o planeta com uma fortuna, Cline exemplifica como a humanidade tornou-se fútil. Demonstra também como a sociedade tornou-se alienada, dependente de máquinas, sem questionar a imposição de pessoas acima – aceitando tudo que lhe é jogado goela abaixo. E em um breve momento, quando Wade Watts deixa de ser Parzival, ligando-se ao mundo real, a descrição, singela, reflete bem a preferência pelo entretenimento ao que realmente é essencial em nossas vidas. Porém, quando um dos personagens revela-se pessoalmente, narra sua história de vida repleta de preconceito, fica até compreensível passar horas dentro de um “videogame” onde você pode ser quem é. Isso torna o contexto mais deprimente. É uma reflexão válida. O leitor decidirá se concorda ou não, tirando proveito desenvolvendo sua própria opinião.

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Cline aposta muito mais no arsenal nerd, na cultura pop a qual conhece e vive intensamente, observando que a maior parte de suas obras vivem deste conteúdo. O autor usa e abusa de referências do final do século 20, em especial a década de 1980, para construir a história e toda a mitologia rica envolvendo a vida de Halliday. Se tem uma coisa que você pode aguardar deste livro, são as incontáveis vezes que o autor esbanja seu conhecimento sobre o mundo geek: música, filmes, séries, universo tokusatsu, e, principalmente, os games – sendo este último trabalhado delicadamente com carinho. No entanto, toda essa demasia pode ser um problema para alguns. Pode-se alegar que o uso excessivo do autor deste recurso causa desinteresse ao longo da leitura, tendo em vista que nem todos entenderão as citações aqui presentes.

Eu, particularmente, discordo. Ao longo das 462 páginas, me vi diversas vezes no “amigo Google” pesquisando o que era apresentado na história. A escrita leve, dinâmica, e atual de Cline fala muito bem com o leitor, por vezes explica o conteúdo. Empolgando-nos o autor tem o poder de despertar o interesse de seu público, levando-o a compreender como os anos 1980 foram ricos e importantes, influenciando até os dias de hoje a cultura pop.

Para manter o estilo retrô de games, Cline divide o livro em níveis (partes), sendo eles subdivididos em fases (capítulos). Há uma boa diferença entre os níveis, demonstrando o bom cuidado do desenvolvimento. O primeiro nível, introdutório, apresenta o protagonista, e trabalha o universo do OASIS, descrevendo as infinitas possibilidades que o sistema oferece ao consumidor. Já o segundo, Wade lida com a fama de ser o primeiro caça-ovo a encontrar a primeira chave, e também com os perigos que isto trouxe à sua própria vida no mundo real, mas contém uma leve falha que explicarei mais tarde. Quanto ao terceiro, é talvez o ponto mais problemático da obra, tratando de um plano maluco de Wade Watts e do frenético.

No entanto, autor usa e abusa de clichês, seja no primeiro nível com o uso de um cliffhanger incitante, apresentando o perigo que corre. Porém, isto é praticamente abandonado ao decorrer do segundo nível, dando lugar ao romance entre Wade e Art3mis. Sem dúvidas, a parte mais arrastada da obra. O autor gasta um bom tempo com a reclusão de Wade, e quando o personagem sai desta melancolia vendo seu placar no jogo descendo, reepreende-se rapidamente esforçando-se para voltar ao topo.

Já no Nível 3, inicia-se com um arriscado plano de Wade. Não vendo outra alternativa, o personagem decide iniciar a destruição de seu inimigo por dentro. Mas não pela plataforma OASIS, no mundo real mesmo. Ao final do nível 2, Cline cria a expectativa sobre o que passa na cabeça dele, e então o plano ocorre com suspense, espontaniedade, e, acima de tudo, criatividade. Ao desenrolar dos acontecimentos, explodi minha cabeça vendo as engenhosas ideias de Watts ganharem vida. Porém, em meio a tudo isso, o perigo em que Watts se encontra gerando aflição do leitor, que imagina as possibilidades a frente, é quebrada com uma solução pra lá de decepcionante: Cline insere um salvador na vida de Parzival e seus amigos. Isso mesmo. O autor interrompe toda a loucura e um desenvolvimento maior dos feitos inteligentes do protagonista ao pôr um anjo no meio do caminho. Tudo fica mais tranquilo, resolvido, já que agora o personagem não corre mais perigo – lembrando que me refiro aqui ao mundo real.

Já no clímax, se você viu batalhas como a de Hogwarts ou a de Pelennor, onde na primeira os personagens usam magia para se atacar e na outra o combate direto entre diferentes criaturas, a Batalha de Anorak possui a mesma síntese já vista nas citadas: Todos em prol do herói. A diferença aqui é o universo: estamos no OASIS, sendo assim, uma mistura de destas próprias história ocorre – elfos contra elfos, orcs, alienígenas, naves espaciais e etc, e o maior destaque do confronto: os gigantescos robôs tokusatsu usados pelos personagens centrais. A riqueza dos detalhes torna o espaço do clímax descomunal. Parzival usando seu gigantesco Leopardon, alça voo no espaço interestelar do OASIS ao som de “Dirty Deads Done Dirt Cheap” do AC/DC (repito meu elogio à narrativa, relatando minha experiência ao ouvir a música enquanto li os parágrafos) acompanhado de diversas outras naves menores, revelando todo o poder que o rapaz conquistou perante o universo, seguindo até sua aterrissagem no planeta destino, onde está concentrada toda a população do OASIS que torna-se formigas aos seus pés.

No entanto, o erro aqui, já na batalha propriamente dita, dá-se principalmente aos excessos do vilão, e na extensiva e falhas tentativas de acabarem com o mesmo sem uma estratégia construída . E após uma explosão catalisadora, Cline erra feio no diálogos dos personagens, tornando-os repetitivos – um fala, outro volta a dizer. Sem falar no desespero chato do protagonista ao pensar que estaria tudo perdido, mesmo tendo uma carta na manga a qual nem ele mesmo sabia.

Quanto aos personagens, Cline traz certa profundidade em suas história, com destaque ao protagonista, claro, e Aech. Vale dizer que são relacionáveis, alguns até fáceis de se identificar. Assim como o protagonista, todos possuem um nick, guardando seus nomes verdadeiros para si.

Wade Watts/Parzival tem uma presença forte, carismática. O personagem evolui com a história: no início, um jovem pobre garoto de bom coração, que mesmo sem muitas esperanças de evoluir na caçada, estuda fielmente a vida de Halliday. Em debates, coloca rivais no chão demonstrando todo seu conhecimento. Em momentos de solidão, após a desilusão sofrida por Art3mis, sentimos toda a frustração do personagem, ao ver-se o quão sua vida é vazia mesmo depois de enriquecer-se. E ainda é corajoso, criando planos impossíveis pondo em risco a sua vida. A narração sobre o seu ponto de vista colabora para todo este envolvimento, mesmo que a parte estenda-se além da conta como já falei.

Os coadjuvantes funcionam e têm seus momentos. O destaque aqui é para Art3mis e Aech. A primeira, uma blogueira caça-ovo famosa. Um tanto boba, além de ser rival de Parzival na disputa, serve apenas como chamariz ao público juvenil fã de romances fracos. Enquanto Aech, este torna-se mais apagado na história quando o romance é focado. É o melhor amigo de Parzival, e mesmo não se conhecerem pessoalmente, confiam um no outro como irmãos – abrindo exceção quando o assunto é o ovo de Halliday, mantendo o espírito competitivo entre si. E o personagem guarda uma surpresa perto do final do livro, deixando o leitor estonteado.

Daito e Shoto também são outros presentes. Irmãos, trabalham de forma independente, tornando o relacionamento mais discreto para com os outros personagens. E, em minha opinião, a dupla possui o momento mais tenso de todo o livro, transmitindo os sentimentos de raiva e injustiça.

Quanto ao vilão, Nolan Sorrento é o velho vilão caricato (a começar pelo nome brega) já visto entre tantas outras histórias. Surge a princípio como um profissional, tentando aliciar o protagonista com uma proposta muito generosa, se ajudar seu exército o Seis a encontrar o ovo, mas logo revela sua obsessão resultando em seus atos inescrupulosos. Chega a ser compreensível toda sua megalomania em impedir o progresso dos heróis, mas Cline ultrapassa os limites no final do livro com os exageros em cena apresentados pelo mesmo.

Mesmo que peque nos momentos finais, com soluções preguiçosas e diálogos desorganizados, Jogador Nº 1 é diversão garantida. Pode-se dizer que Ernest Cline escreveu seu próprio guia da década de 1980, esbanjando todo a sua sabedoria sobre o período. Além disso, cria sua própria mitologia em cima de outras, através de um universo extremamente criativo. A crítica social é presente, mas dosada dando espaço à diversão. Sendo assim, fica longe de ser um livro vazio, como boa parte dos lançamentos do gênero distópico nos últimos anos.

Um livro nerd para os nerds e para leigos, que após a leitura, se tornarão nerds.

Obs: Ernest Cline não se inspirou em Steve Jobs para a criação de James Halliday, mas sim no aviador Howard Hughes e no desenvolvedor de games Richard Garriott. A analogia feita no início deste texto tem como base a minha interpretação a respeito do criador do OASIS, tendo em vista a semelhança entre Jobs.

Obs²: Preferi dedicar o corpo principal do texto principalmente na análise do livro como um todo. No entanto, não posso deixar de lembrar-vos a respeito da futura adaptação do filme, com previsão de estreia para abril de 2018. Steven Spielberg assume a direção em cima do roteiro inicial do próprio Ernest Cline, com revisões de Eric Eason e Zak Penn. Posso dizer que eu, como um grande fã de Spielberg, espero uma ótimo filme. O envolvimento direto com o autor é também um bom motivo para não se preocupar. Porém, é um tanto óbvio que a obra seja significativamente alterada, tendo em vista a burocracia de direitos autorais. Uma pena.

Escrito por Kevin Castro

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