Há algo de empolgante em ver um mundo todo nascendo de forma inesperada. Acho que nem mesmo Keanu Reeves poderia esperar que sua carreira tivesse uma Segunda Vinda tão marcante e bem sucedida quanto a que Chad Stahelski, que fora seu dublê durante a trilogia Matrix, lhe proporcionaria com John Wick. Um filme simples, mas executado com eficiência e que trazia Reeves chutando traseiros e explondindo cabeças com precisão de uma forma que há muito não víamos. A recepção do filme o transformou em um cult do gênero, e uma sequência maior e – sim – melhor ganha forma com John Wick: Um Novo Dia para Matar.

A trama tem início imediato às ações do anterior, com John Wick (Reeves) amarrando pontas soltas de sua vingança explosiva e recuperando seu carro roubado da máfia russa. O passado novamente bate à sua porta quando Santino D’Antonio (Ricardo Scamarcio) vem lhe cobrar uma dívida antiga, algo que a sociedade do qual fazem parte chama de Promissória, exigindo que Wick assassine sua irmã para que ele ganhe um cargo de alto nível dentro da organização. Ameaçado e obrigado pela obrigatoriedade do contrato, Wick retorna mais uma vez da aposentadoria para completar a missão, mas é traído quando D’Antonio revela segundas intenções.

É uma premissa muito mais complexa e desenvolvida do que a do primeiro, a qual carinhosamente é resumida como “o filme de vingança pelo cachorrinho”. Era um simples e eficaz que agradou meio mundo, mas acredito que seja mesmo com Um Novo Dia para Matar que John Wick realmente prove a que veio, e quais as possibilidades de seu suculento universo expandido. O roteiro de Derek Kolstad explora ainda mais o funcionamento do Continental, o brilhante hotel dos assassinos, assim como suas divisões internacionais e o alto leque de departamentos e serviços disponíveis, desde um armamento e alfaiataria que impressionariam James Bond em nível de fogo e deixariam a agência Kingsman no chinelo em termos de sofisticação e elegância. Esse é o real credo dos assassinos que a Ubisoft falhou miseravelmente em adaptar com Michael Fassbender, surpreendendo ao revelar diversos civis disfarçados, prestadores de serviço a praticamente toda esquina e uma bizarra expansão que envolve o personagem de Laurence Fishbourne em uma cena memorável, ou as ótimas participações de Ian McShane e Franco Nero.

Um admirável novo mundo, de fato. É o palco perfeito para que Stahelski conduza uma narrativa impressionante e que nunca perde o interesse, mesmo que o roteiro de Kolstad siga uma missão básica e com reviravoltas previsíveis; é funcionalidade feita com estilo. Não sentimos a frustrante sensação de repetição de fórmula, já que o fato de que Wick ter saído de sua aposentadoria abruptamente atraiu a atenção de alguns colegas do Continental, mantendo a perfeita lógica de causa e efeito de um longa para o outro. E, novamente, é justamente a expansão do universo que torna tudo tão novo, especialmente por vermos interações de Wick com outros assassinos e membros do clube, em diálogos repletos de sugestões de interações prévias e até um respeito rancoroso; vide a excelente cena em que toma um drinque com o personagem de Common, após uma violentíssima luta.

Falando de luta, não há outra forma de descrever o que Stahelski faz com as cenas de ação além de puta que pariu. O ex-dublê revela-se um diretor ainda mais competente e criativo do que no anterior, valorizando a coreografia dos brutais confrontos corporais em planos longos e uma montagem ágil, permitindo ao espectador compreender a ação e se impressionar por seu realismo e estilização. As lutas agradam pela coreografia inventiva, enquanto os tiroteios são absurdamente envolventes graças à sua câmera solta (jamais shaky cam) que acompanha o rampage de Wick de maneira fluida, mantendo também o impacto ao trazer sangue digital sempre presente e um design sonoro marcante para cada bala disparada.

É um filme absolutamente violento, sem sombra de dúvidas, mas de bom gosto. Isso porque Stahelski aposta em uma elegância visual que me faz relembrar o fenomenal trabalho de Sam Mendes e Roger Deakins em 007 – Operação Skyfall, já que a maioria das cenas de ação ocorrem em algum tipo de exibição artística, galerias de arte ou outros eventos pirotécnicos que exigem um visual dinâmico do diretor de fotografia Dan Laustsen. Temos tiroteios em meio a um show pop dominado por canhões de luz difusa, uma perseguição de carros banhada pelo neon da Times Square e um confronto brilhante que se desenrola dentro de uma sala espelhada; um artifício que já vimos diversas vezes, mas que ganha vida nova nas mãos de Stahelski e seus enquadramentos engenhosos. É, sem trocadilhos, a real definição de “filme de ação de Arte.”

No centro disso, temos Keanu Reeves. Nunca um ator conhecido por seu carisma ou expressividade, Reeves é a escolha perfeita para John Wick, com sua “canastrice charmosa” rendendo inúmeros momentos sutis de humor e frases de efeito apropriadamente desajeitadas e piegas – do tipo que Stallone ou Schwarzenegger soltariam na década de 1980. Vale ressaltar também como Reeves mostra-se incrivelmente dedicado às cenas de ação, sendo possível notar seu esforço e competência ao rapidamente recarregar armas de fogo ou imagens inacreditáveis como ver o ator no volante realmente chocando seu carro com outro veículo; o enquadramento de Stahelski em tal momento é revelador demais para suspeitar de CGI. Ah, e Wick tem um novo cachorro, sendo sempre divertido observar a doçura que fornece ao animalzinho.

John Wick: Um Novo Dia para Matar é o raro exemplo de continuação que supera o original em absolutamente todos os aspectos, impressionando pela qualidade de suas cenas de ação e o ambicioso universo expandido que desabrocha e deixa portas abertas para uma inevitável continuação. Que Keanu Reeves não pare quieto em casa.

John Wick: Um Novo Dia Para Matar (John Wick: Chapter 2, EUA -2017)

Direção: Chad Stahelski
Roteiro: Derek Kolstad
Elenco: Keanu Reeves, Riccardo Scamarcion, Ian McShane, Laurence Fishburne, Ruby Rose, John Leguizamo
Gênero: Ação
Duração: 122 minutos

Comente!