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Johnny Guitar talvez seja um dos faroestes mais importantes já feitos para o gênero durante a Era de Ouro de Hollywood. Sua subversão de regras tão rígidas do gênero crowd pleaser da época o fizeram realmente se destacar dentro da História do Cinema, muito embora também seja famoso pelos fatos miseráveis que ocorreram nos bastidores dessa produção.

Já com quarenta e oito anos, Joan Crawford ainda queria se afirmar como uma poderosa diva hollywoodiana. Para isso, encontrou a oportunidade perfeita ao comprar os direitos do livro homônimo que inspirou o filme, afinal de contas a protagonista é justamente uma mulher forte, independente e sagaz, disposta a batalhar até o fim por todas as suas conquistas.

Movendo o projeto adiante, Nicholas Ray entrou na jogada como produtor, diretor e também roteirista para conseguir emendar o seu ápice profissional no western, além de poder trabalhar com Technicolor pela primeira vez. Porém, mal sabia ele que a produção seria um verdadeiro inferno por conta das exigências insanas de Crawford, além da famosa querela que se instalou entre ela com a atriz Mercedes McCambridge que interpreta a vilã do filme.

Produções caóticas que chegam até a impulsionar o diretor em um estado de saúde e nervosismo extremos geralmente tem tudo para dar errado. Felizmente, Johnny Guitar conseguiu ser um dos filmes mais coerentes e interessantes da carreira de Ray, apesar de todo o stress.

A Lei dos Injustos

Como puderam perceber, Johnny Guitar não é um western típico. Apesar de condicionar diversos clichês e estereótipos do gênero, a história tem uma proposta bastante original. Nela, acompanhamos Vienna (Joan Crawford), uma proprietária de um saloon luxuoso no meio do nada, esperando pacientemente que a ferrovia chegue até seu território para começar a construção de uma nova cidade. Para entreter seus clientes, contrata o músico Johnny Guitar (Sterling Hayden, simplesmente péssimo sem nenhum carisma) que já teve uma história misteriosa no passado com ela.

Porém, essa aparente calmaria logo é interrompida quando uma multidão raivosa invade o saloon. Emma Small (Mercedes McCambridge), uma proeminente banqueira da cidadezinha, acusa Vienna de ter participado da matança que ceifou a vida de seu irmão durante uma diligência com uma gangue de quatro bandidos. Infelizmente, na mesma hora, quatro amigos de Vienna, a gangue do Dancing Kid, aparecem casualmente no lugar, e logo recebem a culpa pelo assassinato, apesar de serem inocentes.

Lançando um ultimato para que todos sumam da cidade, Emma abandona o lugar com o apoio do xerife local e dos outros cidadãos. Porém essa pequena ameaça logo se torna um verdadeiro inferno para a vida de Vienna.

Há muita inteligência no roteiro de Philip Yordan que na época assinava o trabalho de Ben Maddow, um roteirista condenado na Lista Negra de Hollywood durante uma época de perseguição conhecida como macarthismo. As primeiras cenas apostam totalmente no cunho de Nicholas Ray como diretor para trazer informações importantes para a preparação do conflito majoritário da obra com a apresentação de Johnny observando a matança na diligência, além de algumas explosões nas montanhas que cercam o lugar, já indicando que há como evitar um plano de fuga futuro, além de mostrar o fato do assassinato para o espectador em primeira mão.

Apesar do personagem de Johnny dar título ao filme, a verdadeira protagonista é Vienna. No caso, temos a característica vanguardista sempre presente nos filmes de Ray com essa subversão da maior convenção do western: o protagonista masculino. Temos aqui heroína e vilã mulheres liderando grupos de homens conforme o conflito avança.

Não somente esse detalhe é bem interessante como também há um delineamento muito dúbio no primeiro ato do longa, aproximando ao máximo a linha do herói e vilão, já que é muito difícil compreender se Vienna é tão pérfida quanto dizem – a atuação insolente de Crawford ajuda bastante nisso, ou se Emma é realmente inocente e amada pela comunidade.

Também nunca é justificado o intenso ódio que Emma sente por Vienna, posteriormente, quando as cartas ficam marcadas e temos o completo exagero maniqueísta em pauta que acaba prejudicando bastante a complexidade dessas personagens. É possível tirar um subtexto muito escondido envolvendo uma questão sobre a possível homossexualidade de Emma, atraída por Vienna. Desse modo, seu ódio vem como uma tentativa de reprimir completamente seus impulsos matando o alvo de seu desejo.

Isso não é muito bem sugerido, lembro ao leitor, já que o longa se transforma em uma experiência mais medíocre durante o segundo e o terceiro atos. Infelizmente, isso tem a ver com a nuvem de mistérios que o roteirista insiste em colocar sobre a relação entre os personagens. É tudo tão, mas tão misterioso que não sabemos o que aconteceu entre Vienna e Johnny – além dele apresentar uma habilidade incrível para nunca mais utilizar novamente, não sabemos quase nada sobre Emma e tampouco da gangue do Dancin’ Kid.

Mas um fato é certo: aparentemente todos amam e desejam Vienna para si, sendo disputada pelo ego de diversos homens ao longo do filme. O que, evidentemente, é algo bastante suspeito devido as exigências faraônicas que Crawford fazia durante o trabalho. Uma delas, a mais burocrática, envolvia que seus close-ups fossem filmados somente em estúdio, para que a iluminação fosse perfeita para rejuvenesce-la. Isso causa muito estranhamento durante o filme, conferindo um impacto claustrofóbico bizarro toda vez que temos esses closes em Vienna, totalmente falsos e desalinhados com a fotografia dos outros planos, além de envolver um uso bastante rude de retroprojeção para preencher o vazio da profundidade de campo.

Por conta de luxos narrativos e estéticos, Johnny Guitar é um filme ora genial, ora bizarro até desandar completamente com atuações caricatas e uma escalada caótica redundante para o terceiro ato ao investir novamente em personagens que já ofereceram o máximo que podiam, embora o confronto final seja bastante inusitado. Outro grande incômodo aqui é a quebra de regras para forçar a mensagem do longa sobre o absurdo que é uma caça às bruxas, assim como acontecia em Hollywood na época.

Para isso, o roteirista quebra constantemente a lógica pedindo muito da suspensão de descrença do espectador ao colocar frases e atitudes absurdas em Emma que obviamente desafiam a lei a ponto dos xerifes perceberem que a mulher também é uma criminosa nessa casada terrível a uma mulher inocente. Chega até ao ponto ridículo de Emma colocar fogo no saloon e todos agirem como se fosse a coisa mais normal do mundo.

Pouco a pouco, o filme vai se tornando totalmente artificial por conta de ações desleais durante a narrativa. Mas é preciso reconhecer a competência técnica de Nicholas Ray com o Technicolor. Obstinado a trabalhar com cores muito saturadas, temos tons vibrantes de branco, vermelho, azul, verde e até mesmo de preto.

As cores passam a ter um significado monumental durante o terceiro ato, já que toda a multidão enraivecida usa vestes pretas uniformizadas, indicando a superficialidade de seu pensamento odioso, enquanto os heróis usam cores mais vivas até culminar no vermelho comunista ao final do longa – uma nítida provocação de Ray contra os perseguidores dentro da indústria hollywoodiana. O maior contraste chega com o primeiro encontro no terceiro ato com Vienna e Emma.

Nele, a protagonista usa um belíssimo vestido branco enquanto toca piano aguardando pacificamente que os ceifadores negros cheguem para destruir as conquistas de suas vidas. Também há um destaque muito interessante para os modos sempre coreografados das quedas que os personagens sofrem em brigas e tiroteios. É algo que evoca uma estranha beleza pelo cuidado da execução, apesar de retratar um ato pérfido.

De Filme B para Clássico Western

Há muitas qualidades em Johnny Guitar: temos diálogos muito bem escritos, um forte contexto social, um trabalho técnico impecável, além de um senso vanguardista que pode ter sido o menos forçado de Ray envolvendo, novamente, criminalidade com menores de idade e o limite da honra humana para manter a própria vida.

Porém, em meio a esse bom trabalho, temos um elenco repleto de excessos, caprichos de produção deslocados para atender vaidades de uma estrela em queda, além de um jogo de extremos esgotante para uma história que simplesmente não tem sustância para guiar dois atos inteiros em cima desse conflito estabelecido às pressas.

Com esses pesos na balança, certamente temos um resultado favorável para esse inusitado western que almejava tanta coisa que pode ter voado próximo demais ao sol.

Johnny Guitar (Idem, EUA – 1954)

Direção: Nicholas Ray
Roteiro: Nicholas Ray, Phillip Yordan, Ben Maddow, Roy Chanslor
Elenco: Joan Crawford, Sterling Hayden, Mercedes McCambridge, John Carradine, Scott Brady, Ward Bond, Ben Cooper
Gênero: Western, Drama, Romance
Duração: 110 minutos

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