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Duas coisas são apostas de alto risco na Hollywood atual, e vêm sendo produzidas com cada vez mais frequências: adaptações de videogames e continuações/reboots para clássicos e cults do passado. O segundo caso até vem se garantindo nas telas, com novos capítulos para Star Wars, Jurassic Park e até uma obra da magnitude de Blade Runner acabou ganhando uma inusitada continuação, mas obras baseadas em games ainda sofrem com produções mal encontradas e confusas. Dito isso, é de se admirar que este Jumanji: Bem-Vindo à Selva aposte nessas duas vertentes, na do saudosismo e do videogame, e encontre um equilíbrio agradável e surpreendentemente divertido.

A trama serve como uma continuação do original de 1996, mas com uma bem-vinda atualização – retrô, claro – de se conceito. Dessa vez, o famoso tabuleiro do Jumanji virou uma fita de videogame, um artefato que é encontrado pelos jovens Spencer (Alex Wolff), Fridge (Ser’Darius Blain), Bethany (Madison Iseman) e Martha (Morgan Turner) quando são forçados a ficar na detenção da escola. Magicamente transportados para dentro do jogo, o grupo ganha a cara dos avatares dos personagens escolhidos, com as formas de Dwayne Johnson, Kevin Hart, Jack Black e Karen Gillan, e logo precisam encarar uma aventura para salvar a selva de Jumanji das mãos de um vilão inescrupuloso (Bobby Cannavale), sendo a única forma de voltar à realidade.

critica jumanji bem vindo a selva

Clássico da Sessão da Tarde, Jumanji não era o tipo de filme que realmente gritava por um revival na década de 2010, até mesmo porque o filme estrelado por Robin Williams não é exatamente um grande primor de cinematografia – um filme divertido, e só. Saído de comédias bem irregulares (ver Sex Tape), é um alívio que Jake Kasdan tenha compreendido exatamente o tipo de projeto que estava fazendo, uma aventura de matinê B cujo único propósito é a diversão, e ainda consegue o bônus de ser um dos filmes que melhor entende o conceito de um videogame nas telas. O roteiro assinado por Chris McKenna, Erik Sommers, Scott Rosenberg e Jeff Pinkner adota bem os clichês e estrutura típicas de um game, desde a ideia de saltar de fase (algo já meio batido em filmes como Scott Pilgrim contra o Mundo), mas explorando novo território nas personas de seus personagens – cada um com habilidades específicas e que se manifestam de forma divertida, especialmente o fator “intensidade e concentração” de Johnson, ou a vulnerabilidade de um dos personagens a… bolo, o que rende uma boa e inesperada gag.

Além disso, o texto ainda brinca com os conceitos de cutscenes e inteligência artificial, tendo uma sequência exageradamente expositiva (propositalmente) sendo jogada no meio da narrativa, com a intenção de explicar a origem do vilão e o backstory do macguffin principal que os jogadores devem encontrar. Há ainda a boa sacada dos personagens não jogáveis, sendo meros bonecos digitais presentes ali apenas para entregar informações, frases repetitivas e outros macetes típicos da plataforma, algo que um ator como Rhys Darby faz muito bem na figura do “personagem que passa a missão” no início da narrativa. São recursos elegantes que servem à narrativa, ao mesmo tempo em que tiram sarro da artificialidade dos próprios, e tudo isso garante boas piadas.

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Mas nada supera o entrosamento do elenco. Todos os adolescentes da vida real fazem um trabalho competente, mas é mesmo quando o elenco mais “estelar” entra em jogo que a diversão começa, já que todos ali interpretam figuras fora de seu arquétipo. Nada pode ser mais divertido do que ver o brutamontes Dwayne Johnson interpretando um nerd inseguro e que mal consegue interagir com garotas, e que está constantemente se espantando com o tamanho de seus músculos – e digo sem medo que este é um dos poucos casos em que o ator realmente traz uma performance, já que vemos muito de Spencer nele. De forma similar, mas mais extrema, Jack Black se sobressai ao interpretar uma garota patricinha e viciada em redes sociais, rendendo os momentos de humor mais óbvio, com a figura de Black sendo excessivamente afetada e amedrontada, mas é inegável que o efeito funciona. Partindo da mesma premissa, Karen Gillan e Kevin Hart também divertem, ainda que Hart não saia muito de seu padrão mais estabelecido, e Nick Jonas tem uma participação de luxo com um personagem que replica a situação de Robin Williams no original, e o músico até que se sai bem.

Não é um filme perfeito, claro. Tecnicamente, há uma dependência muito grande em efeitos visuais, que acabam demonstrando sua artificialidade em diversos momentos, seja com cenários virtuais ou animais selvagens completamente renderizados – mas partindo por um lado, até mesmo videogames têm sua parcela de gráficos ruins, não? E ainda que traga boas cenas de pancadaria, Kasdan é mais um adepto da escola Anthony e Joe Russo do obturador de câmera alto, garantindo uma velocidade um tanto excessiva durante os golpes, chutes e saltos, o que nunca fica bom em um efeito 3D – ainda que a conversão seja bem decente em sua maioria. Por fim, vale mencionar o ótimo trabalho de Henry Jackman na trilha sonora, que oferece uma música intensa, old school e mais épica do que o esperado.

Dado tudo em jogo, o novo Jumanji se sai muito melhor do que o necessário, alcançando não só um resultado bem superior ao original, mas também sendo um dos filmes que melhor entende a linguagem de um videogame – e deixando cada vez mais claro que a metalinguagem talvez seja a chave para acertar essas adaptações amaldiçoadas. Com um elenco em sintonia e a mais pura intenção de divertir, é um belo pipocão.

Jumanji: Bem-Vindo à Selva (Jumanji: Welcome to the Jungle, EUA – 2017)

Direção: Jake Kasdan
Roteiro: Chris McKenna, Erik Sommers, Scott Rosenberg e Jeff Pinkner, baseado na obra de Chris Van Allsburg
Elenco: Dwayne Johnson, Kevin Hart, Jack Black, Karen Gillan, Bobby Cannavale, Nick Jonas, Alex Wolff, Ser’Darius Blain, Madison Iseman, Morgan Turner, Rhys Darby
Gênero: Aventura
Duração: 119 min

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