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Quando os dinossauros de Jurassic Park retornaram para dominar as telas em 2015, com a sequência tardia intitulada Jurassic World: O Mundo dos Dinossauros, não fiquei particularmente empolgado ou contaminado pela histeria em massa – refletida na bilheteria bilionária do longa de Colin Trevorrow, definitivamente recolocando a franquia no mapa. Era uma aventura que carecia do toque de Steven Spielberg, do maravilhamento em ver os dinossauros e também de uma boa história, que se limitava a repetir a estrutura do original e acrescentar uma série de ideias ruins que vão completamente ao encontro da proposta da trama originada por Michael Crichton. Como uma sequência era inevitável, eis que Jurassic World: Reino Ameaçado surge para comprovar que, não importa o quão ruim algo possa ser; o buraco é sempre mais embaixo. 

Se o primeiro era uma espécie de reboot do primeiro filme, Reino Ameaçado não esconde a inspiração de sua estrutura em O Mundo Perdido. Dessa vez, Owen Grady (Chris Pratt) e Claire Dearing (Bryce Dallas Howard) são contratados pela misteriosa empresa representada por Eli Mills (Rafe Spall), advogado de um certo Benjamin Lockwood (James Cromwell) – co-fundador do programa Jurassic Park ao lado de John Hammond – para uma operação de resgate na abandonada Ilha Nublar. Ameaçada por um vulcão em erupção, a dupla lidera uma equipe para resgatar os dinossauros e levá-los para um santuário de preservação, mas as reais intenções da empresa serão reveladas como algo muito menos digno.

Ataque dos Clones

É a mesma estrutura de “parque abandonado no primeiro ato, núcleo urbano na metade final”. O problema é que, mesmo que o segundo filme de Spielberg não tenha sido exatamente inspirado, ainda era algo mais digno. Reino Ameaçado é uma completa abominação em termos narrativos, e só posso evocar ao mestre Alfred Hitchcock e lembrar que o sucesso de um filme depende de apenas três coisas: o roteiro, o roteiro e o roteiro. E em nenhuma dessas, Trevorrow e seu parceiro habitual conseguem tirar algo memorável, e constantemente flertam com o absurdo. Se o conceito de domesticar dinossauros e torná-los “fofos” já era particularmente incongruente no primeiro (você tornaria o tubarão em Tubarão fofo? Levaria um Alien Xenomorfo para passear no quarteirão?), fica ainda mais cafona quando o texto força um laço emotivo entre Owen e o velociraptor apelidado de Blue, agora um dos elementos chave para a resolução da trama.

Por incrível que pareça, essa é a única relação de personagem que o texto realmente parece tentar oferecer alguma substância, o que é ainda mais assustador. Owen e Claire são personagens completamente desinteressantes, e mesmo que seus intérpretes sejam medianos (Howard é forçada demais, Pratt é carismático, mas preso a uma nota só), em momento algum sentimos alguma coisa pelo pseudo-casal. Pior ainda é a adição de novos personagens coadjuvantes nas formas de Justice SmithDaniella Pineda; representantes da ala millennial que definitivamente testarão os limites da lacração no blockbuster americano. Particularmente, isso nunca me foi um problema (especialmente da maneira como é feito na saga Star Wars), mas Smith e Pineda estão nesse filme apenas para esse propósito – e Smith para ser o alívio cômico mais irritante desde a criação de Jar Jar Binks.

Pior ainda é quando o texto tenta se aprofundar em questões mais relevantes, como o dilema moral de deixar ou não os dinossauros serem extintos novamente pela erupção. É rápido e raso, com toda a discussão formada através de frases de efeito com o personagem de Jeff Goldblum (como uma mera participação de luxo), e sendo esquecida assim que a trama engata no modo de ação. E boa parte desse dilema moral da ciência (bem resumido em poucas linhas de diálogo no primeiro filme) é estupidamente usada para o núcleo de personagem envolvendo a jovem Isabella Sermon, que ainda não consigo crer que realmente foi aprovado, e que pouca diferença faz dentro da narrativa.

E por mais que seja um spoiler de leve (ainda que esteja em todos os trailers divulgados), eu confesso que um leilão de dinossauros é o tipo de ideia que teria se encaixado melhor na cesta de lixo da sala de roteiristas. É risível só de se lembrar, e só me faz lembrar da piada com Homer em Os Simpsons, quando ele casualmente comenta que uma pessoa “pode ter todo o dinheiro do mundo, mas haverá uma coisa que jamais poderá comprar: um dinossauro”. Eu não me espantaria se essa de fato fosse a origem dessa ideia, que só é mais ridícula em execução, com as socialites e chefões do mercado negro oferecendo lances milionários por dinossauros… Não é à toa que Colin Trevorrow foi demitido do vindouro Star Wars: Episódio IX, já que obras como esta e o pavoroso O Livro de Henry me fazem questionar como seus projetos ainda são levados a sério em Hollywood.

De boas intenções, o inferno está cheio

Perdido com um roteiro sem salvação no colo, o cineasta espanhol J.A. Bayona tenta. Um diretor muito mais eficiente e capaz do que Trevorrow (ver O Orfanato e Sete Minutos para a Meia-Noite), Bayona traz um pouco de seu toque de terror para a condução das sequências de ação, tentando se aproximar daquele Spielberg inspirado na cena do T-Rex do primeiro filme – ou até mesmo Julianne Moore sobre o vidro rachado no segundo -, e o prólogo do longa realmente passa uma segurança. Acompanhamos um submarino vagando pelas profundezas do parque do anterior, e a forma como o diretor trabalha as sombras e as silhuetas de um mosassauro ameaçador são impactantes – e o design sonoro merece aplausos pela maneira como estabelece uma atmosfera assombrosa pelos constantes “bips” do submarino.

Infelizmente, esses parecem ser os únicos truques de Bayona: Sombras e silhuetas, que geram um trabalho mais interessante por parte do diretor de fotografia Oscar Faura. Durante o restante da projeção, todas as sequências de maior suspense apostam fortemente nesse jogo de iluminação, dependendo fortemente de trovões (chuva ex machina!) e reflexos em outros objetos para culminar em uma revelação “surpreendente”. Também admiro como o clímax é algo mais contido, literalmente levando dinossauros para um suspense dentro de uma mansão, mas é um daqueles casos onde o gênero simplesmente não suporta esse tipo de interação; e o exagero dos efeitos visuais para a criação dos dinos também nos corta de qualquer sensação de medo (perdoe-nos, Stan Winston). E um cineasta tão competente no terror como Bayona deveria ter mais truques senão o batido jump scare, que é utilizado da forma mais clichê possível, seja para uma ameaça, ou para a entrada de algum personagem inofensivo – no tipo de humor mais barato que há.

Mas não culpo Bayona totalmente. Com um roteiro desses, nem mesmo um Stanley Kubrick ressuscitado faria milagres.

É difícil explicar Reino Ameaçado. É de uma sucessão de ideias tão ruins que não parecem ser um acidente, parecem como um grito de socorro. É como se Colin Trevorrow deliberadamente tentasse fazer o pior tipo de filme possível, como a vítima sequestrada que tenta enviar algum sinal discreto para as autoridades sobre sua condição de cativeiro. Se não, é simplesmente triste ver os rumos que um longa tão genial acabou trilhando. Talvez seja o novo Transformers do cinema, e sem dúvida é a pior coisa a se acontecer com dinossauros desde o impacto daquele meteoro que os extinguiu. 

Jurassic World: Reino Ameaçado (Jurassic World: Fallen Kingdom, EUA – 2018)

Direção: J.A. Bayona
Roteiro: Derek Connolly e Colin Trevorrow, baseado nos personagens de Michael Crichton
Elenco: Chris Pratt, Bryce Dallas Howard, Rafe Spall, Justice Smith, Daniella Pineda, Jeff Goldblum, Toby Jones, James Cromwell, Isabella Sermon, Geraldine Chaplin, BD Wong
Gênero: Aventura, Ficção Científica
Duração: 128 min